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Em círculos

O dilema moral que Jafar Panahi retrata no novo filme Foi só um acidente é o mesmo que, por exemplo, Tiago Rodrigues propõe em Catarina e a beleza de matar fascistas . O mais humano dos dilemas: como combater a violência e a opressão sem ceder à simples lógica da vingança, ao princípio do olho por olho, dente por dente, tão velho como o Antigo Testamento? Voltamos à leitura de Walter Benjamin sobre os contos de fadas de Robert Walser. O perdão é um acto de ingenuidade ou uma forma de libertação? Que lado escolhemos? Não saímos disto. Andamos em círculos, como na Divina Comédia .

Kiarostami filma Dante

Fomos rever, após tantos anos, O Sabor da Cereja . Um ponto que agora me parece óbvio é a relação com A Divina Comédia . É impossível não reconhecer na paisagem de O Sabor da Cereja os negros vórtices dos nove círculos infernais. Os longos planos de Badii percorrendo os estradões sinuosos, secos e empoeirados dos subúrbios de Teerão, lembram a viagem de Dante pelo Inferno. Os mesmos personagens perdidos e condenados a uma vida de eterno martírio, as máquinas a revolverem constantemente a terra como demónios cegos e obstinados, os caminhos intermináveis abertos sobre abismos, exactamente como no cone invertido do inferno dantesco. O próprio projecto de suicídio de Badii, que exige um buraco aberto junto à base de uma cerejeira e a ajuda de alguém que o cubra com “vinte pás de terra”, remete para Dante. No primeiro grande diálogo do filme, Badii tenta convencer um jovem recruta a ajudá-lo, dizendo-lhe que finja que ele - Badii - não passa de adubo para fertilizar a árvore. Lembremo-...