terça-feira, 1 de maio de 2018

De tanto serem repetidos é como se tivessem realmente acontecido

[Karl] Kraus é, nesse contexto, um intérprete mortal para os mitos que circulam [sobre os verdadeiros motivos para o deflagrar da I Guerra]?
Uma das coisas que o Kraus mostra é como se gera essa cultura de violência, e como os principais responsáveis, aos olhos dele, são as pessoas que lidam com as palavras. Os intelectuais, os escritores, os jornalistas, etc. Personagens com bastante proeminência e que são, justamente, aqueles que têm a responsabilidade pelo discurso que se produz, que o usam irresponsavelmente, e transformam também as palavras em armas.

Pode dar um exemplo?
Um dos aforismos que surge nos "Os Últimos Dias da Humanidade" diz-nos: «Um despacho noticioso (ou uma notícia de jornal) é um instrumento de guerra como a granada, que também não toma quaisquer factos em consideração». Quando hoje em dia se fala na pós-verdade, tinha já lido tudo isso no Kraus. Quando foi para a frente a guerra no Iraque, em que os editorialistas… José Manuel Fernandes, toda essa gente que está à frente dos nossos jornais e que se tornaram grandes especialistas militares de um momento para o outro, e era como se fossem eles os cabos de guerra…  E eu lia aquilo com uma enorme sensação de déjà vu. Se se fizesse hoje em dia uma antologia desses editoriais…

O que é pensa que ficaria claro?
O que saltaria à vista é justamente a irresponsabilidade de pessoas que não conhecem os factos, que levaram a sério a conversa das armas de destruição maciça – como sendo até um dogma de fé –, e que a partir disso constroem um discurso belicista que vai ter uma influência enorme. E foi isso, precisamente, o que aconteceu no contexto da I Guerra. Há até um célebre episódio, usado pela propaganda alemã, que foi o bombardeamento de Nuremberga, coisa que nunca aconteceu. Isso não impediu que servisse de motivo para a guerra, e o Kraus glosa esses aproveitamentos insistentemente. De tanto serem repetidos é como se tivessem realmente acontecido, e produzem efeitos terríveis.

António Sousa Ribeiro em entrevista ao jornal i. Entrevista completa aqui.

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