quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Nada

Quando leio certos contos de Virgilio Piñera, a minha memória convoca também Robert Walser. Há em ambos uma atracção obsessiva pelo nada. As histórias parecem desfazer-se em pó. Os personagens parecem deslizar fatalmente para a desintegração. O que os distingue é uma diferença de grau, conferida talvez pela cor local. Piñera aproxima-se do nada por via do excesso, Walser por defeito. Piñera explode em imagens espantosas e truques formidáveis antes de tudo acabar no mais completo silêncio. Walser não grita, não gesticula, nunca muda de tom ou ritmo. No fim, o silêncio e o vazio são os mesmos: "Sem tempo, sem espaço, sem memória, sem nostalgia" (Piñera, Salão Paraíso).

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