quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Fantasmas



Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito, um fidalgo, dos de lança de cabido, adarga antiga, rocim fraco e galgo corredor.
Dom Quixote.

Ontem à noite, vi pela primeira vez “O espírito da colmeia”, de Victor Erice. Filme assombroso, cuja atmosfera remete vagamente para Tarkovski. Imaginem uma aldeia isolada no interior de Castela, durante a Segunda Grande Guerra. Poucas dezenas de habitantes, cuja presença se sente, mas raramente se mostra. Há uma casa fidalga onde vive uma família com duas crianças, irmãs de pouquíssima idade. O pai parece um fantasma, a mãe tenta escapar a essa condição (há qualquer coisa de fantasmático na relação entre eles). A casa é a imagem da aldeia: amplos corredores despidos e um longo silêncio, só quebrado pelo som do vento, os sussurros das crianças e o latir dos cães (talvez demasiado conscientes dos fantasmas que ali habitam). As únicas coisas vivas são as abelhas, que o pai cria, e também a imaginação das crianças. Ambas livres, mas ao mesmo tempo fatalmente ligadas às respectivas colmeias.
Este é o ambiente do filme. Um ambiente embrulhado numa cor sépia, desmaiada, que envolve tudo e que é conferida pela terra seca e fria do Inverno de Castela. O truque não é novo, mas Erice consegue reinventá-lo com uma destreza e sabedoria impressionantes. A solidão e o isolamento da aldeia são rompidos em três momentos. Todos eles, porém, dissolvem-se no vazio e nenhum conduz a uma saída.
O primeiro momento coincide com a chegada do cinema ambulante. As crianças correm atrás da carrinha que transporta o projector, numa evocação das primeiras imagens de Há festa na aldeia, de Tati. O filme é exibido no salão da “casa do povo”, um espaço que parece uma ruína. A película é Frankenstein, de James Whale. O famoso fantasma feito de bocados de carne e osso, cujo único desejo é viver.
O segundo momento é o da chegada do comboio. O comboio aparecerá fisicamente mais uma ou duas vezes, e outras tantas através do som. Só pára uma vez na estação e durante breves segundos. Na verdade, parece limitar-se a atravessar os campos a grande velocidade, no meio de uma nuvem de fumo, sem parar. É outro fantasma, que vem e vai, de lugares incógnitos para lugares desconhecidos, talvez reais, talvez imaginados. Neste ponto, é impossível não pensar nas histórias fabulosas de Stefan Grabinski.
O terceiro momento em que o mundo exterior irrompe pelo interior do filme, acontece igualmente por meio do comboio. Um foragido lança-se de uma composição em movimento para os campos. Fica ferido na queda e refugia-se numa casa abandonada, onde as irmãs acreditam viver um fantasma. O homem, que não diz uma palavra durante o filme, acaba morto pela polícia. Depreende-se que fosse um perseguido político, um combatente republicano. Mais uma vez, alguém que vem de fora afunda-se ou dissolve-se irremediavelmente naquele ambiente de fim do mundo (paira também por aqui o fantasma de Juan Rulfo). O seu corpo é exibido na mesma sala onde antes fora exibido “Frankenstein”. Os fantasmas repetem-se, vivem entre os vivos, confundem-se com eles, fazem parte da mesma colmeia.
Apesar de tudo isto, "O espírito da colmeia" não é uma filme de fantasmas. Também não é apenas uma metáfora sobre a Espanha franquista. É um filme sobre nós.

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