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Mensagens

Exercícios de cordialidade.

Era uma vez uma inabalável lua de mel que não durou para sempre, entre um autor que escrevia mal e leitores que não sabiam disso. Tinha alguma importância que ele escrevesse mal se isso nunca se viesse a saber? Pois bem, um dia atiraram uma pedra contra essa placidez de candor. Aquela porção de público inocente abandonou-o; procurou outro autor. Mas onde encontrar hoje alguém que escreva mal, se escrever bem é a primeira coisa que o principiante faz e aprende-o em três ou quatro meses? É uma pena que se prive o autor de um público que não sabe que ele escreve mal. «Escrever bem» corresponde hoje ao que antes era a «caligrafia bonita». É tão vulgar que fugimos disso a sete pés, e se não lhe escapamos é porque o sono nos entorpeceu. O leitor comum que, nos nossos dias, encontre alguém que escreva mal, não o larga mais, porque não encontrará outro; em contrapartida, são incontáveis em toda a América os que escrevem bem. Mesmo em França, creio, já se está num novo «escrever bem», diferente...

Música de câmara

Il est mort le soleil  (Nicoletta), Vanda e Zita discutem, sons da televisão (noticiários, telenovelas, concursos, canções…), pássaros, muitos pássaros, elas fumam, o vento nas folhas da árvore, marteladas, tijolos e vidros a cair (a demolição do bairro), fungadelas, o telefone toca, as muletas do Paulo Nunes, crianças a  brincar, um pedacinho de uma peça de Webern, « quer alface e couve?  quer alface e couve? », Vanda tosse muito, o som áspero dos isqueiros, alguém varre, rapazes a falar em voz baixa, risos, fogo a crepitar, Vanda trauteia Bach, lamúrias, o russo raspa a mesa, a Vanda raspa as páginas amarelas, crianças a chorar, a canção da gata Grizabella ( the last twist of the knife ) , alguém despeja água, uma festa, elas riem-se, um apito, a campainha da bicicleta, tantas confissões, I’ve got the power , uma mota ao longe, Officium breve in memoriam Andreae Szervánsky , de Gyorgy Kurtág.

Um coração seco

A cliente, na frutaria, escolhe uma couve coração. Segura-a com uma mão e com a outra arranca, em dois ou três golpes rápidos, algumas folhas meio secas. A empregada: «A senhora não pode arrancar as folhas. Não leu o aviso?» Há um aviso colado à parede: «É proibido arrancar folhas.» O marido da cliente, um pouco acanhado e a meia-voz: «És sempre a mesma coisa. Já sabes que não podes fazer isso.» A cliente: «Estas folhas estão secas. Não vou levar para casa um coração seco.»

Les années Lumière

Ao ver alguns dos filmes feitos pelos Lumière , fico espantada com a sua extrema beleza. Como é que o cinema perdeu esse olhar limpo (e democrático) sobre as pessoas e as ruas? Essa alegria que se confunde com a própria vida?

Era o dia da festa, Maio de amores

As comemorações continuam no domingo .

Orientação emocional, estética e existencial

Numa agenda online dedicada a acontecimentos culturais no Porto, o anúncio da apresentação da antologia de poemas de A. Dasilva O., E a Poesia Dá à Luz uma Bússola Louca , é um exemplo de delírio induzido pela Inteligência Artificial. O livro é descrito como «um instrumento de orientação emocional, estética e existencial» . E o «evento», isto é, a apresentação da antologia, como «uma tarde dedicada à poesia, ao diálogo literário e à celebração da palavra escrita, num ambiente intimista e de proximidade entre autores e público». Na verdade, faz sentido: para a Inteligência Artificial todos os livros são de auto-ajuda e todos os encontros são intimistas.

