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Como um cão a olhar para o dedo

É um livro pequeno — lê-se numa tarde —, mas deixa um rasto impressionante. Começa logo pelo título: “Raparigas de Escassos Recursos”. Ora, as raparigas nunca são de escassos recursos, menos ainda no fim da Segunda Guerra Mundial em Londres.

A ironia atravessa também a história e o modo de a escrever. Muriel Spark recorre a tempos e registos diferentes para criar uma novela que tem mais ou menos o ritmo de Ein musikalischer Spaß: passagens cómicas misturam-se com versos de poemas clássicos, costumes velhos, ousadias, papel de parede, um vestido Schiaparelli partilhado e mais ainda. Toda esta trama culmina na explosão de uma bomba perdida e na morte de um poeta convertido. O divertimento, como aliás tantas vezes em Mozart, dá lugar a uma tristeza miudinha e é disso que é difícil livrarmo-nos.

Outra curiosidade de “Raparigas de escassos recursos” é que Muriel Spark aponta para coisas diversas (raparigas, um edifício, a cidade, os restos da guerra, etc.), mas reagi sempre como um cão a olhar para o dedo.

O dedo é a poesia.

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