sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Princípios essenciais de geografia



Ao contrário do que acontece em certas obras de ficção, tudo o que aqui se diz é absolutamente verdade. Tudo o que aqui está, ou existe, ou existiu.

Um pouco mais à frente, lê-se o seguinte:
É por isso que não posso entreter-vos com uma história que seria, a um tempo, empolgante, obscura e dramática.

Juntando as duas frases, obtemos o programa:
Ao contrário do que acontece em certas obras de ficção, tudo o que aqui se diz é absolutamente verdade. Tudo o que aqui está, ou existe, ou existiu. É por isso que não posso entreter-vos com uma história que seria, a um tempo, empolgante, obscura e dramática.

A antiga e sempiterna fronteira entre realidade e ficção. O que faz ela aqui, de novo, quando sabemos que essa linha, tão vaga como um castelo no ar, é um truque de ilusão? A resposta reside justamente no facto de ser o primeiro truque da literatura. O grande truque a partir do qual se geram todos os outros. Um bom autor coloca, desde logo, as cartas na mesa e propõe ao leitor as regras do jogo: vou contar-te uma mentira como se fosse a mais pura das verdades e tu vais fingir que acreditas.

O exemplo de Nabokov:
De repente havia um baralho de cartas nas suas mãos.
- Pense numa carta, por favor, na carta que quiser - propôs; dispondo as cartas na mesa, empurrou o cinzeiro para o lado com o cotovelo; continuou a dar.
- Já pensamos numa - disse com toda a confiança o director, todo contente.
Permitindo-se alguns passes de mágica, Msiê Pierre levou o indicador à testa; em seguida, juntou rapidamente as cartas, fez estalar habilmente o baralho e tirou um três de espadas.
- Isto é espantoso - exclamou o director. - Simplesmente espantoso!
O baralho desapareceu tão repentinamente como aparecera.

Vladimir Nabokov, Convite para uma decapitação. Tradução de Carlos Leite.

Tudo o que se revelar a partir daqui é a verdade e a mentira ao mesmo tempo. O verso e o reverso. O objecto e a sua sombra.
Gigantes ou moinhos de vento? As duas coisas.
É assim que todos os bons livros devem começar.

Apresentação de Carpe Diem..., de Adriana Crespo, na livraria Flâneur (Porto), 10 de Novembro, às 18h30.

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