quinta-feira, 26 de maio de 2016

A máquina de Shelley

Shelley tinha um sonho: construir a maior e mais bela máquina do mundo. A esse sonho dedicou uma vida inteira de trabalho e todas as suas energias. Pois bem, eis o resultado do seu longo e minucioso esforço: uma colossal máquina luzidia, de esplendorosa beleza e extraordinária complexidade.
À primeira vista, parecia uma máquina de cortar árvores. Ou talvez um mecanismo para despedaçar pedras. Com todos os componentes minuciosamente articulados entre si, tambores e tirantes, engrenagens e correias, válvulas e manómetros, rolamentos e cilindros oscilantes. A verdade, porém, é que a máquina não servia para rigorosamente nada.
De qualquer maneira, o gigante de ferro causou ampla sensação. E de toda a parte vinham curiosos só para o contemplar. Tiravam o chapéu com gravidade respeitosa e olhavam para o mecanismo de olhos muito fixos e boca aberta. Enquanto Shelley, nitidamente satisfeito com o seu sucesso, saltitava entre uma nuvem e outra, agitando umas gloriosas asas imaginárias, para cima e para baixo, para cima e para baixo, flap, flap, flap. Não era um homem, era o sonho de um poeta, um génio prodigioso, uma criatura divina.
Mas agora vou contar como tudo isto acabou. No auge da sua fama, e num aparente momento de distracção, Shelley tropeçou cuidadosamente no braço de uma alavanca e caiu dentro da máquina. Apenas teve tempo para considerar o motivo do seu infortúnio, dizendo (com a voz muito bem colocada e piscando o olho):
- Ó maldita máquina, eu julgava ter encontrado em ti a felicidade; agora lamento em vão o meu louco sonho de grandeza e à minha custa descubro a tua destruidora e maléfica índole.
E sendo tragado por uma faiscante roda dentada, soltou o último suspiro.

Publicado no Porto 24, página dos Cronistas do Bairro.

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