domingo, 25 de janeiro de 2015

Quero ser cavalo

Como eu gostava de ser cavalo...
Bastava que, ao olhar para o espelho, pudesse ver, em vez de pés e mãos, cascos e uma cauda no traseiro e uma cabeça de cavalo autêntica, para ir direito ao departamento de habitação...
«Quero um andar grande e moderno», diria.
«Tem de preencher uma requisição e esperar a sua vez.»
«Ah, ah, ah», havia de rir. «O cavalheiro não vê que não sou nenhum vulgar homem da rua? Sou diferente, sou especial.»
Logo a seguir, dar-me-iam um grande e espaçoso andar com casa de banho.
Faria espectáculos numa revista e ninguém se atreveria a dizer que não tinha talento - mesmo se o texto não prestasse. Pelo contrário, haviam de elogiar-me.
«Não é uma maravilha, para um cavalo?», diriam.
«Que cabeça!», comentariam outros.
Depois viria todo o gozo dos ditados e provérbios: «Senso de cavalo», «A cavalo dado não se olha o dente», «Um reino para um cavalo», «Um cavalo cinzento»...
Havia de despertar o interesse das mulheres. «Você é tão diferente», diriam.
E, quando chegasse o tempo de ir para o céu, arranjaria um par de asas, naturalmente. Tornar-me-ia num Pégaso. Um cavalo alado! Pode existir porventura melhor destino para um homem?

Slawomir Mrozek, O elefante. Tradução de Yolanda Artiaga.

No próximo sábado, 31 de Janeiro, há mais.

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