quinta-feira, 18 de junho de 2015

Palco

O macaco-de-nariz-pontiagudo sai de cena e entra o filósofo. O filósofo faz trinta minutos de abdominais, flexões e polichinelos. Abandona o palco, muito satisfeito com a sua condição física, e entra o padre. Um homem maravilhoso, maravilhoso. Desaparece e entra o comediante. Este coça duas ou três vezes a orelha direita com o indicador, acende um cigarro e deita-se no chão durante alguns minutos. O comediante, com licença do leitor, está um pouco bêbado.
- Eu dou licença – diz o leitor.
Pouco depois o comediante sai, um tanto a custo, e entra o economista, que traja limpa e admiravelmente. O economista vai-se embora quando entram as batatas. As batatas dizem coisas deste teor: “Desculpem, minhas senhoras e meus senhores, mas não passamos de pobres batatas. A natureza não foi pródiga no génio e nas capacidades que nos deu. Em todo o caso, e sem querer perturbar o frágil equilíbrio do cosmos, e também com a devida licença do leitor, gostávamos de dizer umas quantas verdades.”
- Eu dou licença – anui o leitor.
E então dizem uma enorme quantidade de verdades, umas atrás das outras. Depois, saem e entra a morte. A morte é uma rapariga muito bonita e de boas maneiras, mas tem o defeito de ser sobremaneira distraída. Tropeça, cai, arranha a cara e quase parte o nariz. Foge apavorada quando pressente a chegada do poeta. O poeta demora a entrar. (Alguma apreensão entre o público.) Entra, por fim, em cena, arrastando-se pelo palco. Às suas costas, confortavelmente instalado e em ampla pose real, vem o macaco-de-nariz-pontiagudo.

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