terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Passado e presente

As coisas mais simples são as mais complexas. Pensemos na memória, por exemplo. Existirá material mais simples, democrático e universal do que a memória? E, no entanto, existirá material mais complexo? Em Olhares Lugares, Agnés Varda transforma a memória num material tão simples e vivo como um campo de girassóis. A história, a passagem do tempo, a ruína, que abre rugas profundas no mundo e em nós, transforma-se numa celebração da vida. Porque, muito simplesmente, são a matéria de que todos somos feitos. Uma aldeia de casas abandonadas ou um velho bairro mineiro ameaçado de demolição são lugares vivos porque estão carregados de memória.
Num dos mais belos momentos do filme, Agnés Varda revela que a idade lhe trouxe problemas de visão; as coisas surgem-lhe desfocadas. Ora, a visão desfocada de Varda dá-nos a ver o mundo exactamente como ele é: um milagre, um milagre feito de sombra e luz, morte e vida. A simplicidade, isto é, a sabedoria de Varda é uma absoluta lição de arte e génio.
Olhares Lugares é o filme mais optimista que vi ou que me recordo de ver em toda a vida.



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