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Mensagens

Silêncio .  Ela teria dito: tenho a cabeça cheia de vertigens e gritos.  Cheia de vento.  Então, às vezes, por exemplo, escrevo. Páginas, está a ver.  ( Pausa .)  Ou então durmo.  Fim da música. Silêncio. O Camião,  de   Marguerite Duras.

Entre um corpo e a sua sombra

As palavras extraordinárias de Anne Carson sobre o trabalho de tradução: «A translator is someone trying to get in between a body and its shadow. Translating is a task of imitation that faces in two directions at once, for it must line itself up with the solid body of the original text and at the same time with the shadow of that text where it falls across another language. Shadows fall and move.»

Esculpir o tempo

Neste plano de Solaris , vê-se uma escultura de Rui Chafes (misturada com os ramos da árvore, atrás de Kris Kelvin).

Estética

Ao lado de minha casa, abriu mais um Centro de Estética. Entre a Arca D'Água e a Rua Damião de Góis, há pelo menos uma dezena.  No futuro, ninguém poderá estudar as grandes correntes estéticas do século XXI sem passar pela minha rua.

Dos jornais I

As autoras do estudo Como Comemos o que Comemos – Um Retrato do Consumo de Refeições em Portugal , criaram quatro grupos (não sei porquê, preferem dizer  clusters ) para explicar como nos alimentamos: gregárias emancipadas, caseiras remediadas, profissionais diligentes, universitários desengajados.  As designações são extraordinárias, mas podiam ter ido mais longe na definição — por exemplo, universitários desengajados podia ser universitários   sem gajo/gaja . • • • Parece que precisamos de Boris Vian para resolver este imbróglio das estações à esquerda . Não é difícil, basta inverter a marcha dos autocarros — uma nova acepção de negativos e uma nova maneira de encarar o trânsito urbano.

Uma história próxima, que corre a passos precipitados.

A História está cheia de episódios caricatos. A vitória de Trump graças ao atentado de ontem é apenas mais um.  Agora os democratas precisavam de uma audácia de fera encurralada, mas desconfio que não conhecem nenhuma dessas três palavras. 

Um elegante fato vermelho Carolina Herrera

«Era meio-dia em ponto quando entrou pelos portões do Palácio de Belém, escoltada pela guarda de cavalaria da Guarda Nacional Republicana ─ o ministro dos Assuntos Exteriores, União Europeia e Cooperação de Espanha, José Manuel Albares, também a esperava. Leonor elegeu para esta visita um elegante fato vermelho Carolina Herrera, uma opção que homenageia as cores de ambas as nações. Marcelo Rebelo de Sousa recebeu-a à saída do carro e acompanhou-a, com vários toques no braço, até ao palanque onde ambos ouviram os hinos nacionais ─ primeiro a Marcha Real, ou não fosse Leonor a convidada. Feitas as honras militares, Leonor seguiu segura até ao interior do Palácio de Belém, enquanto trocava algumas palavras com Marcelo Rebelo de Sousa. Posaram para fotografias e seguiram para a Sala das Bicas, onde o Presidente procedeu à condecoração, enquanto a princesa sorria timidamente. No encontro que se seguiu nos minutos seguintes, Marcelo e Leonor falaram em privado.» Artigo do jornal Público , as...

A iniciativa liberal

Foi hoje divulgado o chamado «ranking das escolas». O outro nome para este «ranking» é: campanha publicitária promovida pelo Estado a favor dos colégios e escolas privadas. A mais grotesca, asquerosa e despudorada das campanhas publicitárias. Mais uma vez, as empresas de ensino privado não precisaram de pagar um cêntimo por este anúncio difundido em todas as televisões, rádios, jornais e internet. O sonho molhado de qualquer «empreendedor»: uma campanha milionária anual patrocinada pelo Estado.
(...) Ora, para concluir e regressando às paragens de metrobus , Rui Moreira preferiria umas “coisas levezinhas, envidraçadas”, quase invisíveis, para não perturbar as vistas idílicas da burguesia local. Ora, talvez me aventurasse a dizer que, para Álvaro Siza, que conserva ainda um sentido profundo e social daquilo que é fazer uma cidade — ao contrário do autarca portuense —, as paragens desenhadas em betão correspondem precisamente ao gesto arquitectónico de procurar marcar e tornar visível no espaço urbano aquilo a que a classe a que Rui Moreira pertence tende a não aceitar: o facto de a cidade não ser apenas a sua propriedade exclusiva, mas de todos. Nada há de mais social e definidor do território urbano do que esses pequenos equipamentos públicos tantas vezes desqualificados (inclusive pela própria CMP). São estes, na verdade, os grandes monumentos da vida quotidiana das cidades e dos seus moradores; e não certamente as vivendas privadas endinheiradas e kitsch da Avenida do Ma...

