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Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2014

O título desta história é... Oh, diabo! Esqueci-me do título desta história

Era um dia triste, fosco e frio. Elwood Veeblefetzer tinha os pés gelados. Ora, cada pessoa tem as suas manias e a de Elwood era a de não gostar de sentir os pés gelados. Por isso, passara a manhã a matar moscas na tentativa de os aquecer. Também tinha feito isto e aquilo, mas o resultado fora o mesmo: pés gelados. A culpa era obviamente dos sapatos.
Saiu de casa para comprar um par novo. Na sapataria, o empregado fez-lhe notar que os sapatos vermelhos tinham esgotado, mas que em contrapartida tinha exactamente aquilo de que ele precisava: um par de sapatos pretos. Elwood ainda torceu o nariz para um lado e para o outro, mas pôs a caixa debaixo do braço, pagou e saiu a correr.
Em casa, logo que abriu a caixa, os sapatos saltaram para o chão e desataram a fugir em todas as direcções. Sem vontade de brincar, Elwood dispôs-se a apanhá-los usando de todos os estratagemas. Primeiro, acenando-lhes com falinhas mansas. Depois, tentando esmurrá-los com o punho fechado. Mas de nada lhe servi…

Olha! - disse Bouvard

Por fim, interrogaram-se sobre se haveria homens nas estrelas. Porque não? E como a criação é harmónica, os habitantes de Sirius haviam de ser desmesurados, os de Marte de tamanho médio, os de Vénus muito pequenos. A não ser que seja tudo igual em toda a parte... Existem lá em cima comerciantes e guardas, lá se negoceia, lá se batem uns contra os outros, lá se destronam reis!...
Algumas estrelas cadentes escorregaram de repente, descrevendo no céu como que a parábola de um monstruoso foguete.
- Olha! - disse Bouvard - ali vão mundos que desaparecem.

Gustave Flaubert, Bouvard e Pécuchet. Tradução de Pedro Tamen.

Pôr os pontos nos iii

A verdade é que desde parasita a chulo, à fórmula ele (ele sou eu) não quer é trabalhar! ou ao salutar conselho: ó Pacheco por que é que não te dedicas a um trabalho ònesto?por que é que não vais prá estiva?... me têm chovido em cima uma série de incompreensões, que, desculpem, julgo premeditadas. E não mereço. A verdade, ainda, é que à evidência se mostra que eu na estiva não daria rendimento nenhum... e já dei provas que o melhor que faça é sentado a esta máquina. Não a escrever o que querem, ou encomendam, mas o que eu quero. Direito que me arrogo, que defendo e defenderei contra tudo e todos e o mais tenazmente que me for possível. Por todos os meios ao dispor. Com uma força e teimosia que nem VV. sabem. É que não é brincadeira nenhuma: trata-se nem mais nem menos da minha vida.

Luiz Pacheco, Figuras, figurantes e figurões.

Próximo sábado, 27 de Dezembro, a partir das 17h00, no Gato Vadio.

Próximo sábado, 27 de Dezembro, pelas 17h00

Luiz Pacheco nas Leituras do Gato Vadio.
O convidado é o actor José Luís Costa.
O cartaz é do Luís Nobre.
A entrada é livre.

Preço

É a crise que, para si, leva a uma redefinição do papel da arte?
Quando falamos da crise, no singular, parece haver apenas uma [a financeira e económica]. Não é verdade. Uma das crises é ambiental. Depois, há uma crise política. É uma tragédia, mas temos de ser honestos: estamos a encaminhar-nos para uma pseudodemocracia em que os sistemas de pseudorepresentatividade mascaram uma oligarquia. Uma oligarquia sendo um grupo de pessoas bastante fixo – o chamado 1%, a classe dominante. Se olharmos para as consequências da crise, constatamos que a oligarquia maximizou o seu potencial de rendimento. Fê-lo às custas da maioria das pessoas. E os media e a maioria das forças de persuasão usadas para nos convencer de que isso é aceitável dedicam-se a proteger esses interesses. Ou seja: vivemos tempos oligárquicos, a questão é o que vamos fazer a esse respeito.

Até que ponto é que a vigência dessa oligarquia afecta os museus e outras instituições da arte?
Enormemente. Ao levar o Estado a retirar-se …

Elefantes e micróbios

Pudo asentarse Nabokov definitivamente en Harvard en 1957, pero fue rechazado por Roman Jakobson, la estrella del departamento de lenguas eslavas, que atribuía al genio ideas extravagantes sobre Dostoievski. Como algún colega recordaría que Nabokov era un novelista muy distinguido, Jakobson respondió que a nadie se le ocurriría nombrar a un elefante profesor de Zoo­logía. Nabokov, según Boyd, catalogó inmediatamente a Jakobson como espía soviético, es decir, un microbio especialmente maligno.

Justo Navarro.

