sexta-feira, 7 de abril de 2017

Subir pelas paredes



Eis o menos nobre e mais vulgar dos materiais: o plástico. Barato, banal, está por todo o lado e serve para tudo. É o mais popular dos materiais. E que valor tem quando perde a sua utilidade? O que vale o pedaço de um brinquedo partido? O que resta de um recipiente de cozinha? Uma embalagem atirada para o lixo? O que vale o estilhaço de um electrodoméstico trazido pelo mar? Faça-se o exercício: observe-se com mais atenção esses objectos. A cor, a textura, a forma. Fora do seu contexto funcional, os objectos ganham uma potência, uma energia e uma vida muito particulares. Schwitters e Duchamp viram isso, Rauschenberg e Warhol também. Vários artistas tiveram essa visão com materiais diversos. Ricardo Nicolau de Almeida (RNA) viu isso no plástico.

RNA recolhe restos de plásticos, que aparecem aleatoriamente nas ruas e nas praias. Fragmentos diferentes entre si, que o artista reordena, recompõe e recombina segundo uma visão estética radicalmente pessoal. Os materiais ganham uma ordem, digamos, orgânica: assemelham-se a animais, vegetais, algas, partes do corpo humano. Parecem vivos e prestes a mexer, a ondular, a arrastar-se pelo chão ou a subir pelas paredes. 

Um dos aspectos mais fascinantes do trabalho de RNA reside no paradoxo que se instala entre a pobreza do material e a sua perenidade. O plástico é mais resistente do que as melhores tintas, telas ou madeiras. As obras de RNA estão condenadas a durar muito tempo. A qualidade que faz do plástico um problema ambiental e ecológico é a mesma que confere uma especial força estética e simbólica ao trabalho de RNA. Pobre e eterno. Pop e perene.

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