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Música de câmara

Il est mort le soleil  (Nicoletta), Vanda e Zita discutem, sons da televisão (noticiários, telenovelas, concursos, canções…), pássaros, muitos pássaros, elas fumam, o vento nas folhas da árvore, marteladas, tijolos e vidros a cair (a demolição do bairro), fungadelas, o telefone toca, as muletas do Paulo Nunes, crianças a  brincar, um pedacinho de uma peça de Webern, « quer alface e couve?  quer alface e couve? », Vanda tosse muito, o som áspero dos isqueiros, alguém varre, rapazes a falar em voz baixa, risos, fogo a crepitar, Vanda trauteia Bach, lamúrias, o russo raspa a mesa, a Vanda raspa as páginas amarelas, crianças a chorar, a canção da gata Grizabella ( the last twist of the knife ) , alguém despeja água, uma festa, elas riem-se, um apito, a campainha da bicicleta, tantas confissões, I’ve got the power , uma mota ao longe, Officium breve in memoriam Andreae Szervánsky , de Gyorgy Kurtág.

O horror!

Se de repente uma mão invisível desligasse as televisões e aparelhagens de som de todos os cafés, esplanadas, restaurantes, lojas, salas de espera, repartições públicas, casas, apartamentos, T1, T2, T3 Duplex, e voltássemos a escutar apenas o som da nossa voz, não nos reconheceríamos. O vazio, o silêncio, o perfil sem fotografia, a conta sem actualizações, a folha em branco, é como uma espécie de morte em vida. O horror! O horror!