sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Nunca mais

GUIL (tenso. Irritado progressivamente ao longo da pantomina, e do comentário) Mas o que é que tu sabes da morte?
ACTOR É aquilo que os actores fazem melhor. Têm que aproveitar o talento que lhes foi dado, e o talento deles é: morrer. Sabem morrer heroicamente, comicamente, ironicamente, lentamente, repentinamente, abjectamente, encantadoramente, ou de uma grande altura. (...)
GUIL É só o que sabem fazer - morrer?
ACTOR Não, não - também matam maravilhosamente. Na verdade, alguns deles matam melhor do que morrem. Os outros morrem melhor do que matam. São uma equipa.
ROS E quem é quem?
ACTOR Isso não tem grande importância.
GUIL (medo, derisão) Actores! os mecânicos do melodrama barato! Isso não é morte! (Mais tranquilo) Vocês gritam, sufocam, caem de joelhos, mas isso não traz morte a ninguém - não apanha ninguém desprevenido para lhe começar a sussurrar dentro do crânio e a dizer - "Um dia vais morrer". (endireita-se) Vocês morrem tantas vezes, como é que podem estar à espera de que as pessoas acreditem nas vossas mortes?
ACTOR Pelo contrário, é só desta maneira que elas acreditam. Estão condicionadas para isso. Tive uma vez um actor que foi condenado à forca por ter roubado um carneiro - ou um cordeiro, já não me lembro - e consegui autorização para que ele fosse enforcado no meio duma peça - tive que mudar a história um bocadinho, mas achei que seria eficaz, percebem - podem não acreditar, mas ele não foi nada convincente! Foi impossível conseguir a suspensão da descrença - e com o público a achincalhar e a atirar amendoins, foi um verdadeiro desastre! - ele não parou de chorar o tempo todo - completamente fora do personagem - estava ali parado e só chorava... Nunca mais.

Tom Stoppard, Rosencrantz e Guildenstern estão mortos. Tradução de João Paulo Esteves da Silva.

Sem comentários:

Arquivo