sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Stálin morreu sem ordem pessoal do próprio camarada Stálin.

Mas, de repente, a 5 de Março, Stálin morreu. Esta morte rompeu o gigantesco sistema de entusiasmo mecanizado, da ira popular e do amor popular estabelecidos por ordem do comité do partido.
Stálin morreu fora do plano, sem ordem dos órgãos de direcção. Stálin morreu sem ordem pessoal do próprio camarada Stálin. Nesta liberdade, neste voluntarismo da morte havia qualquer coisa de dinamitador, contradizendo a própria essência profunda do Estado. Grande perturbação abrangeu as mentes e os corações.
Stálin morreu! Havia aqueles a quem o sentimento da desgraça colheu: nalgumas escolas, os professores obrigavam os alunos a ajoelharem-se, e eles próprios, de joelhos, banhados em lágrimas, liam o comunicado governamental sobre o falecimento do líder. Nas reuniões de luto das instituições e fábricas, havia muitos que entravam em histeria, ouviam-se as exclamações loucas das mulheres, os choros, algumas caíam desmaiadas. Um grande deus, ídolo do século vinte, morreu, e as mulheres choravam.
(...)
Stálin morreu! Nesta morte havia um imprevisto elemento livre, infinitamente alheio à natureza do Estado stalinista.

Vassili Grossman, Tudo passa. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

2 comentários:

Luis Eme disse...

Conheço uma porção de gente que sorriu com a morte do ditador. Maldita esperança...

Janita disse...

Esse fanatismo exacerbado pela morte do ditador, fez-me lembrar do escritor romeno Constantin-Virgil Gheorghiu e dos seus relatos acerca da Rússia ditatorial, impiedosa e dominadora.
No "A 25ª Hora", há uma passagem que gostaria de reproduzir, sobre o 'fabrico de heróis'.
Apesar de procurar em várias estantes só encontrei "O Homem que Viajou Sozinho" que relata outras 'guerras'.
Tenho pena.

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