quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Aptidões e possibilidades do guarda-chuva

De todos os objectos que existem no mundo, o guarda-chuva é aquele que presta ao homem os mais assinalados e distintos serviços. Certamente o automóvel e a escova de dentes foram e continuam a ser utilíssimos auxiliares. Ambos, de resto, com uma brilhante folha de serviços em prol da civilização moderna. No entanto, o guarda-chuva é o único que verdadeiramente compreende o homem e que procura servi-lo sem a preocupação de quaisquer benefícios materiais. É o único que procura espontaneamente o convívio constante com o dono e que conhece todas as pessoas da família, como se dela fizesse parte.
Não pretendo aqui tecer mais um hino às virtudes do guarda-chuva, a propósito do qual já se escreveram as mais lisonjeiras referências, não só em obras da especialidade*, mas também e sobretudo em belas páginas de eminentes prosadores, poetas, teólogos e filósofos. A nossa intenção é apenas enumerar objectivamente algumas das qualidades naturais do guarda-chuva.
Ora, no seu brilhante palmarés figuram inúmeras aptidões de grande utilidade: persegue e desmascara criminosos; conduz os cegos, com extremos de zelosa solicitude; socorre os viandantes transviados nas tempestades; lança-se à água para salvar vidas humanas; vai, espontaneamente e por vezes a grandes distâncias, pedir socorro para sinistrados.
Além desta brilhante folha de serviços, tão distintos dos que podem ser prestados por quaisquer outros objectos, alguns donos pouco escrupulosos, aproveitando a inteligência e extrema dedicação dos guarda-chuvas, instruem-nos nas abomináveis artes dos contrabandistas, e a verdade é que fazem deles insuperáveis cooperadores.
Enfim, através da sua natural bondade, o guarda-chuva “fala” uma linguagem silenciosa, pela qual manifesta os seus desejos, sentimentos e intenções, sempre com uma verdade e franqueza que bem podem servir de exemplo ao homem, se este não fosse, fundamental e incorrigivelmente, um dissimulador.

* Sobre este ponto veja-se Suárez de Mendonza, Marinesco e Douney.

1 comentário:

Janita disse...

Olhe...A esta bela crónica, só não a denomino como "O ELOGIO DO GUARDA-CHUVA", por não ter sido escrita na primeira pessoa!
Esse objecto, da era moderna, desempenha uma missão tão importante na minha vida, que só este ano, em poucas semanas, já possui três!
Lamentavelmente, podem possuir muitos atributos e mil funções, mas cada vez são mais fracalhotes.
A sua linguagem deixa muito a desejar...Talvez, por isso, os homens os dispensem tanto.

PS: Com grande pena minha e devido à intempérie - onde nem o guarda-chuva, com meia-dúzia de varetas partidas, me valeu - ontem não me foi possível deslocar-me à Rua do Rosário. Fiquei-me por Costa Cabral!

Janita

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