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Mensagens

A natureza humana

Já afixaram os cartazes de mais uma edição do BioBlitz. Descobrir a natureza do parque é uma ideia gira, mas este ano Serralves podia ter feito isto de forma mais arrojada: mantinha a vertente científica e empurrava a observação para o campo da antropologia.

— Por exemplo, convidava aquela personagem do Herman José com chapéu de explorador que se escondia atrás das palmeiras e, em vez da fauna e flora do parque, oferecia aos participantes uma perspectiva do conselho de administração de Serralves. Parece que tem espécies raros, delicados e ainda muito desconhecidos.
Mensagens recentes

Orelha

À terceira, percebo que a orelha cortada de Van Gogh é a mesma que aparece no Amarcord, caída do céu, ninguém sabe como nem porquê.

Desenrolar uma linha

A maior parte das vezes não respeito as intenções. Ontem saí de casa a pensar n’ O sino de Iris Murdoch mas, ao passar pelas novidades da biblioteca, não resisti ao Henry James e a um livro que se chama “Pequenos fogos em todo o lado” de Celeste Ng.

A capa reproduz uma fotografia aérea de uma zona de casas, árvores, ruas secundárias, grandes avenidas, urbanizada com esquadro e muitas regras e isso agradou-me, assim como os textos comerciais de abertura sobre Shaker Heights (era uma cidade construída para carros e para pessoas que tinham carros) e o apelido Ng da autora (lê-se “ing”).

Deixei a Maisie em lugar visível para me provocar e avancei para os pequenos fogos. Logo desde o início, pareceu-me tudo muito previsível e regrado, isto é, apesar de Mia ou até por causa de Mia (a personagem que traz os desastres) o romance sofre um bocado do mal que pretende examinar. Agora estou a meio e percebo que o problema maior é que o livro, mesmo antes de ser adaptado à televisão, já utiliza a l…

Os vícios dos ricos

Manoel de Oliveira dizia muitas vezes que também os ricos têm alma. Lembro-me disso, não porque duvide do fundamento da existência, mas para equilibrar um pensamento menos polido de que me apercebo sempre que ando na linha 202: os ricos precisam de alguém que lhes limpe o cu.

A menos que fosse para insultar

Nunca fundei, lancei ou segui um movimento.
Fui surrealista, é um facto,
mas acho que devia sê-lo de facto,
e era-o de facto mas não quando lançava ou assinava manifestos a menos que fosse para insultar
um papa,
um dalai-lama, um buda,
um médico, um erudito, um padre,
um chui,
um poeta,
um escritor,
um homem,
um pedagogo,
um revolucionário,
um anarquista,
um cenobita,
um eremita,
um reitor,
um iogui,
um ocultista.

Antonin Artaud, Para acabar de vez com o juízo de Deus e outros textos finais (1946-1948). Tradução de Pedro Eiras.

Lugar do Facho, Largo dos Pescadores.

Avançamos por ruas estreitas de paralelo no meio de campos — de um lado um monte de pneus, do outro florzinhas amarelas. Vamos de Lavra para Vila Chã em segunda, às vezes o carro quase não passa. Não há nada de bonito em redor: moradias antigas de tinta escura e gasta, uma casa desenhada por arquitecto perdida, o mar muito perto, o cheiro a bosta. Tudo em desarmonia. Drogaria do Casal, café Paulinha, pichelaria Ismael. Ultrapassamos um tractor. Paramos junto à lota para fumar um cigarro. Há por ali uns homens que se vão embora passado um bocado. Ficamos sozinhos com dois gatos e a santa de manto azul e flores frescas dentro de uma caixa de vidro. Não percebo porque é que gosto cada vez mais deste tipo de paisagens. Deve ser o envelhecimento.

