quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Uma mariposa pousada no tecto

Era o último dia da vida de Emiliano Leprini. Todos o sabiam. Emiliano Leprini sabia-o também. Não devemos ser demasiado sensíveis e escrupulosos nos assuntos relacionados com a morte. A existência é assim mesmo: o fim é certo e há um dia para morrermos.
Como disse, o último dia de Emiliano Leprini era exactamente aquele. Descalçou as pantufas, vestiu o seu melhor pijama de lã escocesa e deitou-se tranquilamente à espera. A tarde apagava-se, o sol mergulhava, ainda quente, no mar. A mulher era uma estátua de silêncio à sua cabeceira. Nesse momento, o moribundo observou uma mariposa que estava pousada no tecto. E não só a observou, como a estudou também (voltaremos a este assunto mais tarde, a menos que nunca mais voltemos).
Um lenço subiu à fronte da mulher e procurou pudicamente absorver uma ou duas lágrimas tristes. Emiliano tinha sido de muito boa companhia durante toda a vida e um espírito muito pronto, jovial e afável. Dele ninguém podia dizer que fora uma pessoa de trato difícil. Era a bondade e a pureza personificadas, ou como eu teria dito nos meus tempos de poeta: “Um lago tranquilo de águas límpidas, no coração ameno de um bosque.”
Ao fim de vinte e quatro horas, porém, nada tinha acontecido ainda. Emiliano Leprini começou a sentir-se um pouco desconfortável. A terra continuava no seu movimento de rotação sem ser perturbada, sem perder tempo com ninharias. E ele continuava deitado, imóvel, à espera da morte. Doíam-lhe as costas, sentia os músculos entorpecidos e tinha uma fome voraz.
- Oh! Merda!* - disse para os seus botões surpreendidos.
- Oh! Merda!* - repetiu em voz alta para a mulher, que permanecia à cabeceira.
Emiliano Leprini saltou ligeiro da cama e retomou a sua vida.

* Perdão. Estou a repetir textualmente as suas palavras. Não acrescento nada da minha lavra.

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