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Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta linguagem

De acordo com o ladrar dos cães

Que espécie de linguagem é a linguagem de Strauch? O que hei-de fazer com as suas lascas de pensamento? O que a princípio me parecia desarticulado, desconexo, possui os seus «nexos realmente espantosos»; no seu todo, é uma aterradora transfusão de palavras para o mundo, para as pessoas, «um processo impiedoso movido contra a estupidez», para o dizer com as suas palavras, «uma ininterrupta cadência de fundo que merece regenerar-se». Como anotar? Que tipo de notas? Até que ponto algo de esquemático, de maneira sistemática? Estas irrupções abatem-se sobre mim como derrocadas de pedras. De repente, o que ele está a dizer começa outra vez a partir-se face ao grito explosivo do ridículo que engendra para si próprio «e para o mundo». A linguagem de Strauch é uma linguagem do músculo do coração, que «palpita contra as pulsações do cérebro», malévola. É uma auto-humilhação rítmica cativa da «viga crepitante do seu próprio ouvido interno». As suas ideias, os seus ardis, estão basicamente de ac...

Falhar pior

Todos os dias quando passo na estação Estádio do Mar vejo o cartaz: «Eles falham há 50 anos. Dêem-me uma oportunidade». E fico sempre admirada com a capacidade contorcionista da linguagem dizer a verdade.

1.º Maio

Se as denominações não estiverem correctas, se não corresponderem à realidade, a linguagem não tem objecto. Quando a linguagem não tem objecto, a acção torna-se impossível, e, por conseguinte, as empresas humanas desintegram-se: é impossível e vão geri-las. É por isso que a primeira de todas as tarefas de um verdadeiro homem de Estado consiste em rectificar as denominações. Quando Confúcio propõe rectificar as denominações como primeira tarefa para governar, está certo e fora do seu tempo — na eternidade, dir-se-ia  ( la mer allée avec le soleil ). Nós continuamos à espera que as rectificações sejam feitas. É preciso lutar por uma revolução na linguagem que não venha do mundo sinuoso e fraudulento das finanças nem de ideias políticas mesquinhas. ( Il est démontrable que chaque mouvement imprimé à l'air doit à la fin agir sur chaque être individuel. ) Ainda não experimentamos a fundo o poder da linguagem.  

Bisogna trovare le parole giuste: le parole sono importanti!

Leio no jornal que Ana Gomes foi ilibada pelo Tribunal da Relação do Porto no caso em que chamou «escroque» ao empresário Mário Ferreira. Os excertos que o jornal cita do acórdão , redigido pelo juiz João Pedro Pereira Cardoso, são um tesouro da linguagem: No significado mais ecléctico do vocábulo ‘escroque’, acrescentar o sinónimo ‘desonesto’ ou ‘vigarista’ a um ‘criminoso fiscal’ não passa de uma redundância pejorativa intensificada. Não existe criminoso fiscal que não seja desonesto, pelo que a utilização interligada dos vocábulos não passa de uma crítica mais severa ou exagerada. [Ana Gomes considera que Mário Ferreira], na sua actividade empresarial, exibe um padrão de comportamento trapaceiro, de mentiras e embustes quanto ao cumprimento das suas obrigações fiscais — um comportamento, em suma, de escroque, vigarista ou desonesto.

Proposta de alteração dos vínculos narrativos

Dada a incontestável importância dos intestinos na nossa vida e até as suas conexões ao cérebro, talvez já fosse altura dos empresários trocarem a estafada metáfora do ADN. A minha proposta é que comecem a falar da merda que as empresas fazem — de preferência sem afectações (sem vocabulário em inglês, sem a palavra colaborador, etc., etc.).

Práticas diletantes em ambiente germânico

Consigo compreender a linguagem em ponto morto ou de férias , mas custa-me vê-la como uma caixa de ferramentas . Tenho uma noção bastante sólida da palavra “ferramentas” (martelo, alicate, serra, chave de fendas); imagino-a pesada ou afiada e não encontro essas propriedades na linguagem, nem sequer no alemão. A linguagem cotidiana descamba sempre — tem uma consistência gelatinosa tipo pega monstro. Por isso leio as investigações de Wittgenstein essencialmente como lances místicos. Transformar a linguagem em ferramenta, ou até mesmo arma, para desactivar a filosofia talvez seja possível mas só depois de levitar um bocadinho. Quanto?