sábado, 13 de fevereiro de 2016

Nem o autor saberia dizer muito bem qual a sua “intenção”

Antigamente, traduzir era, cientificamente, “impossível” (apesar de haver tradução desde sempre…), já que não temos acesso à “intenção do autor” e que existem termos “intraduzíveis” de umas culturas ou outras; o tradutor era um “traidor”, por mais que tentasse ser “fiel” à obra, e esta era sempre “perfeita”, enquanto que a tradução, “diferente”, sempre “inferior”, sempre fadada ao fracasso, sempre destinada a “perder” coisas aqui e ali. Hoje em dia, em grande parte graças aos desconstrutivistas, sabemos (ou ao menos, rosianamente, desconfiamos) que, de qualquer forma, nem o autor saberia dizer muito bem qual a sua “intenção” (lembro de uma anedota do escritor que foi resolver questões de vestibular sobre seu próprio livro e foi reprovado…), que existem termos “intraduzíveis” que são perfeitamente explicáveis, que as obras não são algo fixo, rijo e uno, e que, portanto, tendo em vista a pluralidade de pontos de vista possíveis e a historicidade de que estão impregnados tanto os autores quanto os tradutores, deve-se examinar melhor uma tradução e seu projeto antes de sair por aí afirmando que sicrano foi “infiel”, “traiu”, “perdeu” aquele aspecto ou aqueloutro. Enfim, por mais desafiadora que seja a tradução, creio que um tradutor nos dias de hoje teme um pouco menos o autor e sua obra, agora que ambos já foram razoavelmente desmitificados, dessacralizados, destituídos de sua aura intimidadora (pensando aqui em Walter Benjamin), embora isso não queira dizer que os tradutores atuais são desrespeitosos, não - como bem o sugere Paulo Henriques Britto em “Tradução e Ilusão”, “os tradutores literários de hoje tendem, de modo geral, a levar a meta de fidelidade ao original mais a sério do que era comum cinquenta ou sessenta anos atrás”; afinal de contas, é importante também mencionar que o tradutor está ganhando cada vez mais visibilidade e que, por conseguinte, poucos são aqueles dispostos a comprometer sua próprio imagem com um trabalho ruim, isto é, impensado, inconsequente, elaborado a partir de escolhas infundadas ou mal fundamentadas.

Zéfere.

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