Antes de sair para o trabalho, ouço o noticiário da rádio e já não consigo pensar senão no óbvio: as palavras não são imortais. As palavras sofrem em certas bocas. São aprisionadas, envenenadas, torturadas, despedaçadas. Mergulhadas em aço líquido, ódio, peste. Enlouquecem de dor. E o que podemos nós fazer? Se não conseguimos salvar as palavras, não conseguimos salvar-nos a nós mesmos. A nossa sensação de impotência é o triunfo da tirania. Como resistir? Como salvar as palavras para nos salvarmos a nós?
Bicho ruim
de Cristina Fernandes e Rui Manuel Amaral