quinta-feira, 14 de junho de 2018

Gógol, o ghost writer de Harms

OMELETA — Permita que lhe pergunte: com quem tenho a honra de falar?
JEVÁKIN — Jevákin, tenente na reserva. E, por minha vez, permita-me a pergunta: com quem tenho a felicidade de conversar?
OMELETA — Ivan Pávlovitch Omeleta, intendente.
JEVÁKIN (que ouviu mal) — Sim, também já comi alguma coisa. Sabia que o caminho ia ser longo e fazia frio: então, comi arenque com pão.
OMELETA — Não, o senhor percebeu mal: Omeleta é o meu apelido.
JEVÁKIN (com uma vénia) — Ah, desculpe! Sou um pouco duro de ouvido. Pareceu-me que o senhor se referiu a uma omeleta que tinha comido.
OMELETA — Pois, nada a fazer! Já quis pedir ao general que me autorizasse a mudança de nome para Estrelado, mas os meus amigos disseram que ia dar ao mesmo.
JEVÁKIN — Acontece, sim senhor. Na nossa terceira esquadra, todos os oficiais e marujos tinham nomes esquisitíssimos: Lixeirov, Aldrabónov, Pútridov, o tenente. Um aspirante da marinha, e bastante bom aspirante, tinha por nome Buraco. O comandante, às vezes, gritava-lhe: "Eh, tu, Buraco, vem cá!" E nós também costumávamos brincar com ele: "Ouve, seu buraco!" — era assim que lhe dizíamos.

Nikolai Gógol, O Casamento. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Sem comentários:

Arquivo