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Kiarostami filma Dante

Fomos rever, após tantos anos, O Sabor da Cereja. Um ponto que agora me parece óbvio é a relação com A Divina Comédia. É impossível não reconhecer na paisagem de O Sabor da Cereja os negros vórtices dos nove círculos infernais. Os longos planos de Badii percorrendo os estradões sinuosos, secos e empoeirados dos subúrbios de Teerão, lembram a viagem de Dante pelo Inferno. Os mesmos personagens perdidos e condenados a uma vida de eterno martírio, as máquinas a revolverem constantemente a terra como demónios cegos e obstinados, os caminhos intermináveis abertos sobre abismos, exactamente como no cone invertido do inferno dantesco. O próprio projecto de suicídio de Badii, que exige um buraco aberto junto à base de uma cerejeira e a ajuda de alguém que o cubra com “vinte pás de terra”, remete para Dante. No primeiro grande diálogo do filme, Badii tenta convencer um jovem recruta a ajudá-lo, dizendo-lhe que finja que ele - Badii - não passa de adubo para fertilizar a árvore. Lembremo-nos que entre os condenados que Dante encontra no Inferno estão os suicidas, cujo castigo é serem transformados em árvores que viverão eternamente.

Schopenhauer: 
Onde foi buscar Dante os elementos do seu Inferno, senão ao próprio mundo real? Por isso fez um Inferno muito apresentável. Mas quando teve que fazer um Céu, de lhe pintar as delícias, então a dificuldade foi intransponível: o nosso mundo não lhe fornecia materiais.
O Mundo Como Vontade e Representação.

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