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Deixa a tristeza sair

Não há em português uma expressão com a força de avoir le cafard  e não se percebe porquê — tristeza não nos falta. Podemos traduzir por estar triste, tristonho, destroçado, sorumbático, macambúzio, ou até mesmo “em baixo” — mas falta qualquer coisa. Um substantivo vulgar (como a barata francesa) ou um adjectivo musical (como o azul inglês), uma palavra sem grande reputação mas que sozinha consiga mostrar o buraco em que caímos e que estimule a matéria semântica (ganhar musgo).  Qual? Talvez “na fossa”? Tem uma força sensorial formidável, é certo, e Cioran até era capaz de gostar da imagem, mas não encaixa nos seus aforismos (lamentável desencontro geográfico). Fica para a próxima.

Influenciadores do século XX

 

Cioran a le cafard. Toujours.

Timon: Hé regarde il a le cafard !  Pumbaa: Mais y a pas de cafard dans le désert. Há palavras francesas muito importantes para compreender os pensamentos de Cioran, são uma espécie de didascálias: instruções dadas pelos poetas aos actores — precisamente. Dégoût é uma delas; não tanto na tradução literal desgosto,  que em português é demasiado passiva, mas nos termos mais exuberantes e teatrais: repugnância , aversão ou nojo . Em primeiro lugar, porém, sem qualquer dúvida, está cafard . Com todos os sentidos que a palavra foi ganhando e perdendo ao longo dos anos: a influência árabe kafir para descrever uma pessoa descrente ou um renegado, a obscuridade atribuída por Baudelaire (um dos poetas de Cioran) e, acima de tudo, o seu carácter boémio de vão de escada (condição essencial). Se há palavra que condensa tudo o que Cioran escreveu, essa palavra é cafard . E, ao contrário do que diz o tradutor francês do “Rei Leão”, também há baratas no deserto .

“mofas de mim atiras-te ao chão zombando à tua maneira”

Oito palavras fáceis de traduzir — quase ela por ela —, não fosse o verbo ricaner que é um rir afectado. Zombar ou escarnecer? Fiz um desvio pelo espanhol e cheguei a mofar — já fora de uso? É isso mesmo. Cioran a escrever como um antigo, como alguém que se esqueceu de actualizar o léxico:  Mofar ou rezar — tudo o resto é acessório.
Esta tarde, depois de uma pequena sesta, veio-me à cabeça o nome de Dita Parlo , uma estrela dos anos trinta. Como sou velho! exclamei. Há... quarenta e cinco anos, adorava cinema. Esta atriz, quem ainda se lembra dela? É este tipo de detalhe, muito mais do que uma reflexão filosófica, que nos revela a aterradora realidade e irrealidade do tempo.  Emil Cioran, Cadernos, 30 de março de 1972.

Assalto

Um alarme tocou na rua durante toda a noite. Aquele som agudo, penetrante, como um beliscão contínuo na corda dos nervos. Dez minutos e o nosso único desejo é que aquilo pare. Que a vida retome a indolência habitual. Sono, letargia, torpor. Da mesma forma, podem soar todos os alarmes. Nos jornais, nas rádios, nas televisões. Podemos assistir ao assalto, sermos as primeiras vítimas, podem roubar-nos tudo: a verdade, a liberdade, a compaixão. A maioria de nós vai preferir sempre o silêncio. Deitar-se e dormir.

A apoteose do sub-homem

Samuel Beckett. Prémio Nobel. Que humilhação para um homem tão orgulhoso! A tristeza de ser compreendido! Beckett ou o anti-Zaratustra. A visão da pós-humanidade (como se diz pós-cristianismo). Beckett ou a apoteose do sub-homem.  Emil Cioran, Cadernos, 23 de outubro de 1969.
O cavalo não sabe que é um cavalo. — E depois? Não se vê o que ganhou o homem por saber que é um homem.  Emil Cioran, Cadernos, junho de 1965.

Jogo

Pausa no trabalho. Dez minutos para roer uma maçã. Espreito pela janela. Lá em baixo, as marcas do passeio formam um estranho tabuleiro de xadrez. Os peões avançam numa e noutra direcção, uns devagar, outros mais apressados. O jogo arrasta-se há uma eternidade, sem grandes variações. Ganham os do costume, perdem os de sempre.

E em vez disso perguntei

- Vais à igreja? Crês em Deus? (...) - Em Deus? Pff! Bem sabe o que os padres dizem... - Mas Deus? Crês em Deus? - Claro que sim. Mas... - Mas o quê? Calou-se. Eu devia perguntar-lhe: - Vais à igreja? E em vez disso perguntei: - Vais ter com mulheres? - Às vezes. - Tens êxito com as mulheres? Desatou a rir. Witold Gombrowicz, Pornografia . Tradução de Aníbal Fernandes.

