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A frutificação instantânea de uma árvore no mês de janeiro

Para Maistre, essa força ganha um sentido, torna-se verdadeiramente a Providência, a partir de um milagre, a Revolução: «se no coração do inverno e diante de mil testemunhas um homem ordenar a uma árvore que se cubra repentinamente de folhas e frutos e a árvore obedecer, todos clamarão milagre e inclinar-se-ão diante do taumaturgo. Mas a Revolução Francesa e tudo o que se passa neste momento é, no seu género, tão maravilhoso como a frutificação instantânea de uma árvore no mês de janeiro…».   Exercícios de Admiração – Ensaios e Retratos, de Emil Cioran, Gallimard, 1986.

Weininger

Carta para Jacques Le Rider  Paris, 16 de Dezembro de 1982  Ao ler o seu livro sobre o meu antigo e distante ídolo, não pude deixar de pensar no acontecimento que foi para mim a leitura de Geschlecht und Charakter . Estávamos em 1928, eu tinha dezassete anos e, ávido de todas as formas de excesso e heresia, gostava de explorar uma ideia até às últimas consequências, levar o rigor até à aberração, até à provocação, conferir ao furor a dignidade de um sistema. Por outras palavras, apaixonava-me por tudo, excepto pelas nuances. O que me fascinava em Weininger era o exagero vertiginoso, o infinito na negação, a recusa de bom senso, a intransigência mortal, a busca de uma posição absoluta, a mania de levar um raciocínio até ao ponto onde ele se destrói a si mesmo e arruína o edifício de que faz parte. Acrescente-se a isso a obsessão pelo criminoso e pelo epiléptico (especialmente em Über die letzten Dinge ), o culto da fórmula genial e da excomunhão arbitrária, a assimilação da mul...

Agora tenho a impressão de que se passa tudo ao contrário

Noutro dia voltei a ver, passados muitos anos, La Vallée fantôme , de Alain Tanner. Para mim, trata-se de um cineasta excepcional, pois é dos poucos que se manteve obstinadamente fiel ao legado de André Bazín, à valorização do plano como unidade espácio-temporal com valor próprio, como um «pedaço de vida», um momento que será inserido no decorrer do filme, mas que existe por si mesmo e não deve ser sacrificado a essa integração. Eu diria que se trata de uma noção de «plano» oposta à de Bresson, que afirmava que um plano não tem de significar nada por si mesmo, porque só assim estará em condições de encaixar no conjunto.  O protagonista de La Vallée fantôme (Jean-Louis Trintignant) é um cineasta que se desfez de um argumento em que estava a trabalhar há quatro meses. Quando a mulher aborda o assunto, ele responde que não era mau, era «uma história com princípio, meio ( milieu ) e fim», mas estava morto, era uma das milhares de histórias que há por aí. «Para que servem?». Ela respon...

Imobilidade em movimento

O sentimento de que corre tudo mal existiu em todas as épocas, e com razão, já que o maior prazer dos homens é inventar maneiras de tornar a vida uns dos outros miserável. A afirmação dos conservadores de que a sociedade actual é má, mas a seguinte será ainda pior, é irritante e até mesmo insuportável. E, no entanto, a história confirma este diagnóstico à risca. Que fazer? Tornar-se budista ou aceitar o Progresso de olhos fechados? Esta superstição vem do tempo do Marquês de Condorcet, e a sua influência tem sido enorme. A ideia de Progresso é uma forma atenuada de utopismo, um delírio aparentemente razoável sem o qual as ideologias do século passado, assim como as do nosso, teriam sido impossíveis. A originalidade do ponto de viragem histórico que estamos a testemunhar reside no facto de este delírio estar a ser contestado, submetido a uma lucidez fatal — um despertar ao mesmo tempo libertador e terrível. As velhas categorias de «direita» e de «esquerda» parecem ultrapassadas. Eviden...

Admiradores

Joyce e Musil moravam muito perto um do outro em Zurique durante a última guerra; no entanto, não fizeram nenhuma tentativa de se conhecerem, de se encontrarem. Os criadores não comunicam entre si. Precisam de admiradores, não de semelhantes . Emil Cioran, Cadernos 1957-1972

Livros fortificantes

O que não devo aos livros destrutivos, do contra, «ácidos»? Sem eles, já não estaria vivo. É por reacção ao seu veneno, por resistência à sua força nociva, que me fortaleci e me apeguei ao ser. Livros fortificantes , pois despertaram em mim tudo o que os devia negar. Li quase tudo o que é preciso para soçobrar, mas foi precisamente por isso que consegui evitar o naufrágio. Quanto mais «tóxico» é um livro, mais age em mim como um tónico. Só me afirmo pelo que me exclui. Emil Cioran, Cadernos 1957-1972
O nacionalismo é um pecado do espírito. Pertencer a um povo não tem um significado profundo (excepto, talvez, para os Judeus). A única comunidade verdadeira é aquela que se funda na «família espiritual», nem nacional nem ideológica. Só me sinto solidário com quem me compreende e que eu compreendo, com quem acredita em certos valores inacessíveis às multidões. Tudo o resto é mentira. Um povo é uma realidade, sem dúvida; uma realidade histórica e não essencial. Quando penso na efervescência da minha juventude por causa da minha tribo! Que loucura, meu Deus! Temos de nos libertar das nossas origens, ou pelo menos esquecê-las. Tenho tendência a voltar a elas, sem dúvida por masoquismo, por gosto da servidão, das «grilhetas», da humilhação. Emil Cioran, Cadernos 1957-1972

