terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Ainda agora começou e já foi há tanto tempo

Em meados dos anos 80, o Porto era uma cidade cercada. Não pelo exterior, mas a partir de dentro. A sensação era a de que se vivia afastado de tudo o que de importante estava a acontecer no mundo. O que chegava de fora não era suficiente para aplacar a nossa fome. A rádio, a televisão e os jornais, que para os padrões de hoje pareceriam radicalmente alternativos, representavam o tipo de cultura e informação que era necessário rejeitar.
Dentro de muros, a resistência, como sempre, fazia o seu obscuro caminho. Fanzines, plaquetes e boletins, circulavam de mão em mão, nos cafés, nas lojas de discos, nas associações de estudantes e colectividades, numa espécie de samizdat legal. Desenhadas à mão, escritas à máquina, reproduzidas em lojas de fotocópias, em formato A4 ou A5, com mais ou menos páginas, quase sempre a preto-e-branco, as publicações alternativas da época seguiam a estética mais simples do DIY.
Edições sobre música, cinema, literatura, filosofia, política e outros temas impossíveis de classificar, circulavam um pouco por toda a parte, ao preço de custo. Havia de tudo. Boas ideias, bom pensamento, boa produção, mas também exercícios ingénuos e profundamente naïf. O mais importante, porém, era a energia, a potência, a necessidade incontrolável de fazer, mostrar, partilhar, de resistir ao cerco.

No meio da avalanche fanzinesca do Porto de meados de 80, destacava-se facilmente o trabalho de alguns autores/editores (a distinção entre autor e editor, na maioria dos casos, não era simples de fazer). António da Silva Oliveira (A. Dasilva O., 1958), não sendo um caso isolado, era um caso único. Publicava e ajudava a publicar. Não apenas fanzines, mas também revistas e livros. E não apenas revistas e livros, mas também projectos ligados aos mais diversos domínios da intervenção cultural e artística.
Em 1981, juntamente com Bernardino Guimarães, Daniel Guerra e Luís Guimarães, funda a Rádio Caos, um dos exemplos mais estimulantes do grande fluxo criativo gerado pelo movimento das rádios livres (rádios pirata). A Rádio Caos emitia programas sobre música (do jazz ao pop, do rock mais alternativo à clássica), literatura, ecologia e até radionovelas, escritas e interpretadas pelo próprio Oliveira. A pretexto da Rádio Caos, publicaram-se revistas, organizaram-se concertos, abriram-se espaços de colaboração entre numerosos criadores do Porto e de outros lugares. O amplo lastro deixado pela Caos, impedida de emitir no fim dos anos 80, é algo que está por estudar.
Ainda na década de 80, Oliveira cria as Edições N., a revista Última Geração e, mais tarde, as Edições Mortas, com um extenso catálogo que continua a crescer e que atravessa vários géneros. Em 1994, organiza as Conferências do Inferno, no Ateneu Comercial do Porto, e depois os Encontros com o Maldito, em colaboração com o grupo de teatro Contracena. Em meados dos anos 2000, abre a Pulga, uma livraria dedicada à venda de livros de pequenas editoras, num acto de resistência contra o monopólio das grandes cadeias de distribuição. Actualmente, edita e dirige as revistas Piolho e Estúpida.

Em cerca de 40 anos de contínua produção, António da Silva Oliveira impôs uma marca indelével e sem paralelo na cultura e contracultura da cidade. Uma parte importante da edição alternativa e independente, que vive hoje um momento de particular dinamismo, é devedora do trabalho pioneiro, exigente, insubmisso e heterodoxo de Oliveira e do seu grupo de colaboradores. Um trabalho que, de forma assumida pelo próprio ou em resultado da acção cega dos diferentes poderes políticos, culturais e académicos, foi sempre mais visível a partir da margem. A margem, que é onde tudo começa e onde tudo acaba.

1 comentário:

António disse...

Oh, não pude agora evitar uma lagrimita ao recordar o Marrazes de 80 e a Rádio Colipo cujo nome foi definitivamente envenenado por um gelado contemporâneo da Olá (o dono daquilo subia às paredes quando se fazia a graça com o calipo), onde a malta se julgava muito tresmalhada por passar o smoke on the water em vez dos wham, embora às vezes passasse wham porque havia um telefone, e onde uma vez se leu um texto meu moralista sobre a guerra fria (o locutor teve um ataque de riso logo no primeiro terço e leu o resto aos soluços; nada me corre bem).

Ai, aqui e nessa altura alguém dizia Porto e a gente suspirava como se nos tivessem dito Nova Iorque.

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