A ordem do dia

Quem supõe paradoxal que um pensamento com tintas fascistas se combine com o suporte empresarial e midiático, que se refastela hoje com as reformas liberais, é o caso de lembrar o entusiasmado apoio que Hitler recebeu das empresas alemãs – sem o qual, certamente, não teria chegado tão longe no domínio territorial da Europa e na produção industrial do genocídio. Em A ordem do dia (Tusquets), Éric Vuillard descreve a reunião que firmou as bases deste acordo, em 1933. O que disse, Hitler, que convenceu os capitães da indústria? “Era preciso acabar com um regime fraco, afastar a ameaça comunista, suprimir os sindicatos e permitir que cada patrão fosse um Führer em sua empresa”. Marcelo Semer.

Casava com ele

Deitei mão à versão digital dos Cadernos escritos por Emil Cioran entre 1957 e 1972. As entradas têm uma vitalidade desconcertante. *** Tenho tudo de um epiléptico, menos a epilepsia. Borges escreveu um poema sobre o tango. Como o compreendo. Tenho vontade de exclamar: «Dêem-me um tango por dia!» Trago em mim uma Argentina secreta.    Mais próximo da tragédia grega do que da Bíblia. Sempre compreendi e senti melhor o Destino que Deus. Nada do que é russo me é estranho. “Sou estrangeiro na terra e no céu.” (Lermontov) Sou filho do tédio russo. Como duvidar das minhas origens eslavas? Sou um Mongol devastado pela melancolia. O próprio Deus não saberia pôr fim às minhas contradições. É estranho que ninguém se tenha apercebido das minhas afinidades com Swift, nem mesmo a influência que ele teve sobre mim. Introduzi o suspiro na economia do intelecto. Um tratado de medicina da época de Hipócrates intitulado: “Sobre as Carnes”. Eis um livro segundo o meu cor...

Senão

Para manter o sentido da dupla negativa em francês — mecanismo tão característico de Cioran —,  vi-me obrigada a recorrer uma e outra vez a “senão”. Como preposição ou conjunção, mas sempre, sempre, como uma espada que encosta à parede. A tradução de Lágrimas e Santos revela-se mais ameaçadora que um livro de Stephen King.

Velhas novidades

A extrema direita a ganhar terreno em Portugal. O avanço descontrolado do discurso de ódio um pouco por toda a parte. A nossa eterna pulsão de incendiários. O nosso estranho desejo de fim do mundo. Os franquistas gritavam «viva a morte!», nas assembleias e nos comícios. O povo aplaudia e repetia «viva a morte!» Quando respondemos «não passarão!», estamos a dizer o quê? Não passarão nas ruas? Não passarão nas mesas de voto? Não passarão na nossa consciência?

O destino marca a hora

Passo ao lado de tudo que é importante. Devia ter sido convidada para participar no Festival Eurovisão da Canção Filosófica . Um trio bastante morto: eu, o Cioran e o Tony de Matos. O único consolo é que a tradução de Lágrimas e Santos (vai a um terço, creio) está a correr bem e não tarda nada cresce-me uma auréola céptica nos pés.
O vinho fez mais para aproximar os homens de Deus que a teologia. Há muito tempo que os bêbados tristes — mas haverá outros? — superaram os eremitas. Lágrimas e Santos, Emil Cioran (tradução a partir da versão francesa).

O espelho

Um homem medonho entra e olha-se ao espelho. «Porque é que o senhor se olha ao espelho já que só com desprazer se pode lá ver?» O homem medonho responde-me: «Senhor, segundo os imortais princípios de 89, todos os homens são iguais em direitos, logo tenho o direito de me mirar. Com prazer ou desprazer, isso só à minha consciência diz respeito.» Em nome do bom senso, eu estava sem dúvida certo. Mas do ponto de vista da lei, ele não deixava de ter razão. Charles Baudelaire, Embriagai-vos | Antologia de poemas em prosa de autores franceses. Tradução de Regina Guimarães. Em co-edição (FLOP) até 11 de Outubro. Para ser co-editor é só seguir o link.

Quase trinta anos

Legendary Armenian filmmaker Artavazd Peleshian is set to release La Nature (or Nature ), his first film in almost three decades at an exhibition in Paris. Premiered by the Fondation Cartier, La Nature brings together amateur shots of nature, such as volcanic eruptions, earthquakes, tsunamis, and grandiose landscapes from the internet, juxtaposing the overpowering force of nature with human ambition. Texto completo aqui.