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Acto de primavera

Ao fim de muitas revisões (a maior das práticas dialécticas?), começo a ficar satisfeita com a tradução do ensaio de Cioran sobre o pensamento reaccionário dedicado a Joseph de Maistre. O texto já parece um corpo vivo: familiar e estranho ao mesmo tempo.

«Entre os pensadores que, como Nietzsche ou São Paulo, tiveram o gosto e o génio da provocação, cabe a Joseph de Maistre um lugar nada negligenciável. Ao elevar o mais pequeno problema ao nível do paradoxo e à dignidade do escândalo, ao manejar o anátema com uma crueldade misturada de fervor, ele estava destinado a criar uma obra rica em enormidades, um sistema que não deixa de nos seduzir e exasperar. A amplitude e a eloquência das suas cóleras, a paixão que dedicou a causas indefensáveis, a obstinação em legitimar umas quantas injustiças, a predilecção pela fórmula letal, fazem dele esse espírito exagerado que, não se dignando a persuadir o adversário, o esmaga de chofre com um adjectivo. As suas convicções têm aparência de grande firmeza: ele soube responder às solicitações do cepticismo com a arrogância dos seus preconceitos, com a veemência dogmática dos seus desprezos. (...)»

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