China my China

21 de Junho  Ontem disse à Doreen que o governo devia pôr à disposição da população uma sala ou um edifício onde as pessoas se pudessem encontrar, conversar, fazer discursos, desabafar. Ela respondeu-me que as mulheres na China antiga, quando estavam com raiva ou tinham alguma aflição, subiam a pequenos estrados, montados especialmente para elas na rua, e ali davam rédea solta à sua fúria ou à sua tristeza. Essa «prática» parece-me muito mais eficaz do que o método psicanalítico ou o confessionário. Emil Cioran, Cadernos 1957-1972

Ir ao mercado

Ouvido no mercado. Duas mulheres velhas e gordas prestes a terminar a conversa. Uma diz à outra: «Para se viver tranquilo, não devemos sair do rame-rame da vida.» Uma manhã destas, fui ao mercado (como todos os dias). Depois de dar três voltas, saí incapaz de me decidir por o que quer que fosse. Nada me tentava, não tinha vontade de nada. Em tudo, a escolha tem sido a minha perdição ao longo da vida. Noutro dia, no mercado, olhei por um instante para uma cabeça de boi cuja pele tinha sido arrancada. Os olhos, ou o que deles restava, deram-me um calafrio terrível. No mercado, uma mulher horrível, com cabeça de águia, começou a gritar comigo porque eu tinha acabado de passar entre ela e a banca. «Você não é educado. Um cavalheiro não deve passar à frente de uma mulher, etc.» Ela insiste. Fraqueza incrível da minha parte, tento justificar-me e enervo-me tanto como a mulherzinha. Nisso, como sempre, sensação de mal-estar físico. Decididamente, só morto alcançarei a indiferença. ...
Um Papa que perdia a fé e abandonava o Vaticano depois de uma declaração pública de ateísmo... Emil Cioran, Cadernos 1957-1972 
Como todos os grandes acontecimentos cá em baixo, o «fim do mundo» chegará com um «primário», com um louco... medíocre. Emil Cioran, Cadernos 1957-1972 

& outras manhas

Foi uma luta para me obrigar a traduzir decentemente este aforismo (V ariations Goldberg . / … Après ça, il faut tirer l’échelle). Na verdade, gosto mais da versão censurada ( Variações de Goldberg . / … Depois disto, deitar fora a escada). Tenho uma predilecção por escadas.

Campanha eleitoral

É incrível a que ponto o espírito é tão pouco capaz de prever, de admitir, de assimilar as catástrofes. À minha volta só vejo pessoas que não querem acreditar nas catástrofes. Isso vem de uma reacção de defesa completamente natural, mas também de uma falta de cultura histórica. Ora o que é a História senão a disciplina do pior? Quem a cultiva, habitua-se e até lhe ganha o gosto...  Eles não ousariam (foi o que os checos disseram a si mesmos recentemente... até que viram). Os romanos também não acreditavam que Alarico ousaria. Um homem político que rejeita a ideia de catástrofe é um ingénuo e prepara a ruína do seu país. Emil Cioran, Cadernos 1957-1972 

Best-seller

Graças ao Daniel e à Diana, o Caderno de Talamanca é o livro mais bonito de Cioran que já vi. Entretanto comecei a fazer pequenas emendas à tradução, o que sustenta o meu carácter duvidoso. Não há contradição entre os axiomas.
A imagem desaparece. O NEGRO do fim começa (dezasseis segundos de negro).  Voz off de MD  Aguarda-se o acidente que povoará a floresta.  É o ruído de uma passagem.  Não se sabe de quem, de quê.  [ Silêncio .]  E depois, pára.  O tema de Diabelli sobrepõe-se à música, estridente, e envolve o desenrolar do GENÉRICO .   O Camião,  de   Marguerite Duras.

O sistema das canções

A música é um dos poderes máximos de Ford, talvez a chave fundamental. É possível que o seu desejo principal tenha sido converter o cinema em música, fazer filmes que se podem justificar pelo desenvolvimento musical, sem necessidade de mais nada. Creio que isto é verdade, pelo menos durante os prodigiosos anos da Argosy (incluindo Stagecoach ). Depois, talvez se tenha interessado ou viu-se obrigado a interessar-se por outras coisas.  Nesse sentido,  Fort Apache  é provavelmente a sua obra maior e bastaria este breve 1º acto para o demonstrar. Há ritmo até no bater de botas dos sargentos quando se põem em sentido perante O’Rourke na noite da festa. A música em Fort Apache também é o silêncio; o silêncio insólito e ominoso da carga, «formada a quatro», dos soldados do regimento quando o corneteiro é o primeiro a cair. Caso único entre as numerosas cargas de cavaleiros na obra de Ford, que são sempre acompanhadas pelo característico toque de clarim. No filme anterior, The F...
Nostalgia e ansiedade — é a isto que a minha «alma» se resume. Dois estados aos quais correspondem dois abismos: o passado e o futuro. Entre os dois, apenas o ar suficiente para poder respirar, apenas o espaço suficiente para me aguentar de pé Emil Cioran, Cadernos 1957-1972