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Andar de carro

A televisão do Piolho mostra imagens da destruição no Irão: depósitos de petróleo em chamas, colunas descomunais de fumo negro, prédios e casas em ruínas. Um oráculo dá conta do infame número de vítimas civis do ataque israelo-americano. Na mesa do lado, um tipo comenta as imagens, queixando-se do preço da gasolina: «Qualquer dia, não se pode andar de carro.»

Molas da roupa

Nos últimos dias, as gaivotas têm-nos roubado, uma após outra, as molas da roupa. Arrancam-nas do estendal e levam-nas. Para onde? Para quê? Bibelots para decorar o ninho? Totens do deus das gaivotas? Às vezes, com o impulso, as hastes separam-se e fica apenas o arame da mola pendurado no fio, como a espinha de um peixe que foi prontamente devorado.

Truca-truca e tuque-tuque

Um daqueles «estudos internacionais» que revelam coisas verdadeiramente importantes, «revelou» que o «Porto é a terceira cidade do mundo onde se faz mais sexo». Ah, que cidade de maravilha, surpresa e deleite! É pena que a avalanche turística tenha arruinado, para sempre, as velhas casas de prostituição. Que grande oportunidade de negócio se apresentaria agora aos nossos empreendedores: a rota típica dos velhos prostíbulos em tuque-tuque, com o apoio de guias especializados, vestidos de lingerie ou tanga, e oferta de um bilhete para a livraria Lello.  Enfim, resta-lhes produzir réplicas em plástico, como tudo o resto. Os turistas não percebem a diferença.

Sete em ponto

Nas tempestades de Fevereiro, o vento arrancou o número 7 do relógio da Câmara do Porto. Em lugar do número, ficou um buraco. Durante alguns dias, faltaram duas horas no tempo da cidade. Tudo o que aconteceu nas horas incertas das 7 da manhã e das 7 da tarde, não aconteceu. Ou aconteceu no Porto que existe noutro lugar.

Babel

A lavandaria do bairro está cheia de gente. Velhos e novos vizinhos vindos de longe, com sacos de supermercado atulhados de roupa, esperam a vez. Peças de todos os tamanhos, feitios e cores, às voltas dentro das máquinas. Espantosa babel das línguas, cuecas e meias.

Andamentos perdidos

Da janela do escritório, ouço os calceteiros a empedrar a Rua de São Bento da Vitória, que está em obras. Dão três pancadas seguidas em cada pedra: a primeira mais forte, a segunda menos e a terceira é uma espécie de eco menor das anteriores. Perto deles, há um rádio sintonizado num canal de êxitos pop dos anos 80. Misturada com os diferentes sons do ferro a bater no granito, a música transforma-se noutra coisa. Andamentos perdidos de um Wagner enlouquecido.

«As nossas mulheres»

Na apresentação da candidatura à Câmara do Porto, o concorrente da «direita democrática» disse: «Nesta terra não se ameaça, não se intimida impunemente as nossas mulheres, as nossas crianças, ou qualquer cidadão, seja nas ruas, nos jardins, ou nas estações de metro. Quem não sabe comportar-se dessa forma, não é bem-vindo!» Ia escrever que é uma declaração repugnante e irresponsável, mas desisti. Certas palavras já não significam nada.

Novo mundo

Estão 33 ou 34 graus. Turistas japoneses passeiam pela Cordoaria de guarda-chuva aberto, tentando proteger-se do sol. Dezenas de guarda-chuvas, avançando em todas as direcções, como num dia de tempestade. Pousadas nos semáforos, as gaivotas observam este novo mundo, confusas.