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Mensagens

Dos jornais XXXXVI

Muitos jornais, por todo o mundo, escolheram a mesma imagem para a capa: Nicolás Maduro de fato de treino cinzento, algemado, olhos e ouvidos vendados, com uma pequena garrafa de água na mão direita. Alguns colocaram-na ao lado de uma fotografia de Trump. Como Godard explica em A Nossa Música , também aqui o campo e o contracampo são as duas faces da mesma moeda. Não há diálogo possível, nem mudança. É a picada da abelha morta.

Em círculos

O dilema moral que Jafar Panahi retrata no novo filme Foi só um acidente é o mesmo que, por exemplo, Tiago Rodrigues propõe em Catarina e a beleza de matar fascistas . O mais humano dos dilemas: como combater a violência e a opressão sem ceder à simples lógica da vingança, ao princípio do olho por olho, dente por dente, tão velho como o Antigo Testamento? Voltamos à leitura de Walter Benjamin sobre os contos de fadas de Robert Walser. O perdão é um acto de ingenuidade ou uma forma de libertação? Que lado escolhemos? Não saímos disto. Andamos em círculos, como na Divina Comédia .

Mensagem de ano novo (em três partes)

«Os pesadelos de Lovecraft, as visões de Philip K. Dick e a inquietante matemática de Hilbert – dissolvidos no inferno a que chamamos Internet – acabaram por se tornar qualquer coisa que se assemelha ao nosso mundo. Ou pior, que o é.»   ··· A loucura é um dos terrenos mais férteis para a literatura. A literatura é uma é das poucas criações humanas em que a loucura desempenha um papel essencial. Para mim, o delírio é o coração da literatura essa espécie de estranha possessão. ··· Ehrenfest buscava incansavelmente aquilo a que chamava der springende Punkt , o ponto crucial, o cerne da questão, pois para ele, deduzir um resultado por meios lógicos nunca era suficiente: “Isso é como dançar numa só perna”, dizia, “quando a essência está em reconhecer conexões, significados e associações em todas as direções”. Para Ehrenfest, a verdadeira compreensão era uma experiência de corpo inteiro, algo que envolvia todo o seu ser, e não apenas o cérebro ou a razão.

Amores proibidos

A ideia de que Arandir e o rapaz atropelado mantinham uma relação amorosa secreta é uma ficção criada pelo repórter Amado. Um amor proibido, revelado à beira da morte , é o pretexto mais do que perfeito para vender jornais às massas: «Escuta, rapaz! Eu vou vender jornal pra burro!» Mas a história só funciona porque é credível. A tradição literária está carregada de amores impossíveis, à luz da «moral vigente» em cada momento. Amores condenados, cuja solução reside na morte dos amantes, ou pelo menos na de um deles. A relação entre Arandir e o rapaz atropelado – não importa se real ou inventada – é um dos elos da longa cadeia de amores proibidos, que forma o nosso imaginário e que inclui Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Werther e Charlotte, etc., etc. Essa é uma das chaves mais simples de O Beijo no Asfalto : nem todos os beijos são felizes, e daí o seu fascínio.

Que havemos de traduzir

Ocorrem-me imensos disparates enquanto revejo o texto que Cioran escreveu sobre Joseph de Maistre. Há pouco, por exemplo, percebi que os livros pornográficos ou extremistas (de acordo com o ladrar dos cães) ficam de fora das traduções geradas por inteligência artificial, pois os mecanismos de linguagem são púdicos. Sem querer, as empresas tecnológicas criaram um campo de lírios para tradutores empedernidos.