Os bons fotógrafos dançam

Enquanto esperava pelas Três Irmãs , de Tchékhov, que estavam guardadas no depósito 2 da Biblioteca, sentei-me num sofá a folhear a Electra do verão do ano passado. A revista publica sempre artigos inteligentes que têm de ser lidos na íntegra e com muita atenção, mas as entrevistas atraem de outra forma espacial — já não estamos fechados num gabinete ou auditório, as janelas são tão grandes e estão tão abertas que parece mesmo que estamos na rua ao ar livre. A conversa entre André Príncipe, José Pedro Cortes e Bernard Plossu é desse tipo.  Lembro-me de muitas fotografias de Plossu — dos Encontros de Coimbra ou do Centro de Fotografia do Porto — e batem certo com o que ele afirma: «E é verdade, os bons fotógrafos dançam. E, provavelmente, a arte mais próxima da fotografia não é o cinema nem a literatura, é a dança. Um bom fotógrafo é gracioso.»  A determinada altura, isso decorei, Plossu lembra que Édouard Boubat dizia que image e magie tem as mesmas letras.

Influenciadores do século XX

Good Vibrations

Ontem, a sala grande do Batalha cheia para ver Sayat Nova,  de Sergei Parajanov, parecia uma representação interior do que se passava nas ruas de Paris.

É potável, não é?

Esplanada de um jardim no centro de Lisboa. Domingo de manhã. A maioria das pessoas à nossa volta tem cães. Bichos de todas as raças e feitios. Tanto quanto percebo, não há um único rafeiro. Não ladram, não rosnam, não se aproximam uns dos outros. Bonecos de peluche, tristes e mudos. Sem vida. Uma mulher com um bebedouro pergunta ao empregado: «Pode encher com água? Pode ser da torneira. É potável, não é?»

Juste une image

Em 1976, as pessoas de Trás-os-Montes não gostaram da cena da neve. Acharam que os denegria, que não correspondia à realidade, que ninguém é tão pobre que coma neve.  A própria Margarida tinha algumas reservas: Essa ideia foi mesmo do António. Significava uma pobreza extrema. E claro que a neve não alimenta. Eu ai pus uma certa reserva. A neve é bonita mas não alimenta. E também não era neve... É qualquer coisa da produção, uma espécie de espuma... Eu aí reagi um bocado. Primeiro porque não alimenta. Segundo porque não era verdade... Pus uma certa reserva. Mas a única reserva que ponho actualmente é a lentidão. Dura muito. A duração dessa plano devia ter sido encurtado .  Mas a força da cena vem precisamente da sua profundidade e da sua  duração ; quando vemos a neve (apanhada, servida, comida) paramos e temos tempo para compreender o que é a pobreza e, se dermos um passo atrás, o que é uma imagem.  Há palavras de Kafka em Trás-os-Montes , mas esta imagem — destemid...

Sagen Sie’s den Steinen

Apetece brincar à cama de gato e pegar nas linhas éticas/estéticas com que o Luis Miguel Oliveira juntou Trás-os-Montes , No Quarto de Vanda e Sicília! e, seguindo a minha pancada por pedras, mudar a forma para: Trás-os-Montes , The Searchers , Antígona . — Rui! Rui! Que pedra é esta?  — É a pedra do raio! Quando há trovoada muito forte, cai o raio, entra pelo chão adentro…então fica lá uma pedra muito pesada e muito escura!

Um dia isto vai ser importante

Descobri que o Luís de Trás-os-Montes (que tem mais ou menos a minha idade) dá aulas na escola do quarteirão onde vivo. Se calhar já nos cruzamos na rua, no multibanco ou no Lidl. Diz ele: — O António era de um carinho, de uma simpatia transbordantes. E a Margarida também. Eu tinha perdido a mãe há meses e tivemos uma relação muito especial. Eu estava sempre abraçado a ela, de mão dada, ela oferecia-me imensas coisas. O António era mais reflexivo, falava só quando tinha alguma coisa importante para dizer. A Margarida era mais espontânea, mais rápida. Mas as coisas que o António dizia ficavam sempre na nossa cabeça. Funcionavam muito bem os dois. Nas refeições, eu sentava-me à beira deles, começavam a falar de Proust e acabavam em Stockhausen. O António dizia: "Presta atenção, porque agora não vais perceber nada, mas um dia isto vai ser importante." Às vezes eu apontava. Depois chegava a casa e perguntava: "Quem é este, e aquele?" Falavam, falavam, a Margarida escrev...