quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Kiarostami filma Dante

Fomos rever, após tantos anos, O Sabor da Cereja. Não surpreende que o filme de Abbas Kiarostami continue a revelar-se um filão inesgotável de leituras e ideias novas. Um aspecto que agora me parece estranhamente óbvio é a relação com A Divina Comédia, de Dante, e em particular com a primeira parte, Inferno. É impossível não comparar a topografia de O Sabor da Cereja com os negros vórtices dos nove círculos infernais. Os longos planos de Badii percorrendo os estradões sinuosos, secos e empoeirados dos subúrbios miseráveis de Teerão, lembram a viagem de Dante pelo Inferno. Os mesmos personagens perdidos e condenados a uma vida de eterno martírio, as máquinas a revolverem constantemente a terra como demónios cegos e obstinados, os caminhos intermináveis abertos sobre abismos, exactamente como no cone invertido do inferno dantesco. O próprio projecto de suicídio de Badii, que inclui um buraco aberto junto à base de uma cerejeira e a ajuda de alguém que o cubra com “vinte pás de terra”, remete para Dante. No primeiro grande diálogo do filme, Badii tenta convencer um jovem recruta a ajudá-lo, dizendo-lhe que finja que ele - Badii - não passa de adubo para fertilizar aquela árvore. Lembremo-nos que entre os condenados que Dante encontra no Inferno estão os suicidas, cujo castigo é serem transformados em árvores que viverão eternamente.

Onde foi buscar Dante os elementos do seu Inferno, senão ao próprio mundo real? Por isso fez um Inferno muito apresentável. Mas quando teve que fazer um Céu, de lhe pintar as delícias, então a dificuldade foi intransponível: o nosso mundo não lhe fornecia materiais.
Arthur Schopenhauer, O Mundo Como Vontade e Representação

 

Em cima: O Sabor da Cereja.
Em baixo: pormenor dos nove círculos do Inferno, segundo William Blake.

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