120 dias que nunca acabam

Não sei bem o que escrever sobre a versão de Os 120 dias de Sodoma, de Milo Rau, mas preciso de o fazer. Preciso de parar o mundo por um instante para conseguir pensar melhor. Que coisa foi aquela que vi no teatro? O que aconteceu naquele palco? Que verdade terrível aqueles actores lançaram-me à cara com uma violência difícil de suportar? Como é que mexeram com os dedos pela minha parte de dentro? Como torceram a minha carne? A versão de Pasolini, tal como se diz a certa altura, é composta por figuras de luz. É cinema. No teatro, porém, os actores estão vivos, têm cheiro, transpiram e movem-se à nossa frente. A ficção veste pele humana.

Jules Janin escreveu, em 1834, na Revue de Paris: «Não se iludam, o Marquês de Sade está por toda a parte, vive em todas as bibliotecas, numa prateleira misteriosa e tão oculta que sempre se descobre.» Se tivesse de resumir tudo numa frase, talvez escolhesse esta de Jules Janin. Quanto mais escondemos Sade nas prateleiras do fundo, mais ele se torna vi…

Às vezes, por mero acaso,

estabelecemos relações entre duas coisas que não têm nada ou apenas pouco a ver uma com a outra. A fotografia de Martin Parr misturou-se com a leitura de “A doce pomba morreu” sem eu dar conta e, mesmo não acreditando no diálogo entre os dois, comecei a ver as antiguidades de Humphrey, o chiffon e outros tecidos vaporosos de Leonora, os casacos de tweed de James, as paredes forradas a papel, com as cores saturadas de Parr.

(A palavra javardice aplica-se aqui na perfeição, mas claro que é preferível dizer “contaminação”.)

De qualquer das formas, para aliviar a intensidade das cores, hoje de manhã resolvi comprar frésias e camélias e dispô-las numa jarra antiga. Sigo para o “Quarteto no outono”. Por este andar vou acabar a fazer bolos às camadas.

Ah look at all the ordinary people

Escolhi esta imagem inspirada numa leitura apressada do texto do António Guerreiro. Achei que (para além dos chapéus de Martin Parr ficarem bem perto aos sapatos vermelhos de Mark Power), de alguma forma, a fotografia de Parr representava a transformação dos pobres em classe média e também para mais tarde me lembrar de seguir um raciocínio que começa aqui e sabe-se lá onde vai parar. Mas já percebi que me meti numa alhada.
Martin Parr. Kentucky Derby. USA. 2015. © Martin Parr | Magnum Photos

Ver é o mais difícil

É uma questão de cozinha. O bom acompanhamento aprofunda e realça o sabor do detalhe. E o mau acompanhamento abafa-o: não nos permite apreciar a materialidade de uma situação, a particularidade deste ou daquele detalhe da realidade. Não nos permite saborear o mundo desde uma perspectiva singular, a perspectiva de alguém. O esquema teórico substitui o detalhe em vez de o intensificar. E então todos os detalhes sabem igual. Reconhecemos assim um mau autor.
Amador Fernández-Savater.

Isto é como o Ticiano, que depois de pintar ia lá e esborratava com os dedos. Eu preciso de estragar um bocadinho para depois ver.
Rita Azevedo Gomes.

Disrup·ti·vo 

É o ataque mais constante do nosso tempo mas, porque a perda que provoca é uma perda de possibilidades e não de objectos, deixa a maior das pessoas indiferente. O ataque à linguagem não é uma acção concertada, nem sequer é uno, são diversos assaltos e têm objectivos diferentes; quando se juntam, resultam numa força destruidora colossal.

Já estamos para lá dos eufemismos, essa suavidade falsa que tomou conta da linguagem cortando as arestas dos nossos pensamentos e gestos. Os trabalhadores transformados em colaboradores e de uma forma geral a economia embrulhada em gaze para melhor nos escapar. Para além dessas palavras tão difundidas, tão gastas que já não dizem nada, é só um bocejo. "Zona de conforto" para aqui, "zona de conforto" para acolá, mas que raio é que isso quer dizer? Porque é que repetem esta ladainha? Lembram-se do incêndio do Funchal e dos que se seguiram no continente? Foram todos “dantescos” — toda gente o disse e repetiu até à exaustão. Até que &qu…

Se o Marquês de Sade fosse jardineiro

Mas as flores que perfumam o ar de forma mais deliciosa, não como as outras quando passamos junto delas mas quando as calcamos e esmagamos, são três: a pimpinela, o tomilho-serpão e a hortelã. Devemos, pois, cultivar grandes canteiros destas flores, para as gozardes enquanto passeamos ou as calcamos.

