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Mensagens

Oh, o amor intergeracional.

Falta de concentração

As personagens literárias parecem-se connosco, só que são construídas de um modo mais concentrado.  Enquanto nós somos aquela sopa de legumes que vem nas ementas dos restaurantes e os empregados apenas sabem que são feitas com legumes; as personagens literárias seguem um plano existencial definido (receita), têm características apuradas e distintas — são caldo verde, canja de galinha, sopa de beldroegas com queijo de cabra ou até, em caso de extrema necessidade, vichyssoise.

Espaço

O confinamento e «Abril», de Otar Iosseliani, provam várias coisas. A saber: bancos, cadeiras e cadeirões ocupam muito espaço. Os espelhos, as cristaleiras e os aparadores também. Mesas, secretárias e estantes exigem muito, muito espaço. Assim como os frigoríficos e os fogões. Os sofás são das coisas que ocupam mais espaço. Pequenos objectos, como pratos, copos, talheres, e pequenos electrodomésticos, como ventoinhas, aspiradores ou torradeiras, em conjunto, ocupam espaço a mais.
O amor, a música e as árvores não ocupam espaço, mas definham em espaços demasiado preenchidos.


Sarjetas Abertas.
Mais um título formidável — desta vez apanhei-o na saída da A28 para Leça da Palmeira, escrito num sinal de perigo.

Não serve para a literatura oficiosa que prefere coisas limpas, arrumadas, inócuas.

Talvez um filme de série B do século passado, nunca visto, perdido num armazém qualquer.

Banal e apressado, como é próprio de um filme menor, mas com uma sequência nocturna (muitoparada) que nos pica como um mosquito.

Todos no mesmo barco

«Estamos todos no mesmo barco», insistem o colunista de jornal e a vizinha na frutaria. Mas que barco é esse? Um transatlântico, um veleiro, um bote de borracha? E quem viaja nos camarotes de primeira? Quem segue na casa das máquinas e no porão? Quem vai cair à água?

Truques

- (...) Garanto-lhe, pode crer, que há pessoas para quem está escrito, desde o seu nascimento, que lhes deve acontecer toda a espécie de aventuras extraordinárias.
- Extraordinárias?! - exclamei com curiosidade, voltando a encher o meu copo.
- Vai ver; vou contar-lhe uma... (...)

Mikhail Lermontov, Um herói do nosso tempo. Tradução de Jaime Brasil.
(Infelizmente, não tenho a tradução da Nina Guerra e Filipe Guerra.)

Voltar ao trabalho

- Bem, tenho de voltar ao trabalho - disse o Fred. A prensa de madeira chama por mim. O que é que vais fazer?
- Acho que vou escrever - disse. - Trabalhar no meu livro um bocado.
- É um plano ambicioso - disse o Fred. - O livro é sobre o o clima, como disse o professor?
- Não, não é sobre o clima.
- Ainda bem - disse o Fred. - Não ia gostar de ler um livro sobre o clima.
- Já leste algum livro? - perguntei.
- Não - disse o Fred. - Nunca li, mas acho que não quero começar por ler um sobre nuvens.

Richard Brautigan, Em açúcar de melancia. Tradução de Sara Veiga.

Influenciadores do século XX

Abertura da época balnear em Nápoles.

Uma bicicleta para um

Escrevi uma reclamação às finanças sobre o IRS através do e-balcão. A resposta chegou tão depressa e foi tão elucidativa que resolvi continuar a conversa: expliquei o que me induziu em erro e agradeci a rapidez do serviço. As finanças repetiram a mensagem anterior — só nessa altura é que detectei os erros ortográficos e percebi que se tratava de um texto sintético.

Indiferente à textura da linguagem humana e à dialéctica, a inteligência artificial não conseguiu identificar o elogio e começou a plissar.

Máquina

Em «Paris qui dort», René Clair imaginou a história de um cientista louco que inventou uma máquina capaz de parar o mundo, congelando-o como num fotograma. Ao longo do filme, o mundo pára, pula e avança várias vezes, segundo as circunstâncias e os caprichos dos personagens.
Neste momento, há centenas de laboratórios em todo o mundo, cheios de cientistas loucos à procura de uma máquina de fazer vacinas. Falta, no entanto, o mais importante: um René Clair.


Lições da Finlândia

Pratico o distanciamento social há muito tempo por isso a pandemia pouco alterou as minhas rotinas. A única coisa que mudou é do foro matemático: estou há quarenta dias sem trabalhar, ganho menos de seiscentos euros por mês. Sinto-me uma cobaia num laboratório social para “estudo da introdução do rendimento básico incondicional”. Como se pode comprovar pela imagem em anexo, a  experiência está a correr bem.