A menos que ousemos

Num texto sobre o ano de 2025, publicado no Público de ontem, Bárbara Reis descreve um impressionante episódio ocorrido em Julho, nos Estados Unidos: «A tia de uma aluna da Universidade de Idaho assassinada por um colega diz ao assassino, em tribunal, após a sentença de prisão perpétua, que o perdoou: “Bryan, estou aqui para dizer que te perdoei. Não conseguia continuar a viver com este ódio no meu coração. Para me tornar uma pessoa melhor, perdoei-te.” E acrescenta: “Sempre que quiseres conversar e contar-me o que aconteceu, pede o meu número de telefone. Estou aqui, sem julgamento.”» Esta história é uma ilustração da tese de Walter Benjamin sobre as personagens dos contos de fadas de Robert Walser: «Se quisermos resumir o que a um tempo têm de divertido e de terrível, podemos dizer: estão todos curados. É certo que jamais saberemos qual foi o processo da cura, a menos que ousemos debruçar-nos sobre a sua Branca de Neve .» Ora, debrucemo-nos sobre Branca de Neve . O que é que acontec...

Paixão

Quando o repórter Amado Ribeiro descreve ao delegado Cunha o beijo que Arandir deu na boca do rapaz atropelado, a personagem usa duas vezes a palavra «ajoelha-se» . Mais à frente, Aprígio, o sogro de Arandir, descrevendo à filha o mesmo episódio que ele também testemunhara, repete a palavra: APRÍGIO ( realmente confuso ): Teu marido correu na frente de todo o mundo. Chegou antes dos outros. ( com uma tristeza atônita ) Chegou, ajoelhou-se e fez uma coisa que até agora me impressionou pra burro. SELMINHA: Mas o que foi que ele fez? APRÍGIO ( contido na sua cólera ): Beijou. Beijou o rapaz que estava agonizante. E morreu logo, o rapaz. Não é um acaso, com certeza, mas um gesto símbólico que Nelson Rodrigues quer sublinhar. Um gesto que tem algo de sagrado: o momento em que a vida e a morte dão um beijo na boca; em que mundos opostos, o verso e o reverso, se tocam através de um sopro. Arandir ajoelha-se sobre o rapaz atropelado, toma-o nos braços, beija-o, e a realidade, como num milagr...

De acordo com o ladrar dos cães

Que espécie de linguagem é a linguagem de Strauch? O que hei-de fazer com as suas lascas de pensamento? O que a princípio me parecia desarticulado, desconexo, possui os seus «nexos realmente espantosos»; no seu todo, é uma aterradora transfusão de palavras para o mundo, para as pessoas, «um processo impiedoso movido contra a estupidez», para o dizer com as suas palavras, «uma ininterrupta cadência de fundo que merece regenerar-se». Como anotar? Que tipo de notas? Até que ponto algo de esquemático, de maneira sistemática? Estas irrupções abatem-se sobre mim como derrocadas de pedras. De repente, o que ele está a dizer começa outra vez a partir-se face ao grito explosivo do ridículo que engendra para si próprio «e para o mundo». A linguagem de Strauch é uma linguagem do músculo do coração, que «palpita contra as pulsações do cérebro», malévola. É uma auto-humilhação rítmica cativa da «viga crepitante do seu próprio ouvido interno». As suas ideias, os seus ardis, estão basicamente de ac...

O Príncipe Desencantado

AMADO: Olha. Agorinha, na Praça da Bandeira. Um rapaz foi atropelado. Estava juntinho de mim. Nessa distância. O fato é que caiu. Vinha um lotação raspando. Rente ao meio-fio. Apanha o cara. Em cheio. Joga longe. Há aquele bafafá. Corre pra cá, pra lá. O sujeito estava lá, estendido, morrendo. CUNHA ( que parece beber as palavras do repórter ): E daí? AMADO ( valorizando o efeito culminante ): De repente, um outro cara aparece, ajoelha-se no asfalto, ajoelha-se. Apanha a cabeça do atropelado e dá-lhe um beijo na boca. O Beijo no Asfalto , à boa maneira walseriana , começa com um acontecimento que é o avesso de um conto de fadas. Na Bela Adormecida , o Príncipe quebra o encanto e desperta a princesa do seu sono profundo – imagem da morte, diziam os antigos – com um beijo. Na peça de Nelson Rodrigues, o beijo que Arandir pousa na boca do rapaz atropelado sela a morte deste. Quem desperta de um indolente e tranquilo sono da existência é Arandir. O beijo dado ao moribundo, em pleno asfalt...