Uma rixa furiosa

Era uma vez um autor que não queria ser autor. No entanto, a mão insistia em escrever. E escrevia, escrevia mesmo contra a vontade dele. Onde tinha ido a mão buscar esse vício é o que lhes pergunto. A verdade é que tudo pode suceder neste mundo. (Esta crónica já vai longa e maçuda, e ainda há bastante por dizer.)
Entretanto uma história avançava no papel. Mas também a história não queria avançar, não queria sequer ter começado. Os personagens, os vivos e os mortos, estavam igualmente irritados porque não queriam ser personagens. Na verdade, não compreendiam como tinham ido ali parar. Ah!, aquilo era demais, era fazer pouco.
As palavras estavam presas às frases e as frases estavam presas ao papel, e todas se debatiam furiosamente, tentando libertar-se daquela misteriosa força que as detinha ali. O papel também participava, contrariado, em tudo aquilo. Esta cena, a todos os títulos lamentável e confrangedora, levaria a própria paciência a perder a cabeça. Que era lá aquilo? Que é que se…

Cloth, horses, and money

He had an amour or at all events was in love with the Marquise de Mallespine, who was accounted one of the most beautiful, accomplished, and virtuous ladies of Provence. He made many songs in her praise, and the lady sent him privately various presents of cloth, horses, and money, together with a letter beseeching him to desist from his attentions for a time. He complied with her request, but first sent her a song in form of a dialogue between the marquise and himself, commencing thus, -

“Desportas vous Amy d aquest amour per aras.”

To which the next verse replies –

“Mais comme faray yeu (diz’ieu) mas Amours karas
My poder desportar d’aquest affection?
Car certas yeu endury en esta passion
Per vous ingratament mantas doulours amaras.”

Excerto da biografia de Albert de Gapençois.
The Biographical Dictionary, Vol. I, Parte II, p. 673 (1842).

Se duvidas, estás perdido

Vi o recente fracasso dum rapaz daqui [das Caldas da Rainha], e não dos piores, que expôs uma série de quadros numa galeria, a Tertúlia, que tu já conheces. E depois, foi muito sossegadamente para a tasca, como de hábito, ao que parecia convencido que ia haver comboios especiais para encher as Caldas de marchands, de mirones, de visitantes. E já estava a fazer as contas ao dinheiro que ganharia, etc. Eu, que sou amigo dele e gosto do que ele pinta, passei até às seis da manhã a pendurar quadros, limpar aqui e ali, dar sugestões, etc. Sinceramente convencido do êxito dele ou pelo menos da justiça do êxito. Ou, pelo menos: que estava a colaborar em algo que não fosse apenas comer a couve na panela e beber copinho. Uma coisa válida em si, por si e pelo gozo que me dava participar nela, sequer na função de moço de fretes. Pois bem: não foi ninguém à exposição, apesar da propaganda que eu ainda fiz, no Letras e Artes e pelos cafés das Caldas. O rapaz arrepelou-se: fala agora em queimar tod…

Definições de Lit.ª

Lit.ª – Uma espécie de sarampo. Em geral, cura-se depressa.
Lit.ª – Uma lâmpada que estala e cai em mil pedaços.
Lit.ª – Uma pergunta sem resposta.
Lit.ª – Bolhas nos pés.
Lit.ª – Uma fórmula alternativa e mais elegante de suicídio.
Lit.ª – É o vale tudo, mesmo tirar olhos.
Lit.ª – Arriscar a pele ao jogo. Perder os ossos.
Lit.ª – E ele a dar-lhe.
Lit.ª – Um mistério. Sobretudo para o escritor.
Lit.ª – Não é necessário perceber, basta acreditar.
Lit.ª – A prova de que existem universos paralelos, outros planetas habitados, fantasmas, toda a espécie de deuses, o inferno e o paraíso.
Lit.ª – Odradek.
Lit.ª – Pastorear vacas, árvores e flores.
Lit.ª – Processo químico que ocorre no sangue.
Lit.ª – A arte de morrer mais devagar.

A arte de conversar

Para [Antoine] Gombaud, a boa conversa supõe elocução fluente, sem grande ornamentação; supõe também simplicidade, que apenas existe no ar nobre e natural, oposto ao excesso de estudo, e ainda conformidade, isto é, uma acomodação do discurso às pessoas que se deseja conquistar. Convém sempre um humor afável e complacente com os amigos, além de um emprego comedido de provérbios, equívocos e agudezas, pois perdem a graça quando repetidos ou traduzidos para estrangeiros e visitantes.

Gombaud aconselha adotar um ritmo de “pressa lenta” na conversa, que nunca demonstre afã de impressionar; com esse mesmo propósito, também cabe evitar o tom sentencioso, de gosto vulgar. Realça ainda o papel da desenvoltura, para que não pareça que apenas se consegue falar bem mediante muito esforço, e a importância de evitar o didatismo livresco nas conversas. Outro aviso importante é do de temperar os elogios para que a fala não ganhe ares de adulação.

Alcir Pécora.