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Que bela noite!

Gosto tanto quando a Chantal não se preocupa em contar uma história e arrisca fazer um filme fragmentado – é quando ela é mais livre e efervescente. Toda uma Noite mostra-nos os apelos amorosos de uma noite quente de verão em Bruxelas. A cidade transforma-se num enorme estúdio de cinema, mas as personagens fogem aos guiões habituais e andam de um lado para o outro: encontram-se em cafés ou na rua, esperam, bebem, fumam, correm, regressam, separam-se, sussurram, agarram-se, dançam ao som das canções românticas das jukeboxes (já se nota a influência de Pina Bausch), apanham um táxi, vão para casa, vão para um hotel. Os pares fazem-se e desfazem-se sem razão e quase sem palavras. Natalia Akerman aparece a fumar um cigarro à porta de casa – elegantíssima como é habitual e como todas as mulheres do filme –, uma voz chama «mamã», ela guarda o isqueiro dentro do maço e vai para dentro. Há umas crianças que saem sorrateiramente de casa, sabe-se lá para onde. A câmara não tem medo da noite; filma a escuridão, a penumbra e os movimentos instáveis da paixão ou do desejo com uma atenção desprendida. Ouvem-se carros, um telefone a tocar, passos do princípio ao fim. Há escadas, cortinas, telefones, janelas e muitas, muitas portas (Lubitsch touch). Vem o vento, a trovoada e a chuva. Quando o dia nasce, o barulho da cidade assusta: acaba o cinema noir (ou musical? A Chantal troca-nos as voltas) e começa a vida rotineira. Hélas!

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