terça-feira, 20 de setembro de 2016

A ideia ocorreu-me uma vez:

se se queria aniquilar, esmagar, castigar um homem de modo bastante implacável, para que o pior bandido tremesse de medo antecipadamente, bastaria dar à sua tarefa um carácter perfeitamente absurdo, de absoluta inutilidade. Os trabalhos forçados actuais, apesar de não apresentarem qualquer interesse para o preso, nem por isso são desprovidos de sentido. O forçado-trabalhador faz tijolos, cava o solo, tritura o gesso, reboca construções, e nesses trabalhos aplica a inteligência e tem um fim. Às vezes chega a interessar-se pela sua obra e a procurar fazê-la melhor e mais habilmente. Mas se o empregarem, por exemplo, a transvasar água de uma vasilha para outra e desta para a primeira, a britar pedra ou a transportar montes de terra de um lugar para outro, para os voltar a pôr, em seguida, no seu lugar inicial, julgo que ao fim de alguns dias se estrangulará ou cometerá mil delitos, a fim de merecer a morte ou escapar a semelhante rebaixamento, a semelhante vergonha, a semelhante tormento.

Fiódor Dostoiévski, Recordações da casa dos mortos. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.

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