Quase por acaso

Comecei ontem a ler uma antologia de contos italianos. Uma edição da Arcádia, de 1963, organizada por Antonio Fiorillo. São mais de vinte autores e cada um deles é introduzido por uma pequeníssima nota biográfica escrita pelo organizador. Algumas das notas são tão curiosas que dou por mim a divertir-me mais com as considerações de Fiorillo do que com alguns dos contos.
Esta nota, por exemplo:
«O “Libro dei 7 savi”, os “Conti di antichi cavalieri”, as “Cento novelle antiche” ou “Il Novelino” são os primeiros exemplos de prosa que se conhecem na história da literatura italiana. Ainda não é uma prosa adulta, madura; mas denota já uma graça e uma espontaneidade que poderiam servir de exemplo aos novelistas de agora.»
Ou esta:
«Gaspare Gozzi (1713-1786) encontra-se nesta selecção quase por acaso.»
Totalement, tendrement, tragiquement.

Baratas tontas

Nos últimos dias, o governo não se tem poupado a esforços para convencer as pessoas a saírem de casa e a fazerem compras. Apesar disso, as ruas e as lojas continuam quase vazias. Os portugueses estão a resistir ao desconfinamento. «Por causa do medo», dizem os jornais.
«O Anjo Exterminador» desceu decididamente sobre nós em todo o seu negro esplendor. Há uns três meses, o filme de Buñuel seria ainda uma obra delirante e subversiva, um exemplo perfeito da regra surrealista de «abrir todas as portas ao irracional». Hoje, o frágil muro que separa o real do surreal caiu definitivamente. O mapa das correntes artísticas está de pernas para o ar. É fácil imaginar os corredores das universidades de artes e letras cheios de baratas tontas, a correrem desatinadas, para a frente e para trás.

Flannery O’Connor e as galinhas

Take one
Quando tinha seis anos tive uma galinha que andava para trás e apareceu na Pathé News. Eu aparecia junto com a galinha. Estava ali apenas para ajudar a galinha mas foi o ponto alto da minha vida. Desde então tem sido tudo anti-clímax.

Take two
Quando tinha cinco anos, tive uma experiência que me marcou para toda a vida. A Pathé News enviou um fotógrafo de Nova Iorque a Savannah para tirar uma fotografia a uma das minhas galinhas. Essa galinha, uma Cochin Buff Bantam, distinguia-se porque conseguia andar para a frente e para trás. A sua fama espalhou-se pela imprensa, quando chamou a atenção da Pathé News suponho que já não havia mais nenhum sítio para onde ela pudesse ir — nem para a frente nem para trás. Pouco depois morreu, como agora parece apropriado.
A partir desse dia com o homem da Pathé, comecei a colecionar galinhas. O que tinha sido apenas um interesse moderado tornou-se uma paixão, uma demanda. Preferia as que tinham um olho verde e outro laranja, ou com pescoços dem…

Uma geração de frangos sem asas

As cartas mais divertidas são as que Flannery O’Connor escreveu à desconhecida “A”.*
Logo na primeira carta (20 de julho de 1955), terceiro parágrafo:

Para além de idiota, a crítica do New Yorker não estava assinada. É um daqueles casos em que é fácil ver que o sentido moral foi eliminado de certas faixas da população, do mesmo modo que eliminaram as asas de alguns frangos para produzir mais carne branca. É uma geração de frangos sem asas — era a isto, suponho, que Nietzsche se referia quando afirmou que Deus estava morto.



———————-
* Não assim tão desconhecida. Chama-se Hazel Elizabeth "Betty" Hester. Felizmente ainda ninguém fez um filme sobre a sua vida.

Mamute

Ao fim da tarde, após nove horas ou mais de «teletrabalho», saio e dou uma volta pelo bairro. Desço a Lapa, contorno a Praça da República, sigo pela Rua do Almada, viro à direita em Ricardo Jorge e regresso por Mártires da Liberdade, e Antero de Quental.
Lembro-me de ter lido que Murnau meteu 10 kg de chumbo nos sapatos de George O’Brien para obter aquela imagem meio simiesca em «Aurora». Como compreendo agora o esforço do actor! Nestes tempos pesados, maciços, desesperados, ao cabo de quarenta minutos de caminhada, não sei se sou eu que avanço se é um mamute em meu lugar.

Conheces o conto “Os Mortos” de Joyce?

É uma pena “O Hábito de Ser: Cartas de Flannery O’Connor” não estar traduzido para português. Ela também é muito boa a escrever cartas.

Mais um excerto, desta vez de uma carta escrita a Ben Griffith a 6 de agosto de 1955:

(...) Quando li o teu conto pensei logo em dois outros contos que acho que deves ler antes de começares a reescrever. Um é “O Lamento” de Tchékhov e o outro “Guerra” de Luigi Pirandello. (...)

O teu conto, como esses dois, é essencialmente a apresentação de uma situação patética e quando apresentas uma situação patética tens de a deixar falar por si mesma. Quero dizer que deves apresentá-la e largá-la. Tens de deixar as coisas na história tomar a palavra. Como autor, não deves forçar a situação e parece-me que no teu conto tendes a fazer isso de vez em quando. (...)

