sábado, 7 de julho de 2018

Em orientes para lá do oriente

Por último, há ainda um curiosíssimo fio de semelhança entre O Naufrágio, de Claude-Joseph Vernet, e A Perda do Hiate Nada, um dos contos incompletos de Fernando Pessoa. Neste conto, Pessoa imagina a história do capitão Ayakwamm, o «Comandante Desconhecido», e o naufrágio do iate Nada, numa zona entre a realidade e o sonho, a razão e a loucura, em «orientes para lá do oriente». Na secção IV do conto, justamente intitulada Paisagens, pode ler-se esta passagem:

Não vi nunca pinturas que tanto me impressionassem. Davam a vontade imperiosa de visitar os lugares que [espaço deixado em branco por Pessoa]. Via-se que quem as pintara, o fizera com um desejo supernormal de se encontrar nesses lugares — como um grande pintor exilado pintando a sua pátria. O que de certo sei é que nunca me foi dado ver gravura, pintura, fotografia — quadro ou [espaço deixado em branco por Pessoa] de qualquer espécie que de tão doloroso desejo me enchesse.
Eram, em regiões de rochedos altíssimos, formando estaturas de montanha, palácios de sonho, muito brancos contra o negrume dos rochedos, das encostas quasi a prumo, que causavam um arrepio e uma angústia de prazer ao vê-las.
(...)
Mas a colecção assombrosa interpretava não só um estranho sentimento do desenhador que a executara, senão que, num âmbito íntimo mais largo, figurava, quadro a quadro, todos os sonhos que a humanidade tem tido de terras remotas, de paisagens perfeitas, de países impossíveis. O artista desconhecido, que assim pusera a alma naqueles desenhos, reunira primeiro nessa alma a alma de todos quantos têm sonhado, o romance visual de todas as almas inexpressas, o décor e o cenário ocultos de todos os entorpecimentos extáticos da vida.


E como não ler neste excerto, um comentário possível ao trabalho de Michael Biberstein?

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