domingo, 14 de setembro de 2014

História completa do nosso amor

Sempre acontecem coisas muito surpreendentes neste mundo. Coisas tão estranhas e inexplicáveis que (...). Mas talvez não sejam assim tão estranhas. Em abono disso poderia citar Aristófanes, Horácio, Luciano de Samósata, e alguns mais. Tudo isto vem também explicado num livro que o leitor bem conhece e que me dispensará portanto de lembrar. Um livro, de resto, com grande abundância de suspiros e ais, como convém a tudo o que brota da literatura séria, solene e (…).
Vou descrever os factos na sua simplicidade, deixando ao leitor o encargo de formular um juízo. Pois muito bem, fosse porque (…) ou por qualquer outro motivo, o certo é que (…). Ninguém sabe de quem partiu a ideia. Eu estou convencido de que partiu dele. Mas (e é um mas muito importante) talvez seja apenas a minha imaginação (…). Ela não disse nada. Trincou o lábio inferior e deixou as coisas neste ponto. (…) A noite ia amadurecendo, cheia de segredos.
Quando ele voltou para casa, o sangue corria-lhe em tumulto por baixo da pele (…). Assim permaneceu estendido, de olhos fitos no tecto, tentando o melhor que podia pôr certa ordem nos pensamentos. (…) Horas que duraram séculos. (…) Até que deslizou inconscientemente para esse vazio misterioso a que os homens chamam sono.
Na noite seguinte, ela quis que ele lhe dissesse o que era preciso fazer para se ser feliz. Os seus olhos e os seus dentes brilhavam (...). Ele deu-lhe a mais surpreendente das respostas: (…) e dizendo isto, esvaziou o copo inteiro. Ora, sendo ela muito dada a silêncios sentimentais, levantou-se e afastou a emoção fungando e (…). Teve mesmo assim a arte, o engenho, o… sei lá o quê, de negar (…). Ele ficou à procura de palavras para replicar mas elas, como sempre, não vieram. Toda a retórica de que era capaz murchou-lhe rapidamente na boca (…). Razão pela qual afirmo e reafirmo que (…).
Quanto aos peixes, dormiam todos no fundo dos lagos.

Publicado na página "Cronistas do Bairro, no Porto 24.

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