quarta-feira, 17 de setembro de 2014

M. de Milgueta

Muitos escritores usam iniciais para nomear as personagens das suas histórias. É uma técnica clássica. M. apaixona-se por L., mas L. está mais interessado no Pato à l'Albigeoise de B. Numa suite de hotel, A. tem relações íntimas com D., enquanto no quarto ao lado, com vista para o jardim, W observa Z. a esconder o cadáver de F.
Alguns dos melhores autores da literatura universal serviram-se largamente deste recurso. O objectivo, está bem de ver, é preservar a identidade das personagens. É nisso que os escritores querem que acreditemos. A verdade, porém, é outra e o motivo para o uso das iniciais é bem mais prosaico.
A verdade é que muitos autores têm uma tendência incontrolável para criar personagens com nomes que devem muito pouco à dignidade literária, digamos assim. E os que têm consciência disso, disfarçam essa tendência usando apenas as iniciais. O romancista Franklin De Brosses usou repetidamente esta técnica. Quem não se emocionou com a incrível história de amor entre A. e C., em “Os Dois Biscoitos”? Ora, A. era a inicial de Aldegundes e C. de Climalda.
Outro exemplo é o de Jedrzej Kitowicz, também autor de várias personagens conhecidas apenas pelas iniciais. Quem diria, pois, que M., cuja beleza era digna dos maiores elogios, na realidade, se chamava Milgueta? Ou que D. nasceu Dalgima? Ou ainda que o Senhor B. mais não era que Braudivaldino?
Um caso peculiar é o de “A Marquesa de O...”, de Kleist. Aqui não há qualquer nome escondido atrás de uma inicial. A marquesa chamava-se efectivamente “O”, quero dizer, apenas “O”, sem mais. Kleist usou as reticências apenas para disfarçar a ausência de um nome mais convencional e incendiar a imaginação sempre delirante do leitor. Mas então levanta-se um novo problema, que fica para outra história.

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