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Uma fila em que todos esperam pela oportunidade de enriquecer

Houve recessões e escassez e as pessoas sentem-se vulneráveis no plano económico e precisam de encontrar alguém a quem atribuir a culpa. Em vez de culparem as políticas neoliberais, a redução dos impostos sobre os mais ricos e a acumulação de fortunas gigantescas, culpam os imigrantes ou os pobres. Imaginam uma fila em que todos esperam pela oportunidade de enriquecer e vêem os programas de inclusão como uma forma de deixar passar à frente pessoas sem mérito: imigrantes, afro-americanos ou pessoas queer . Não percebem que não existe uma meritocracia. Quem acumulou milhões beneficia de reduções fiscais e de empresas que pagam pouco aos trabalhadores. É difícil culpar um sistema. Muitos pensam que o capitalismo é maravilhoso e meritocrático e que o sistema económico não pode, por isso, ser o problema. Culpam aqueles que chegaram às suas comunidades com outros modos de vida, outras formas de vestir e de falar. Em vez de encararem a diversidade como um enriquecimento da cultura, sentem-na ...

As paixões tristes

Na ordem cósmica do mercado, como são os técnicos a ser chamados a governar a crise dos Estados para pôr em ordem a economia, também devem ser considerados «técnicos» aqueles a quem é confiado o tratamento da crise psicológica que deriva da falência individual. As paixões do cosmos neoliberal são, de facto, tristes : frustração, impotência e inadequação são os sentimentos predominantes, dependentes de uma performance que não produziu o lucro esperado pelo mercado, ou de uma avaliação negativa das skills que um investimento individual insuficiente não conseguiu tornar competitivas. É, pois, como «técnicos da crise» que os psicanalistas e psicoterapeutas Miguel Benasayag e Gérard Schmit se sentem considerados pela sociedade, e perguntam-se: «Existirá hoje uma real incapacidade de assumir uma situação de angústia, porventura ampla e generalizada, sem considerá-la, acima de tudo, um problema da técnica ?» Segundo os autores de Les passions tristes [As paixões tristes], as crises psicoló...