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Mensagens

Influenciadores do século XX

Modern love

Hoje, a caminho da estação do Marquês, vi um tipo que podia ser o irmão gémeo de Denis Lavant. Seguia do outro lado da rua, a fumar. Fiquei à espera que desatasse a correr e a esmurrar o coração, e que o David Bowie descesse das nuvens. Não aconteceu.

Influenciadores do século XX

Na incerteza

Conta Antonio Candido, que em seu encontro com João Guimarães Rosa à beira-mar, quando passeavam em Porto Fino-Ligúria, tentou introduzir o tema da política, declarando-se socialista. Rosa ponderou a questão, emitiu opinião, mas ao fim e ao cabo disse logo o que lhe importava: “a única questão fundamental do homem”, declarou, “é saber se Deus existe ou não”. Na incerteza, escreveu histórias.

Alessandra Parente.

Hora certa

Na fila do supermercado, reparo num homem que tem um relógio tatuado no pulso. Creio que não me engano: os ponteiros marcam as doze horas certas. Meio-dia ou meia-noite? Uma hora marcada para sempre na pele. A hora de um encontro marcado ou apenas desejado? Com quê? Com quem?

Não te queixes

No metro, duas mulheres conversam sobre coisas mais ou menos triviais. A certa altura, a minha atenção emaranha-se no fio da conversa. Comentam os pormenores de uma qualquer aventura amorosa entre dois personagens que ambas conhecem. Fico interessado:
— Eu avisei-o: se gostas dela vai à tua vida.
— Pois, fez muito bem…
— Mas depois não te queixes, disse-lhe eu. Podes voltar para casa, mas não te queixes.
Mantive os olhos fixos no livro para parecer distraído. A conversa avançou com mais um ou outro pormenor sobre o caso. Percebi que falavam de um gato doméstico já perto da minha paragem.

Final aberto

A confeitaria ao lado de minha casa onde compro pão todas as manhãs, fechou. É uma daquelas confeitarias que estão abertas aos domingos e feriados, incluindo os dias de Natal e Ano Novo. É a primeira vez, em dez anos, que vejo aquela porta fechada à luz do dia. Não há um aviso, uma explicação. O que terá acontecido? Parece um filme com final aberto. Talvez um Kiarostami.

Influenciadores do século XX

Outro tempo

Os dias estão mais curtos e a temperatura desceu. Mas ainda há pequenos insectos de outro tempo dentro de casa: melgas, mosquitos, borboletas minúsculas. Parecem anestesiados pelo frio. Colados às paredes, muito lentos, à espera de um qualquer milagre que nunca virá. São fáceis de apanhar.

Grande herbário de sombras

Os passeios e as ruas andam cobertos de folhas caídas e encharcadas. Quando os varredores vêm e recolhem as que o vento ainda não arrastou para longe, ficam as suas cópias: imagens impressas no chão através de uma delicada tinta castanha, que persiste bem visível durante algum tempo. São os fantasmas do Outono passado. O grande herbário de sombras das cidades.

Aura

De vez em quando, sou atacado por um tipo de enxaqueca menos comum chamada «enxaqueca com aura». No meu caso, o problema manifesta-se através de alterações da visão. Durante o tempo que dura a enxaqueca — nunca mais de uma hora —, tudo à minha volta parece terrivelmente brilhante, com as cores muito vívidas e nítidas. A um ponto que se torna insuportável. Ninguém consegue ver o mundo com tanta nitidez. Quando a aura se revela, convém tomar rapidamente uma aspirina.

Chuva

Uma semana inteira de chuva miudinha, pesada e muda. Os dias parecem não ter fim. As nuvens cobrem as casas como mãos enormes, lentas, ameaçadoras. A cidade parece mergulhada no fundo de um abismo, com a vida, a verdadeira vida, a correr muito acima.

Tem outro nome

A influência de Ozu nos filmes de Pedro Costa não é só cinematográfica. Há o plano da chuva a cair nas telhas (Griffith remix). Os objectos vulgares filmados com a gravidade do ouro, incenso e mirra. As relações entre pais e filhos, reais ou inventadas. O modo como os corpos se movimentam nos quartos. Todas essas disposições unem os dois cineastas desde Vanda.

Com o tempo, porém, apercebo-me que a ligação a Ozu é mais íntima, é antes do que se vê (também no cinema, nem tudo passa pelos olhos). Está relacionada, talvez, com o hábito japonês de descalçar os sapatos à porta? Não é só Vitalina descendo as escadas do avião com os pés nus, não é só neste filme. À semelhança das personagens discretas de Ozu, Pedro Costa entra sempre descalço na casa de cada um. Isso não se aprende numa escola de cinema, nem sequer no confronto com a matéria cinematográfica. Tem outro nome.

Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro.

A arquitectura de “Vitalina Varela” é sem arquitectos; oscila entra Jorge Luis Borges e brutalismo orgânico (ver edifício da igreja).

Tudo se esclarecia — vale e serra

Chove muito, a água corre nas ruas como um riacho. Mas não está frio. Nem há vento. As pessoas estão mais caladas e mais bonitas — têm sono. As mulheres trazem molhos de crisântemos nos braços para o dia dos mortos. Sem saber, a cidade prepara-se para receber Vitalina Varela.

uma arte de vagabundos superiores

Que respeito pelos objectos. Cada um tem beleza própria porque é «único», possui o insubstituível. Mas não se trata de arte social, a arte de Giacometti, só por ele estabelecer laços sociais entre objectos – o homem e as suas secreções –, será antes uma arte de vagabundos superiores, a tal ponto puros que apenas o reconhecimento da solidão de cada ser e de cada objecto os uniria. «Estou só, parece dizer-nos o objecto, cativo de uma necessidade contra a qual nada podeis. Se não fosse o que sou, seria indestrutível. Sendo o que sou, e sem reservas, a minha solidão reconhece a vossa.»

Jean Genet, "O Estúdio de Alberto Giacometti", tradução de Paulo Costa Domingos, Assírio & Alvim, março de 1988.



não fluida, antes pelo contrário, muito dura

Se pronunciei atrás «… aos mortos» foi afinal para que essa multidão anónima veja agora tudo quanto não pôde ver em vida, agarrada que estava aos ossos. Pois é preciso uma arte – não fluida, antes pelo contrário, muito dura – dotada do estranho poder de penetrar os domínios da morte, capaz de se infiltrar pelas paredes porosas do reino das sombras. A injustiça – e a nossa dor – seriam demasiado grandes se um único nessa multidão fosse impedido do contacto com alguém entre nós, e bem pobre será nosso triunfo se apenas nos conduz a uma glória futura. A obra de Giacometti transmite ao povo dos mortos o conhecimento da solidão de todos os seres e de todas as coisas, solidão, nossa mais certa glória.

(…)

Solidão, como eu a entendo, não designa estatuto de miséria mas secreta soberania, nem profunda incomunicabilidade mas conhecimento mais ou menos obscuro de uma singularidade intocável.

Jean Genet, "O Estúdio de Alberto Giacometti", tradução de Paulo Costa Domingos, Assírio & …

Porto

Recomeçou a chover. As ruas esvaziaram-se de turistas. Desço a Lapa até à Baixa sem me cruzar com praticamente ninguém. De repente, a cidade retoma o tom cinzento, triste, belo. A cidade que, em dias de sol e de turismo, já só existe nas traseiras ou na nossa memória.