sexta-feira, 21 de abril de 2017

Na cabeça de Beckett

Tania Bruguera montou Endgame no interior da cabeça de Samuel Beckett. Por dentro, tudo é branco. Paredes brancas, chão branco, “tão branco, tão limpo”, ou melhor, sem cor, um “deserto”. No centro, um homem cego, Hamm, numa cadeira de rodas. Através de uma abertura na cabeça, outro homem, Clov, entra e sai, coxo, incapaz de se sentar. Clov é uma espécie de escravo de Hamm. Mas a verdade é que Hamm depende de Clov, escravo do seu escravo. Aparentemente, estão vivos, mas de uma certa maneira estão mortos, nessa “pequena plenitude perdida no vácuo, para sempre”. “Do outro lado é… o outro inferno.”


Em cima: o interior da cabeça de Beckett.

Tania Bruguera ergueu a cabeça de Beckett no coração do Mosteiro de São Bento da Vitória, apoiada numa impressionante estrutura espiralada em ferro (trata-se de uma grande cabeça, pesada, cilíndrica). O interior da cabeça é inacessível ao público, excepto através de pequenas aberturas onde só cabe, justamente, a nossa cabeça. O efeito é belíssimo: sessenta cabeças dentro da cabeça de Beckett. Tudo se passa ali, dentro do pensamento, dentro da imaginação do autor. Nada mais existe. Apenas aquela história. Será uma história?
 
Em cima: o exterior da cabeça de Beckett.

HAMM - Não estamos prestes a… a… significarmos qualquer coisa?
CLOV - Significar? Nós, significarmos? (Riso breve.) Ah, esta é boa!

Excertos (entre aspas) de Fim de Partida, com tradução de Manuel Seabra.

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