Deixa o velho seguir o seu caminho sem os teus comentários e deixa as coisas que ele vê criar os efeitos patéticos. Conheces o conto “Os Mortos” de Joyce? Repara como ele faz a neve funcionar  na história…

Telefone

O meu telefone morreu durante a noite. Ontem de manhã, quando lhe peguei, estava frio como vidro. Tinha 10 anos. Uma eternidade para o tempo médio de vida de um telefone. Morreu assim, sem considerações, como lhe era necessário.
Encomendei, a custo, um novo. 85 euros. 83,39 euros, para ser exacto. O meu irmão não acredita que um telefone possa custar apenas 85 euros. Pergunta-me se tenho a certeza de não ter encomendado apenas uma capa para o telefone em vez do aparelho.
Também na vida secreta dos telefones, o mundo divide-se entre ricos, pobres e remediados. Aos pobres resta o trabalho simples, eficaz, sem brilho. Até ao último dia. Mas o que se passará no escuro, por trás do ecrã? Que sonho, que grãozinho de magnificência ou de revolta ocultam dentro de si?

Uma escritora intensivista

O acervo de Flannery O’Connor tem quatro manuscritos de “The geranium”, um manuscrito de “An exile in the east”, quatro manuscritos de “Getting home” (erradamente classificados como manuscritos de “Judgment day”) e dezassete manuscritos e fragmentos de “Judgment day”.

O que Flannery O’Connor faz entre “The geranium” (1946) e “Judgment day” (1964) é mais ou menos o mesmo que Joaquim Manuel Magalhães fez em “Um toldo vermelho”.

Flannery executa essa razia sem o dramatismo dos poetas. Apenas avança porque é necessário, urgente e não pode ser de outro modo. Avança com a suavidade de quem desbrava um caminho de silvas. Mas não são as silvas que deita fora.

Trânsito

Ligo o rádio. Enquanto tomo café e aguardo pelas notícias, o pivô transmite a informação de trânsito. Há mais de dois meses que as estradas estão praticamente vazias, sem filas, sem caos, sem nada. Hoje, pela primeira vez, deu-se um despiste numa estrada de Lisboa. Pareceu-me adivinhar uma ligeiríssima expressão de alívio na voz do jornalista.

Uma boa maionese é difícil de encontrar

Flannery O’ Connor era capaz de gostar do título deste artigo académico.
Só do título (com a sua mania para truncar palavras, talvez até dissesse: A good mernaise is hard to find) porque a maionese é pretexto para escrever também sobre a relação entre mãe e filha e disso ninguém gosta — que o digam as personagens dos contos.

Bishop devia ter ido a Milledgeville. Levava um frasco de maionese caseira, faziam um churrasco e ia ser uma grande borga — com pavões incluídos na banda sonora.

Ah, é poeta!

A polícia bate na porta: a poeta Ingeborg Bachmann, um pouco sonolenta, levanta e se prepara para atender ao chamado. Estamos em 1954 e, ao contrário do que se poderia imaginar, não se trata de uma batida da polícia secreta nos tantos países totalitários da época. Uma vizinha de Bachmann denunciou às autoridades o ruído causado pela poeta durante a madrugada: o barulho ritmado das teclas da máquina de escrever ecoa na noite e interrompe o sono dos justos. A poeta diz aos policiais que as ideias só vêm à noite e que o barulho da praça durante o dia atrapalha seu trabalho. “Mas em que diabos a signorina trabalha à noite?”, perguntam os policiais. Ela entra no apartamento e volta com uma folha datilografada, um poema em alemão que testemunha seu ofício. “Ah, é poeta!”, respondem os policiais. Tudo se resolve, mas Bachmann ainda escuta os policiais comentando quando se afastam: “Poemas tão curtos para tanto barulho!”. (...)

Kelvin Falcão Klein escreve sobre Ingeborg Bachmann aqui.

Vida e obra

Leio no Público um artigo de Luís Miguel Queirós sobre a edição de poesia em Portugal. O texto termina com um comentário importante do Changuito: «[o leitor e livreiro] confessa que acha que “o panorama da poesia portuguesa anda muito fraquinho”. E os editores não são isentos de culpas. “Vejo muitos livros que me fazem pensar: então não houve ninguém que dissesse a este autor ‘vai lá trabalhar mais uns anos nisto, que não está pronto’?”»
Ocorrem-me as palavras de Brigge, o personagem de Rilke, que a páginas tantas diz: «Ah, mas que significam os versos, quando os escrevemos cedo! Devia-se esperar e acumular sentido e doçura durante toda a vida e se possível durante uma longa vida, e então, só no fim, talvez se pudessem escrever dez versos que fossem bons. Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se bastante cedo), - são experiências.»
Rilke publicou o seu primeiro livro de poesia antes dos vinte anos.