quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Corrente de ar

Mas continuar a pertencer à Igreja Anglicana requeria um tipo de paciência que ele deixara de possuir. Estavam demasiados afogados em inanidades. Por exemplo, a ideia que tinham da natureza de Deus era uma incongruência. Tudo o que faziam, no fundo, era andarem às palmadinhas nas costas uns aos outros. Quanto a Deus, tinham-lhe dado o chapéu, dizendo-lhe para esperar. Olhavam-no como uma criação deles; uma mercadoria. Eles dirigiam a empresa, e a ele não lhe restava mais do que fazer os recados. Deus fazia o trabalho chato; eles recolhiam os lucros. Na última reunião em que participara, tinha declarado: Onde está esse vosso Deus? Ponham-no aqui em cima da mesa e vamos lá a examiná-lo. Vamos todos passá-lo a pente fino. Para eles foi como se tivesse explodido uma bomba. No fundo, eram o tipo de pessoas que, se as portas do Paraíso se abrissem diante deles, a única coisa que haviam de sentir era uma corrente de ar.

Harold Pinter, Os anões. Tradução José Lima.

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