segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Campo e Contracampo




O auditório onde fomos apresentar Medeia, de Jean Anouilh, fica no interior de um shopping no Cacém. Um daqueles centros comerciais encapsulados no tempo desde os anos 80. Na parte central, há uma espécie de "selva" com palmeiras e plantas exóticas, atravessado por um regato artificial onde vivem peixes de aquário com tamanhos monstruosos e dezenas de cágados e tartarugas. Foi aí que Miguel Gomes filmou alguns planos de Tabu: a sequência que marca a transição para a segunda parte do filme, “Paraíso”, a partir da qual se narra a história dos amantes Aurora e Gian-Luca Ventura. Ali parado, na esplanada onde se filmou a conversa entre o velho Gian-Luca, Pilar e Santa, percebe-se melhor a intenção de Miguel Gomes: tudo o que resta daquela grande história de amor, passada em tempos coloniais portugueses, é uma "selva" africana de plástico, dentro de um shopping no Cacém. Metáfora perfeita de um certo Portugal pós-colonial e ponto de contacto - óbvio - com as histórias de António Lobo Antunes.

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