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Mensagens

A mostrar mensagens de março, 2026

Como resistir?

Antes de sair para o trabalho, ouço o noticiário da rádio e já não consigo pensar senão no óbvio: as palavras não são imortais. As palavras sofrem em certas bocas. São aprisionadas, envenenadas, torturadas, despedaçadas. Mergulhadas em aço líquido, ódio, peste. Enlouquecem de dor. E o que podemos nós fazer? Se não conseguimos salvar as palavras, não conseguimos salvar-nos a nós mesmos. A nossa sensação de impotência é o triunfo da tirania. Como resistir? Como salvar as palavras para nos salvarmos a nós?
Uma imagem para o Presidente da CIP. Vi nascer todos esses jogos no Japão. Reencontrei-os depois no mundo inteiro, com uma pequena variante: ao princípio é um jogo conhecido, uma espécie de bateria anti-ecológica onde se trata de malhar, mal ponham a cabeça de fora, em criaturas que ainda não determinei se são ratões-d’água ou bebés-foca. Eis agora a variante japonesa: em vez dos bichos, umas cabeças vagamente humanas identificadas por uma etiqueta. No topo, o Presidente-director-geral. À sua frente, o Vice-presidente e os directores. Na primeira fila, os chefes de secção e o chefe do pessoal. O tipo que filmei, e que desancava na hierarquia com uma energia invejável, confidenciou-me que para ele o jogo não era nada alegórico, era mesmo nos seus superiores que estava a pensar. É por isso, sem dúvida, que a marioneta do chefe do pessoal foi tantas vezes e tão fortemente martelada que está fora de serviço, e teve de ser substituída de novo por um bebé-foca. Sem Sol, Chris Mar...

Andar de carro

A televisão do Piolho mostra imagens da destruição no Irão: depósitos de petróleo em chamas, colunas descomunais de fumo negro, prédios e casas em ruínas. Um oráculo dá conta do infame número de vítimas civis do ataque israelo-americano. Na mesa do lado, um tipo comenta as imagens, queixando-se do preço da gasolina: «Qualquer dia, não se pode andar de carro.»

Haverá algum dia uma última carta?

Acabei de rever a tradução de Sem Soleil , de Chris Marker; agora só me falta rever outra vez.

Molas da roupa

Nos últimos dias, as gaivotas têm-nos roubado, uma após outra, as molas da roupa. Arrancam-nas do estendal e levam-nas. Para onde? Para quê? Bibelots para decorar o ninho? Totens do deus das gaivotas? Às vezes, com o impulso, as hastes separam-se e fica apenas o arame da mola pendurado no fio, como a espinha de um peixe que foi prontamente devorado.

«As vísceras da alma e as sinopses do corpo»

Nota oficial do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, a propósito da morte de Lobo Antunes: «O Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel lamenta profundamente a morte de António Lobo Antunes, vulto maior da literatura portuguesa. Como poucos revelou as vísceras da alma e as sinopses do corpo. Uma lucidez distante que não é desdém mas desapego. Um enorme embaixador da língua portuguesa.»