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Mensagens

A mostrar mensagens de Maio, 2016

Próximo sábado, 4 de Junho, no Gato Vadio.

Imagem de Luís Nobre, da dupla Lina&Nando.

Trinta

Às dez da manhã, um senhor gordo, com barba, de fato um pouco amarrotado, apercebeu-se de que tinha o dom de fazer milagres. Bastava um gesto muito simples: fazer deslizar o polegar da mão direita pelas pontas do indicador, médio e anelar da mesma mão. Naturalmente, da primeira vez acontecera por acaso, e curara um gato aflito, instantaneamente. Tratava-se de milagres, não de «realizações de desejos». Quando fez aquele gesto e pediu dinheiro - precisou a importância, bastante razoável - não aconteceu nada. Tinha de ajudar alguém. Curou uma criança, acalmou um cavalo, aplacou as fúrias de um louco homicida, manteve em equilíbrio uma parede que ameaçava cair sobre avós e netinhos. Repugnante: não havia outra palavra. Jamais teria acreditado que ser taumaturgo fosse tão - como dizer? - cheap. O ponto a favor do senhor gordo era só um, mas importante: não era um crente. Não era, propriamente, ateu, pois não tinha um espírito filosófico; mas as religiões, todas elas, davam-lhe nojo. E por …

A máquina de Shelley

Shelley tinha um sonho: construir a maior e mais bela máquina do mundo. A esse sonho dedicou uma vida inteira de trabalho e todas as suas energias. Pois bem, eis o resultado do seu longo e minucioso esforço: uma colossal máquina luzidia, de esplendorosa beleza e extraordinária complexidade.
À primeira vista, parecia uma máquina de cortar árvores. Ou talvez um mecanismo para despedaçar pedras. Com todos os componentes minuciosamente articulados entre si, tambores e tirantes, engrenagens e correias, válvulas e manómetros, rolamentos e cilindros oscilantes. A verdade, porém, é que a máquina não servia para rigorosamente nada.
De qualquer maneira, o gigante de ferro causou ampla sensação. E de toda a parte vinham curiosos só para o contemplar. Tiravam o chapéu com gravidade respeitosa e olhavam para o mecanismo de olhos muito fixos e boca aberta. Enquanto Shelley, nitidamente satisfeito com o seu sucesso, saltitava entre uma nuvem e outra, agitando umas gloriosas asas imaginárias, para …

Desassossego

Since classical times, their appeal has been understood, and artists have had to accept that what they leave unfinished may be exposed to the public, and may even be more admired than their finished productions. Some may embrace this enthusiasm for the unfinished and produce works which encapsulate the effect, featuring blank spaces and unstarted areas that were never intended to be any different from their scrappy appearance.

Philip Hensher.

Queria acender o cachimbo

Sim, [o pope Ivan] era um bom sacerdote. A sua morte foi, porém atroz. Um dia tinha saído toda a gente, e o pope, que estava embriagado, ficara sozinho em casa, metido na cama. Deu-lhe vontade de fumar. Levantou-se e, cambaleando, aproximou-se da chaminé, onde havia uma boa fogueira. Queria acender o cachimbo, mas, como tinha bebido muita aguardente, não pôde manter o equilíbrio e caiu sobre o lume. Quando voltaram os seus, apenas lhe encontraram as pernas.
Causou muita pena o bom sacerdote; mas, como dele só restavam as pernas, nenhum médico do mundo o podia curar. 

Vladimir Korolenko, O sonho de Macar. Tradução de Benvinda Caires.

