sábado, 8 de abril de 2017

Tudo



Al mada nada nasce de Turismo Infinito e este irrompe daquele. Infinito e Nada, Fernando Pessoa e Almada Negreiros, uma quantidade interminável de viagens reais e imaginadas, viagens que estão antes das viagens, circulares (“Vem ouvir a minha cabeça contar histórias ricas que ainda não viajei!”). O palco é o mesmo, a substância é a mesma, a corrente e a geometria são as mesmas. Duas faces de um díptico excepcional e a prova de que se faz bom teatro em Portugal. Ou pelo menos a espécie mais importante de teatro: aquele mais imaginativo, estimulante, provocante. Gostava de arriscar a palavra “experimental”, mas receio que esteja demasiado gasta e cheia de cuspo. A verdade é que al mada nada é um exercício fascinante de experimentação em torno das palavras, das visões que elas suscitam e de todas as combinações possíveis entre umas e outras.

O espectáculo parte essencialmente de Saltimbancos, texto publicado por Almada no número único da revista Portugal Futurista, em 1917. “Parte” desse texto e nunca o abandona. Vive, respira, cresce por dentro e por fora dele. E essa ligação profunda com o texto, cada vez mais rara nos palcos do Porto, é um dos aspectos que mais me emociona e toca neste trabalho de Ricardo Pais com Manuel Tur e dramaturgia de Pedro Sobrado.

Em Saltibancos há uma menina chamada Zora, contorcionista (o corpo, sempre o corpo em contorção, girando sobre si mesmo, como o breakdance dos b-boys) num circo miserável juntamente com a mãe e o pai. Artistas pobres, trágicos, falhados. Alvos da chacota dos espectadores, que lhes atiram pedras. As pedras assemelham-se a trovões que atravessam o ar: ferem a carne e fazem explodir as lâmpadas de acetileno, extinguindo a luz do circo. A história começa com soldados num quartel, sob um sol pesado e quente, e termina num tumultuoso festim de violência, e na escuridão. O caminho que medeia entre o princípio e o fim lembra uma via crucis. A paixão dos personagens, de Zora e dos pais, é uma imagem poderosa da condição do próprio teatro: as luzes acendem; os actores nascem, entregam-se com o corpo todo a uma espécie de imolação diante do público, morrem; as luzes apagam-se; escuridão; fim. Não resta nada. O teatro tem destas coisas. Raras.

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