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A mostrar mensagens com a etiqueta Jacques Tati

Un petit supplement

A minha capacidade para detetar gags de Tati está a melhorar com a idade. No sábado, descobri que o som da porta deslizante do Murça no Porto imita um animal moribundo. Ontem à tarde, os professores de filosofia que foram ver Leibniz – Crónica de uma Pintura Perdida (mais uma peça em falta para a lista do Henri Lefebvre) e não conseguiam encontrar os lugares (duas coordenadas: sete por dez menos dois) pareciam saídos do PlayTime .

Playtime

Parece-me agora óbvio que Monsieur Hulot, de Playtime , é um descendente directo das personagens desarrumadas de Robert Walser. O mundo moderno, organizado como um frio relógio suíço, é para todas estas figuras um imenso parque de diversões. Motivo de prazer e angústia.

De mãos na cinta e cachimbo na boca

 

Par les champs et par les grèves

Nantes Uma cerveja, ao fim da tarde, num bar chamado Corneille, que fica nas traseiras do edifício da Ópera. Copo pequeno, bebida vulgar. A mais barata da lista. Nem drama, nem comédia. Noirmoutier-en-l'Île Uma hora e tal pelos campos entre Nantes e Noirmoutier-en-l'Île, a pequena povoação balnear onde se rodaram várias sequências de As Praias de Agnès . O mar é um grande lago de águas paradas. O areal está coberto por conchas de ostras. Milhões de pequenas peças de mármore branco e cinzento esculpidas por um dadaísta enlouquecido. Saint-Marc-sur-Mer Foi aqui que Monsieur Hulot fez férias em 1953. E daqui não mais saiu. Está por toda a parte: nos nomes das ruas, nos logotipos das lojas, nos menus dos restaurantes. A praia chama-se agora «Plage de Monsieur Hulot» e o hotel da rodagem, comprado há uns anos por uma cadeia internacional, tem a personagem de Tati pintada numa das empenas. A praia é de areia escura. Borboletas da couve adejam no ar como flocos de espuma branca. Ao lo...

O tempo do trabalho

«Dizem: Tati gasta dois anos para fazer um filme . Asseguro-vos, todavia, que trabalho todos os dias... quando vejo que alguém se prepara para fazer em trinta e sete dias um filme que custa trinta e cinco milhões, o que é que querem, não acredito. Não se pode, em trinta e sete dias, contar uma história muito importante.» in Nota de abertura. Catálogo Jacques Tati editado pela Cinemateca Portuguesa em 1987.

Desportos e divertimentos cinematográficos

Os filmes de Jacques Tati são documentos antropológicos que mostram o aspecto ridículo e risível da nossa Grande Época . Passado um tempo nem é preciso estar a vê-los para rirmos; é fácil — oh, tão fácil — encontrar à nossa volta réplicas desses gags . Geralmente é na rua que se apanham: prédios sofisticados ao lado de baldios, moradias modernaças, sons cómicos que se repetem, pequenas frases alfinetadas — às vezes até basta um cão rafeiro a correr ou um miúdo que suja a cara com açúcar a comer um bolo.  Quando estava a subir as escadas, com as minhas sapatilhas cambadas, para o Pap’açorda, percebi que não se tratava de um jantar de cerimónia, mas da hipótese (talvez única na minha vida) de entrar, nem que fosse só de raspão, na cena do restaurante de Playtime . A porta tinha vidro e nenhuns sinais de obras por terminar, mas o chefe de sala com o seu ar de segurança elegante, vestido de escuro, era um bom indício. Lá dentro o ambiente coincidia; não sei definir muito bem, qual...

Vida moderna

Quem passa na estação de Francos à noite e vê o baldio — onde havia as hortas — cercado e, ao fundo, o Porto Office Park iluminado como um gigante — por uns instantes tem a ilusão de estar dentro de playtime .

Postal

Quando saí da biblioteca, sentei-me a apanhar sol e a ler as contracapas. A avenida das tílias parecia um corredor de um aeroporto: franceses, italianos, chineses, alemães, muitos espanhóis. Eu própria desempenhava um papel turístico:  mulher local a ler ao sol .

Moradias Arpel

Casas geminadas na avenida da Boavista. Vistas de frente, têm a forma de um homem simétrico a levantar pesos. Metáfora ou distracção do arquitecto? Não vi o peixe que gorgoleja, mas as cadeiras  scoubidou estão lá dentro.
Encontrei a velha de “Há festa na aldeia” na rua de São Roque da Lameira por volta das três horas da tarde. Perdeu a cabra.

Apoio à Retoma Progressiva

Podia ir à falência no stand da Snob . Em vez disso: Fiz uma aposta com Henri Lefebvre. Abri o livro à sorte. O olhar (tão contrário às técnicas publicitárias) fugiu para o canto superior esquerdo: “Em Setembro de 1967, Jacques Tati oferece o guião de Playtime aos bulldozers que deitam abaixo os cenários do filme.” Juntei as peças que faltam a Walser (os livros da BCF tem um formato porreiro para ler no metro, mais ou menos dez páginas por viagem) e a Denis Johnson. O problema é que os Bazarov (e logo esses, caramba) ficaram a zurzir-me na cabeça.

Observações avulsas sobre a boavista #20

Não sei se o conceito “moradia Arpel” serve mais a arquitectos, sociólogos ou cinéfilos. A mim dá-me jeito como instrumento multiuso — tipo canivete suíço. Na avenida da Boavista, nos números três mil setecentos e tal, existem uns quantos exemplares. Algumas até têm cadeiras exteriores idênticas às do filme de Jacques Tati. Imagino que lá dentro  tudo comunica .

Alors, un petit supplément?

A citação de Tati mais usada cá em casa costumava ser “Tudo comunica”. Se não me engano, é de uma cena em que a senhora Arpel demonstra às amigas a funcionalidade da sua cozinha moderna . Serve para comentar com extrema concisão quase todos os mecanismos da nossa vida. Nos últimos tempos, digo com mais frequência “Vai mais uma pincelada?”. Ou a minha sensibilidade cromática aumentou. Ou o mundo está mais parecido com o carro do senhor Arpel. Ou tudo.

Observações avulsas sobre a boavista #12

O caminho de terra batida junto ao muro do edifício Burgo (às vezes pára lá ao fundo uma carrinha para vender qualquer coisa, talvez fruta e legumes). O bairro Bessa Leite com roupa a secar à janela. E o baldio onde agora cresce milho e se estende até ao acesso à VCI. Todo esse espaço corresponde ao território dos cães e coscorões de Tati. Fotografia da google maps, abril de 2018.

A influência de Jacques Tati nos tempos de espera

Esperei 10 minutos pela abertura da loja Andante, calhou-me a senha 26. Fui fumar um cigarro junto à passagem para 5 outubro com vistas para as traseiras da antiga estação de comboios: um descampado cheio de ervas e plumas (para onde terão ido os ciganos despejados?) — isto também é a Boavista.