Um deles seria a Noite

Um joven escritor contou-me que viu cinco ou seis garotos brincarem à guerra num jardim público. Divididos em dois grupos, preparavam-se para o ataque. A noite ia descer, diziam eles. Mas no céu era meio-dia. Decidiram, então, que um deles seria a Noite. Transformado em elementar, o mais jovem e mais franzino foi, então, o Senhor dos Combates. "Ele" era a Hora, o Momento, o Inelutável. Ao que parece, chegava de muito longe com a calma de um ciclo, mas entorpecido pela tristeza e pela pompa crepusculares. À medida que se aproximava, os outros, os Homens, ficavam nervosos, inquietos… mas a criança, fazendo como lhe parecia, chegava cedo de mais. Estava adiantada a si própria: por comum acordo, as Tropas e os Chefes decidiram suprimir a Noite, que passou a ser soldado de um dos campos… Só a partir desta fórmula um teatro conseguiria encantar-me.

Jean Genet, No sentido da noite. Tradução de Aníbal Fernandes.

Parece que se poderia deslocar a terra

Gáguine abriu em frente de mim todas as suas telas. Nesses estudos havia muita vida e verdade, uma certa liberdade e largueza, mas nenhum estava terminado e, quanto ao desenho, pareceu-me um pouco descuidado e pouco justo. Disse-lhe a minha opinião com toda a franqueza.
- Oh! sim - concordou ele com um suspiro -, o senhor tem razão: tudo isto é muito mau e não está amadurecido. Mas que fazer? Não estudei como era preciso, e depois esta nossa maldita inércia dá cabo de tudo. Enquanto se sonha com o trabalho, paira-se como uma águia: parece que se poderia deslocar a terra; mas, logo que se chega à execução, sentimo-nos fracos e fatigados.

Ivan Turguenév, Ássia. Tradução de Benvinda Caires.

Tempo e dinheiro

Mais do que os outros, os romancistas ingleses cultivaram o romance da high life, e os franceses que, como Custine, quiseram escrever em especial romances de amor, tiveram primeiro o cuidado, e muito judiciosamente, de dotar os seus personagens de fortunas suficientemente grandes para pagarem sem dificuldade todas as suas fantasias; além disso, dispensaram-nos de qualquer profissão. Estes seres não têm outro estado senão cultivarem a ideia do belo na sua pessoa, satisfazerem as suas paixões, sentirem e pensarem. Possuem assim, ao seu dispor e em larga medida, tempo e dinheiro, sem os quais a fantasia, reduzida ao estado de divagação passageira, não pode de modo algum traduzir-se em acção.

Charles Baudelaire, O pintor da vida moderna. Tradução de Adolfo Casais Monteiro.

Oração para não pagar impostos

seiscentas vezes por dia, em jejum

Pai moço, que mijais ao Léu, panificado seja o vosso nome. Venha a nós o vosso ranho; seja a eito a vossa pontada, assim na berra como no breu. O cão nosso de cada tia nos dai hoje; perdulai-nos as nossas imensas assim como nós penduramos a quem nos tem estendido; e não vos deixeis latir em cada cão, mas lixai-nos num vale.
(…)

Júlio Henriques, Modas & Bordados d'Alice Corinde.

Próximo sábado, 7 de Maio, pelas 17h00, no Gato Vadio.

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O importante incêndio que desde anteontem alastra na zona centro não foi afinal oficialmente confirmado. Segundo o comandante das corporações de bombeiros que deveria encontrar-se no local, entrevistado em casa pela nossa reportagem, à hora de jantar, o referido fogo, com uma frente de dez a quinze quilómetros e que terá já destruído cento e cinquenta hectares de eucaliptais, não terá afinal ocorrido. Segundo palavras do Sr. Comandante Alves Sousa, «fomos portanto de facto alertados para o sinistro a que se refere, mas não o conseguimos comprovar por falta de meios técnicos, de modo que portanto regressamos à base». Pudemos de resto confirmar, junto do Instituto Nacional de Estatística, que há ainda, em todo o país, vastas zonas arborizadas devidamente aptas a arder nas melhores condições.

Júlio Henriques, Deus tem caspa.

Próximo sábado, 7 de Maio, pelas 17h00, no Gato Vadio.

Próximo sábado, 7 de Maio

Imagem de Luís Nobre, da dupla Lina&Nando.