sábado, 7 de fevereiro de 2015

A água corre funda o homem não lhe chega


Talvez a sensação mais forte e duradoura seja a estranheza: não se entra em "Cavalo Dinheiro" com passos conhecidos, neste filme tudo é tensão e distância, tudo é o contrário da revelação — uma impressão que cresce na sombra, excita e assusta, um arrepio. A água corre funda.

Talvez isso venha da natureza dual de "Cavalo Dinheiro", aqui já não há um autor no sentido reverencial do termo. O filme é tanto de Pedro Costa como de Ventura, assistimos ao culminar da aventura arqueológica que começou em "A Casa de Lava": a análise dos vestígios materiais, mas também coisas tão abstractas como as manchas de humidade numa parede.

Pedro Costa executa um trabalho intenso e meticuloso (verdadeiro ofício): a colocação exacta e gentil da câmara; o tempo dilatado e justo; as paredes portas e janelas assinalando um espaço real e perturbado (como se o real tivesse pernas e braços); um som que oprime (nos quartos) e liberta (o vento nas folhas); as cores forjadas no coração das trevas; o silêncio e a música; o confronto íntimo com as fotografias de Jacob Riis (unir com evidência o particular e o geral); planos que explodem de ressonâncias dinâmicas — nada mais que matéria cinematográfica, mas levada a um extremo paradoxo. À margem da corrente dominante e disciplinar, Pedro Costa segue o ritmo sincopado de Ventura.

Dentro, no interior do interior, nesse território sem chão e sem argumento onde está Ventura e as suas projecções (homens de Cabo Verde, humilhados e ofendidos, que continuam a morrer) ainda é tudo mais opaco, mais sem medida, mais sem juízo. Em frente da câmara, Ventura desdobra-se em homem e feiticeiro: sim, ele faz parar o progresso, recolhe os destroços, reescreve a história. Fala do trabalho mal pago, das doenças, do abandono, dos pesadelos, do medo, da morte. Ao seu jeito, na sua língua: à doçura do crioulo opõe uma navalha, ao trabalho nas obras, uma camisa de renda, ao diagnóstico burocrático dos médicos, o tremor das mãos. Não sei bem como classificar esta representação tão inaudita e livre, fica um aperto no peito: um homem não é menos do que uma montanha, a vida de um homem digno é sempre fogo. O registo foi feito, tem o nome de um cavalo e a forma de um testamento. O homem não lhe chega.

Cristina Fernandes.


(Nota da redacção: ainda não é desta que a Cristina está de volta - este texto é uma excepção -, mas vamos continuar a tentar.)

3 comentários:

hmbf disse...

nice

Carolina Lapa disse...

Queremos a Cristina! Queremos a Cristina! :)

"O povo unido vencerá vencido!"

c disse...

vencido, coxo e gago :)

Arquivo