Francis Bacon, Dos jardins, 1625. Tradução de João Almeida e Maria Ramos.

Caprichos e galopes

Apesar de separadas apenas por um espelho, dificilmente consigo aproximar l’affaire francesa — tão cosmopolita e misteriosa, quase sempre singular — dos afazeres rotineiros que vão enchendo a nossa vidinha.

Nível avançado

Everly estava no chão, a ler e a ver televisão ao mesmo tempo, uma habilidade que andava a desenvolver. Willy dizia que era possível fazer as duas coisas em simultâneo desde que decidíssemos qual delas era o ritmo e qual a melodia. O nosso espírito decidiria como organizar e absorver duas actividades diferentes, desde que a uma delas chamássemos maior e à outra menor. Ele ouvia música e lia a PopularMechanics, e dizia que conseguia cantar e escrever uma carta ao mesmo tempo, fazer somas e subtrações enquanto fazia pão de milho. Dizia que, se Everly praticasse, poderia chegar a um ponto em que o espírito dela conseguia absorver duas melodias ou dois ritmos — coisas de igual valor — sem perder nada de nenhuma delas. Mas que esse era um nível avançado.

Telex de Cuba, de Rachel Kushner, tradução de Jorge Pereirinha Pires, Relógio d’ Água, páginas 302 e 303

Mal-estar

Eugène Ionesco queixa-se várias vezes, em A Busca Intermitente, da sua obstipação crónica e das constantes crises hemorroidárias, que quase o impedem de escrever.

Vassili Grossman, por seu lado, dedica várias páginas, em Bem Hajam!, aos terríveis desarranjos intestinais que experimentou em diferentes ocasiões sociais, na Arménia, e que o conduziram ao limiar do desespero. Durante um desses episódios, chega a considerar a hipótese, logo afastada, de estourar os miolos para escapar à vergonhosa catástrofe: «Se tivesse comigo um revólver… Mas não, por certo que não me daria um tiro na cabeça. Teria sofrido uma vergonha pungente, inédita, tornar-me-ia uma lenda obscena, um herói do folclore grosseiro, mas não me mataria a tiro.»

A natureza está sempre a pregar partidas muitíssimo misteriosas à literatura. Que estranhas e secretas ligações há entre a escrita e os intestinos? Pudesse a literatura livrar-se das desordens e angústias do corpo, e o que restaria dela?

Sapatos vermelhos:

Ponto 1.
Reconheço, tenho um grande interesse por sapatos. Pelo objecto (desenho, materiais, classificação, desgaste), mas principalmente pelos conceitos que se podem associar aos sapatos, que aliás estou sempre a associar (deve haver uma sociedade qualquer — inglesa, sem dúvida — sobre este tipo de relações intelectuais com sapatos).

Ponto 2.
(en passant) O ponto anterior explica porque fiquei tão contente quando descobri a faca de papel#7 sobre sapatos vermelhos (entre outras considerações). Obrigada, Alexandra. Bravo!


Serviço ocasional

Ainda não eram oito horas. Um par de sapatos verdes, de camurça, estava pousado no chão junto à paragem do autocarro. Sapatos de mulher, com pala, usados mas em bom estado. Parece um sinal de Rivette. Espero, com grande entusiasmo, os próximos lances.

Voodoo Macbeth

When we [Orson Welles and John Houseman] did the Voodoo Macbeth, it was very successful, and we got very nice reviews except from a few die-hard Republican papers. Percy Hammond wrote a perfectly awful review saying this was a disgrace that money was being spent on these people who couldn’t even speak English and didn’t know how to do anything. It was a dreadful review but purely a political review.

We had in the cast of
Macbeth about twelve voodoo drummers and one magic man, a medicine man who used to have convulsions on the stage every night. They decided that this was a very evil act by Mr. Hammond, and they came to Orson and me and showed the review. They say, “This is bad man.” And we said, “Yeah, a helluva bad man. Sure, he’s a bad man.”

