quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Uma bela manhã

O traseiro de Bastian era o sítio para onde convergiam todos os pés. Homens, mulheres, velhos, novos, padres, políticos, altos ou coxos, ninguém se poupava a um belo pontapé no traseiro de Bastian. Era um hábito que fazia parte da vida da cidade. Os pontapés sucediam-se nas ruas, nos transportes públicos, nos cafés e no escritório, com a precisão de um relógio solar.
Durante a noite ainda ia tudo bem. Mas de manhã o martírio do pobre homem começava. Havia sempre alguém com vontade de desferir um panásio certeiro. E ao fim do dia, esgotado, abatido, amarrotado, com o traseiro moído de pancadas, arrastava-se até casa.
Apesar disso, Bastian conservava a impassibilidade de um santo de altar. Era um homem pacífico, incapaz de fazer mal a uma mosca. Tossia, arqueava as sobrancelhas, acendia um cigarro, e lá ia andando e apanhando pontapé atrás de pontapé.
Mas por que razão não punha ele termo àquilo? Por que não fazia qualquer coisa, por que não tomava uma atitude? Os anos foram passando, todos iguais e sem outros episódios. E tudo o que fez foi voltar as costas ao caso e aguentar estoicamente as pernadas no traseiro.
Durante toda a vida sonhou que uma bela manhã iria acordar para descobrir que deixara de ser o saco de pancada da cidade. A gloriosa manhã em que ele próprio assentaria um comedido, envergonhado e inaugural pontapé no traseiro do vizinho. Mas isso nunca aconteceu: era apenas um sonho*.

* Fui eu que escrevi este “era apenas um sonho”? Pobre Bastian. Merecia ter encontrado um narrador com mais imaginação.

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