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Cousa que não aproveita e aborrece

ROMA: Eu venho à feira direita comprar paz, verdade e fé. DIABO: A verdade pera quê? Cousa que não aproveita, e aborrece, pera que é? (…) Vender-vos-ei nesta feira mentiras vinta três mil, todas de nova maneira,  cada ua tão subtil, que não vivais em canseira: mentiras pera senhores, mentiras pera senhoras, mentiras pera os amores, mentiras, que a todas as horas vos nasçam delas favores. Gil Vicente, Auto da Feira .

Como pode ser verdade se tu dizes que é mentira?

O que é «verdade» e o que é «mentira» nos dramalhetes de Walser? Quando é que as personagens estão a ser «verdadeiras» e quando estão a «mentir»? Alguém na mesa diz: talvez a verdade esteja na mentira. Quer dizer, quando estão ostensivamente a «mentir» é quando as personagens são mais «verdadeiras».

Questionários de Verão

Gosto de ler os questionários de férias dos jornais. É o tipo de coisas que só se publicam no Verão. É como se o tempo arrastado e indolente da estação fosse mais propício ao confessionalismo. A ideia é simples: os entrevistados têm mais disponibilidade e menos pressão para pensar nas respostas e, por isso, podem ser mais autênticos e genuínos. Mas é exactamente por esse motivo que as respostas são tudo menos autênticas e genuínas. Os questionários são uma espécie de exercício proto-literário, mais próximo da ficção do que qualquer outro texto do jornal. O que o leitor avalia não é a autenticidade, mas a destreza inventiva do entrevistado. E, claro, lendo a maioria das respostas, a verdade deve ser bastante mais interessante do que a ficção.