The next day when Orson and I came to the theatre, the theatre manager said, “I don’t know how to tell you this, but there were some very strange goings-on last night. After the show they stayed in the theatre, and there was drumming and chanting …

O negócio das flores

Só vou ver os filmes de Clint Eastwood ao cinema quando ele aparece. Gosto de observar de perto o seu rosto cada vez mais velho, parece aquelas rochas que o Ford filmava no deserto — um misto de desgaste e consolidação. “Correio de droga” (a tradução literal “mula” é melhor) tem ainda outros benefícios: flores, cantorias no carro, inconstância moral, ritmo muito sincopado (deve ser influência da música) e uma cena final extraordinária quando Earl Stone percebe finalmente o negócio das flores.


Morte

Uma das palavras mais pesquisadas do dia do priberam é peido-mestre. Substantivo e adjectivo unidos por hífen — espécie de palavra gémea que vive nas costas do último suspiro. Em si, isto não é relevante; o que acho estranho é — em tantos livros que já li, escritos em português ou traduzidos — nunca a ter encontrado. Enfim, perder a oportunidade de usar um termo tão tronante como um Deus grego parece-me uma grande falha da literatura contemporânea.

No entanto, ainda com as imagens do último filme de Eastwood na cabeça, consigo ver Earl Stone (caramba, que nome porreiro e tão certo) de boné e óculos escuros no carro: a guiar com as duas mãos no volante, a olhar em frente, a murmurar qualquer coisa que não se percebe, a terminar a frase com a palavra “peido-mestre”(the last desperate fart).

E foi assim que comecei a escrever

O trabalho de Richter relaciona-se bem com o meu trabalho literário. Faz-me lembrar como comecei a escrever: sempre de costas viradas para o público. Comecei a escrever quando vi Miles Davis a actuar em Barcelona. Durante os anos de Franco, Davis tocava de costas. Pensei que seria maravilhoso escrever assim, de costas para o leitor — porque tinha medo do leitor. E foi assim que comecei a escrever. Enrique Vila-Matas

Um abismo

FÜRST: Não se pode chegar junto dele [do Governador]. Vive em outro mundo. Ignora-nos. Para ele somos como formigas. Tal como nós matamos uma formiga com o pé, assim ele pode matar um homem do nosso povo.
M. SENTADO (meditativo): Sabe o que penso, senhor Fürst?
FÜRST: Diga.
M. SENTADO: Que é como se não fosse um homem.
FÜRST: Claro.
M. SENTADO: Como se fosse... uma espécie de aranha.
FÜRST: Isso mesmo.
M. SENTADO: E que se pode matar como a uma aranha. Sem que tenhamos remorsos.
FÜRST: Tal e qual. Como ele nos mata a nós.
M. SENTADO: É bom saber isso.
FÜRST: Porquê?
M. SENTADO: Para o caso de chegar a ocasião. Agora que sei isto, penso que não vacilaria. Que lhe estouraria a cabeça e iria beber um copo de vinho e conversar com os amigos em alguma taberna. Não me tremeria o pulso. Talvez sentisse só um pouco de nojo. E o senhor? Também o mataria?
FÜRST: Eu?
M. SENTADO (insistente): Se ele estivesse na sua frente e o senhor tivesse uma arma... matava-o?
FÜRST (por fim): Não. A minha tar…

Banheiras Vasconcelos e o Império dos sofás

Desconfio que o pessoal que mora ali na Marechal não vai gostar muito desta instalação da Joana Vasconcelos. A artéria mais fina da cidade transformada em rua da estrada? Só falta um sofá (XXL, vermelhão, feito de caricas da super bock) na Praça do Império para fazer pendant.

Ah, se eu fosse o Álvaro Domingues (e às vezes sou), colava aqui estes versos (da arenga do Velho do Restelo, a estrofe 96 do Canto IV d’ Os Lusíadas):

— "Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!

A fotografia é de Lucília Monteiro, para a revista Visão.