quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Pela poeira que se levanta ao longe

Da investigação de E. Soja, imagino algures no chamado Crescente Fértil - hoje a ferro e fogo, do Estado de Israel ao Estado Islâmico –, um grupo com o seu chefe no cimo de uma colina. Diz um:
– pelo pó que ali se levanta ao longe, vem aí um grupo com o seu rebanho!
– sim, diz outro, espécie de chefe, vamos matá-los todos e as suas cabras e reservas de alimentos serão para nós um “excedente” de quem dele já não precisa.
Assim fizeram e foi uma chacina. Dali a tempos, repete-se a cena. Diz um:
– pela poeira que se levanta ao longe, vem aí um grupo com o seu rebanho!
– sim, diz o tal chefe, agora todo-poderoso pelo sucesso que teve na operação militar anterior; agora não vamos repetir a asneira da outra vez: matamos metade e escravizamos os outros para trabalharem, pastorearem o rebanho e agricultarem estas terras aqui à volta da colina.
Tantas vezes isto ocorreu, que o pessoal nómada que por ali deambulava com os seus rebanhos começou a passar palavra de umas tribos para outras dizendo que era preciso cuidado e armamento para passar naquele corredor onde estavam aqueles facínoras no topo da colina. A coisa começou a ser ainda mais violenta.
Então, os da colina construíram uma muralha para se defenderem e organizarem o ataque e uma torre para melhor controlarem os movimentos no terreno. Tinha nascido a primeira cidade!
Tem lógica. Os humanos são assim. É pena que isto estrague aquelas ideias luminosas da cidade como pico civilizacional, ecossistema humano sofisticado de onde brota cultura, ideias, inovações, justiça e outras coisas. Pois, pois, o resto também. Agora já não são precisas muralhas e torres, tudo anda mais espalhado, há muitos chefes e coisas mais valiosas que cabras em cada esquina do planeta.

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