quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Chá e biscoitos de amêndoa

Conta-se que certa noite o Diabo apareceu a Fausto. O Diabo, criatura espiritualíssima, astuciosa, mestre em assuntos sombrios e chantage, queria por força vender a alma a Fausto. E pelos vistos não a vendia cara. Mas não sou especialista em assuntos de mercado e, por isso, como se costuma dizer, faço questão de manter um certo recato.
Fausto sentou-se na sua cadeira de bruços e durante alguns minutos não fez mais nada senão coçar o nariz. Um relógio distante bateu meia-noite e meia. O candeeiro lampejava no tecto como um olho enorme e misterioso. No telhado, um gato fez brilhar as suas garras.
A Fausto nem sequer lhe passava pela cabeça investir algum do seu precioso cabedal na aquisição de uma alma, mesmo tratando-se da alma do Diabo, coisa rara e inestimável, suponho eu, que não sou especialista, e também supunha Fausto. Houve um momento de silêncio, que se prolongou por várias horas. Estou a encurtar muito, senão nunca mais acabava.
- Hum! – murmurou Fausto, olhando o fumo do seu charuto e evitando as palavras caras.
- Hum! – retorquiu o Diabo, fumando um cigarro com vistosa boquilha e deliciando-se com o som da sua própria voz.
A noite, fiel a vastas leis secretas, aproximava-se suavemente do fim, como um sonho, e a madrugada começava a despontar. Ou a madrugada começava a despontar e a noite aproximava-se suavemente do fim. Decidido a não prolongar por mais tempo aquela visita, Fausto serviu alguns biscoitos de amêndoa para não parecer indelicado e depois, desculpando-se com um arrastado sorriso amarelo, despachou o visitante com uma chávena de chá de cidreira.
Ouvi contar (não posso garantir que seja verdade) que, mesmo tendo degustado com bastante agrado o chá e os biscoitos de amêndoa (tinha migalhas em várias partes da barba), o Diabo não apreciou a insolência de Fausto, a raiar mesmo a grosseria. Há, pois, quem acredite que na noite seguinte ele tenha regressado. E dessa vez com resultados totalmente diferentes.
O resto é silêncio. Ou, se não é, devia ser.

História publicada na página dos Cronistas do Bairro, no Porto24.

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