O Grande Macho

Leio no jornal que o Vaticano impediu, mais uma vez, o acesso das mulheres ao diaconado. Na opinião das autoridades católicas, «a masculinidade de Cristo» pressupõe que «a masculinidade daqueles que recebem a ordem não é acidental, mas parte integrante da identidade sacramental». Por outras palavras, Deus escolheu ter um filho e não uma filha. E não um filho qualquer, mas o Grande Macho Universal. Com o maior pénis do cosmos e de toda a eternidade. Ora, só os sacerdotes e diáconos católicos «homens» têm qualquer coisa vagamente parecida com isso. Ainda que uma coisa muito mais pequena. Porque o tamanho do «sacramento» importa, como é óbvio.

Ácido nítrico com láudano

A fé iluminista na razão, nos factos da ciência e no progresso técnico, revelou-se manifestamente exagerada. O mistério nunca desapareceu, as emoções mais profundas estão vivas, os velhos demónios divertem-se. O edifício racional está sempre esburacado: basta um pequeno nada para que tudo se desfaça em pedaços. A luz e a sombra, o bem e o mal, são o verso e o reverso da existência. Isto dito assim é um truísmo. E, no entanto, ainda somos capazes de nos chocar com as histórias de Nelson Rodrigues . Muitas delas, de resto, inspiradas em casos concretos publicados nos jornais ou que o autor conheceu, na primeira pessoa, enquanto repórter policial. Neste ponto, tudo parece uni-lo a Félix Fénéon. Certas «notícias em três linhas» podiam ser sinopses de peças ou romances de Rodrigues: A mulher deixara-o. O Sr. Bassot, de La Garenne-Colombes, tentou asfixiar-se com carvão vegetal. Está à morte em Beajoun. Os jogos de amor em Béziers: Corniod, que vivera sete anos com Rosalie Petit, trespassou...

A frutificação instantânea de uma árvore no mês de janeiro

Para Maistre, essa força ganha um sentido, torna-se verdadeiramente a Providência, a partir de um milagre, a Revolução: «se no coração do inverno e diante de mil testemunhas um homem ordenar a uma árvore que se cubra repentinamente de folhas e frutos e a árvore obedecer, todos clamarão milagre e inclinar-se-ão diante do taumaturgo. Mas a Revolução Francesa e tudo o que se passa neste momento é, no seu género, tão maravilhoso como a frutificação instantânea de uma árvore no mês de janeiro…».   Exercícios de Admiração – Ensaios e Retratos, de Emil Cioran, Gallimard, 1986.

Dos jornais XXXXV

Bresson continua a rondar a nossa vida.  

Este não é teu rosto

VIZINHO ( numa mesura ): Às suas ordens. D. EDUARDA ( apontando para o rosto do vizinho ): Mas este não é teu rosto – é tua máscara. Põe teu verdadeiro rosto. VIZINHO: Com licença. ( O vizinho põe uma máscara hedionda que, na verdade, é a sua face autêntica. ) D. EDUARDA: Agora fala. Nelson Rodrigues, Senhora dos Afogados .

Influenciadores do século XX

Raquel Soeiro Brito.

Rindo chorando

As personagens de Nelson Rodrigues riem quando choram, e choram quando riem. Os moralistas não têm moral, os beatos e as beatas não são santos nem santas, os castos estão «roucos de desejo», os pulhas não são «canalhas integrais», os poderosos (pequenos ou grandes) não são inocentes e os criminosos têm uma certa candura. O que os une é o medo. O grande medo, o medo da morte: fonte da vida, íntimo combustível para a imaginação e o prazer.

Betinha malvada (isn't she lovely)

Uni, duni, tê, salamê minguê, um sorvete colorê, uni, duni, tê.

O negócio é o seguinte

Não é o que sabemos sobre nós próprios, mas o que preferimos não saber, o que tentamos desesperadamente esquecer. É sobre isso que Nelson Rodrigues escreve. Uma luz fria apontada ao escuro. Tudo o que está na sombra é desvelado na sua crua nitidez: todas as “pequeninas tatuagens”, obsessivas, impossíveis de apagar.