quinta-feira, 5 de julho de 2018

To a Green God

Num dos monólogos de Charles Cros, O Dia Verde, o protagonista, Sr. Galipaux, é um empregado de escritório parisiense, que decide acompanhar um casal amigo num passeio ao campo. É sábado, dia de folga, e o apelo da natureza é irresistível. “Oh! o ar, a verdura, correr, pular, dançar, cantar, lalai, lalai, um fato leve, o meu panamá e ala que se faz tarde!” Pouco a pouco, porém, o suave sonho de uma digressão pelos bosques, transforma-se numa espécie de pesadelo verde. Não é apenas a natureza que é verde, tudo à sua volta parece plasmado nessa cor. As pessoas estão vestidas de verde, há um papagaio verde, a comida é verde, as mesas e as cadeiras da casa de pasto são verdes, o absinto é verde, as casas têm portadas verdes, tudo, de uma maneira ou de outra, e em graus diferentes, é verdíssimo. Num só dia, o personagem percorre todos os círculos do inferno verde, acabando na cama com icterícia, "verde como puré de ervilhas".

Em O Raio Verde, de Eric Rohmer, inspirado no livro homónimo de Júlio Verne, a protagonista, Delphine, empregada de escritório em Paris, mulher solitária, à procura de um amor e de companhia para as férias, é uma espécie de gémea falsa do Sr. Galipaux. Também ela reconhece diferentes sinais verdes um pouco por toda a parte: as árvores nas ruas, uma toalha de mesa verde, um vestido verde, um cartaz verde, o mar verde, o letreiro verde de uma loja, as conversas dos veraneantes sobre o fulgurante raio verde, o último raio de sol no mar, nos mais límpidos entardeceres de Verão. Mas, no caso de Delphine, o verde não é uma ameaça, mas um vago, secreto e misterioso sinal de esperança. Depois de percorrer todos os círculos do inferno emocional, no derradeiro plano do filme, Delphine também é apanhada por uma doença: o verde frondejante de uma icterícia amorosa.

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