segunda-feira, 19 de junho de 2017

As Bacantes somos nós

Bacantes - Prelúdio para uma purga, de Marlene Monteiro Freitas, é uma obra muito bela e complexa, povoada de pormenores, truques e dispositivos curiosíssimos, que revelam uma inteligência e sensibilidade raras. A escolha da grande peça de Eurípedes (representada pela primeira vez por volta de 406 a. C.) não é inocente: As Bacantes retratam as origens do culto de Dióniso, cujo ritual era acompanhado de dança frenética até um estado de exaltação mística - a loucura sagrada - alcançada pelo esgotamento físico.

Há muitos aspectos em Prelúdio para uma purga que me escapam e cujo mistério contribui para adensar a sua beleza. Mas há outros para os quais preciso de arriscar uma tentativa de interpretação.


Começar pelo princípio

A peça de Eurípedes, As Bacantes, centra-se no mito do rei de Tebas, Penteu, que se recusa a venerar Diónisos e que, em consequência disso, é castigado pelo deus da forma mais cruel e trágica: o rei é morto pela própria mãe, Agave, enquanto esta se acha tomada pelo delírio báquico, durante as celebrações dos rituais dionisíacos. As Dionísias eram festas em honra de Diónisos, também conhecido por Baco ou Brómio, deus da fertilidade e do vinho, potencial causador de alterações da consciência que fazem supor a intervenção de uma divindade.

Mas não é essa a via normalmente seguida para atingir o êxtase, ou seja, a sensação da presença do deus, a alienação momentânea da personalidade, substituída pela de Diónisos. Há todo um conjunto de actuações que preparam esse momento. Trienalmente, em pleno Inverno, descalças e com vestes ligeiras, mulheres em grupo [as Bacantes] subiam às altas montanhas cobertas de neve e aí, ao som de flauta e tamboris, efectuavam correrias e frenéticas danças (oreibasia), apanhavam e dilaceravam um animal selvagem (sparagmos) e, finalmente, comiam-no cru (omophagia), alcançando assim o referido êxtase. Todos estes actos estão magnificamente expressos no párodo de As Bacantes, a mais completa fonte de informação que possuímos [sobre o culto dionisíaco].

Maria Helena da Rocha Pereira.


Marionetas

Tal como as Bacantes de Eurípedes, os personagens de Prelúdio para uma purga actuam, ao longo da peça, como se fossem conduzidos por uma espécie de força exterior, que está para além da sua vontade, razão e consciência. Como se a divindade comandasse toda a acção e os personagens, simples marionetas nas mãos do deus, não fossem responsáveis pelos seus actos. Por outras palavras, tudo pode acontecer, nada é impossível.


Dois coros

Um dos truques mais curiosos de Marlene Monteiro Freitas é a maneira como põe em cena dois coros, sublinhando a importância que Eurípedes atribui ao coro na peça original. O primeiro coro é formado por um grupo de trompetistas (em lugar das flautas) e o segundo pelo conjunto dos bailarinos (que recorrem a um drum pad, em substituição dos tamboris). O momento mais cómico de Prelúdio para uma purga é justamente um “diálogo” entre os dois coros, durante o qual ambos recorrem a diferentes linguagens, desenhando-se uma espécie de atlas de todos os sons do mundo.


Estantes vazias

No palco estão dispostas inúmeras estantes de partituras vazias. O conjunto forma uma espécie de estranho bosque de ramos metálicos. Não há pautas nem textos. O truque é muito hábil e parece querer dizer que as folhas com a peça de Eurípides desapareceram e que os personagens estão obrigados a reinventar ou refazer a peça original. As estantes vazias transformam-se então, nas mãos dos personagens, em espingardas (apontadas aos espectadores, talvez como castigo pela nossa falta de fé nos deuses), aspiradores (que vão limpando os destroços que ficam das danças orgiásticas), bicicletas (que avançam para lado nenhum a não ser por dentro da imaginação), máquinas de escrever (que os personagens usam para escrever e reescrever, vezes sem conta, ficções que se perdem no ar) ou muletas (talvez numa referência à velhice, representada na peça original por Cadmo, o velho rei de Tebas, e Tirésias, o adivinho). Há ainda momentos em que os personagens deformam ou destroem as estantes, como se o objectivo fosse eliminar Eurípedes e começar tudo de novo.


O traseiro falante ou a vulva cantante

A certa altura, ainda nos primeiros momentos da peça, a cena é dominada por um personagem (falta-me um termo melhor), que consiste num traseiro que fala. É um dos momentos que não consigo perceber inteiramente, mas que tem um forte impacto. Que significado pode ter um traseiro que fala, no contexto da peça de Eurípedes? A representação do culto dionisíaco, ou seja, o momento em que o mundo se apresenta de pernas para o ar? Um aviso de que estamos a assistir a uma história que exige um olhar diferente, pelo avesso? O simples e prosaico local da purga? Ou será antes uma vulva que canta? O sexo tem uma voz e é a voz principal nas acções das Bacantes e em todas as acções da vida. Haverá alguma resposta? E é importante que exista uma resposta?


Máscaras

Os personagens destas Bacantes de Prelúdio para uma purga não usam máscara. Ou melhor, não usam as típicas máscaras a ocultar os rostos; são os rostos que desenham as próprias máscaras. E tal como as máscaras gregas, os rostos assumem expressões trágicas, cómicas, grotescas, que permanecem fixas ao longo da peça. As verdadeiras máscaras são estas, as que os rostos são capazes de formar.


As mãos calçam luvas

Durante grande parte do tempo, os personagens têm uma mão descoberta e outra calçada com uma luva. A mão da razão e a mão da fé? Ou talvez o contrário: a mão da fé (coberta) e a mão da razão (destapada)? Uma mão para o amor e outra para a vingança? A mão de Eurípedes, nua e sem artifícios, e a mão desta versão, oculta sob uma segunda pele? E quantas vezes confundimos as duas? A verdade é que ao fim de algum tempo, as luvas dos personagens começam a deteriorar-se e há bocados que se desprendem do tecido. O artifício, seja ele qual for, dissipa-se.


Zeus cumpriu a sua parte

Sensivelmente a meio da peça, há um momento de pausa, como uma cortina que impusesse um antes e um depois. Na tela do fundo de palco é projectado um excerto do filme Extreme Private Eros: Love Song 1974, de Kazuo Hara. Uma mulher dá à luz uma criança, sozinha e sem qualquer ajuda. O plano é frontal e nada fica por documentar. O parto dura longos minutos, ao longo dos quais a mulher e a criança sofrem todas as dores do parto. Uma imagem do nascimento difícil de Diónisos, o deus gerado por Sémele, mulher de condição mortal, mas nascido da coxa de Zeus? O nascimento de Diónisos marca a origem mais profunda do teatro grego, da dança, das festas, do êxtase e de todas as faculdades criadoras. Há, pois, um antes e um depois de Diónisos para todos nós.


Ravel

A peça termina com o Bolero de Ravel e com os bailarinos, creio, a reinterpretar, de forma muito livre, a famosa coreografia de Maurice Béjart (antes já se ouvira Prélude à l'Après-midi d'un faune, de Debussy, acompanhado pela sombra de Nijinski, como se Prelúdio para uma purga fosse também uma homenagem a todos os clássicos). É um dos momentos mais exaltantes e comoventes. Os corpos são tomados por uma espécie de longo e contagiante delírio em honra de Baco. Eis a nossa loucura sagrada. Quando o Bolero termina e as luzes apagam, regressamos à realidade e à justa medida. Os mistérios terminaram.



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