Mais de vinte

Um folheto distribuído por uma igreja evangélica apresenta o «testemunho» de uma mulher chamada «Mónica» que «fez mais de 20 tentativas de suicídio». Se somos assim tão simplórios e fáceis de convencer, merecemos o inferno de todas as igrejas, de todos os deuses de vão de escada, de todos os intrujões, curandeiros e chefes da extrema-direita deste mundo e do outro.
«Nada está no seu lugar» – refrão das emigrações e, ao mesmo tempo, ponto de partida da reflexão filosófica. O espírito desperta em contacto com a desordem e a injustiça: o que está «no seu lugar», o que é natural, deixa-o indiferente, entorpece-o, ao passo que a frustração e a espoliação lhe convêm e animam-no. Um pensador enriquece-se com tudo o que lhe escapa, com tudo o que lhe é roubado: se vier a perder a pátria, que fortuna!   Exercícios de Admiração – Ensaios e Retratos, de Emil Cioran, Gallimard, 1986.

Acumuladores

A meio da conversa, uma amiga pergunta: «Qual é a diferença entre os acumuladores, que enchem a casa até ao tecto de coisas sem utilidade, sacos de supermercado, jornais, latas, sapatos e roupa velha que encontram no lixo, e os outros, os super-ricos, que acumulam dinheiro, casas, carros, naves espaciais? O tipo de patologia não é o mesmo?»

Antiteatro

O psicodrama usa a gramática do teatro para fins terapêuticos relacionados com a saúde mental, mas não é teatro. No teatro, representamos o papel de outros; no psicodrama, representamos o nosso próprio papel. No teatro, colocamos uma máscara; no psicodrama, retirámo-la. Nesse sentido, o psicodrama é uma espécie de antiteatro. No entanto, muito do teatro que se faz hoje é, digamos, autobiográfico. Há um número muito significativo de criações para o palco que recorre directamente a referências, acontecimentos, memórias e traumas pessoais dos artistas. Se o psicodrama não é teatro, o teatro parece ser o palco para muitos psicodramas. O teatro está a canibalizar o psicodrama.

Um poeta

Leitura em grupo de Bruscamente, no Verão Passado , de Tennessee Williams, no auditório de uma escola artística do Porto. Cena Um. A Sr.ª Venable descreve ao Médico que o filho, Sebastian, morto em circunstâncias trágicas no Verão do ano anterior, «era um poeta». Um poeta? Sim, «escrevia um poema por ano». Um leitor jovem, ao meu lado, desata a rir. E está certo.

cês

Para traduzir as cartas de Sandor Krasna  – caramba, este nome é uma bela criação de Chris Marker! –, ousei recorrer por duas vezes à delicadeza de Camilo Pessanha. A tradução também tem momentos de grande vaidade.

Um cesto de batatas

O Angelus , de  Jean-François Millet : um camponês e sua mulher, de mãos postas, cabeças baixas, rezam em um campo de trigo, diante de um cesto de batatas. Quando se passou o quadro de Millet pelo raio X, descobriu-se, sob o cesto de batatas, a mágoa do pintor: havia ali o ataúde de uma criancinha. Millet conta em suas memórias que, quando quis expor o seu quadro com a criança morta, um amigo aconselhou-o a mudar o motivo, por ser muito triste e difícil de vender. Mais que depressa Millet recobriu o pequeno ataúde com um cesto de batatas. E Dali, quando lhe contaram a história disse logo: "Eu sempre pressenti a morte de uma criança nesse quadro." Anne Ancelin Schutzenberger, Meus Antepassados . Tradução José Maria da Costa Vilar.

Dos jornais LV

No domingo, Edward Warchocki foi filmado a afugentar um grupo de javalis numa rua de Varsóvia.

Operação Fúria Divina

Na montra da Académica, um monte de livros de José Rodrigues dos Santos. Percorro os títulos: «Fúria divina», «A fórmula de Deus», «A mão do diabo», «O protocolo do caos», «A chave de Salomão», «O anjo branco». Parecem nomes de operações militares, saídos da cabeça do presidente dos Estados Unidos.

Apanha-bolas

Ida Lupino aparece nas História(s) do cinema , mas também devia haver um plano de Sally Forrest a jogar ténis no filme  Hard, Fast and beautiful . Em Wimbledon, quando já percebeu que está metida num colete de forças, com o rosto crispado e golpes de raquete agressivos.