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Mensagens

13 janeiro — Domingo de manhã. Um frio de rachar. Alguns transeuntes com ar destroçado ficam a olhar para mim — talvez me tomem por louco — a cantar a plenos pulmões canções húngaras. Este frio lembra-me os invernos da minha infância — (menos a neve com a qual este país não foi agraciado, infelizmente!), põe-me bem disposto. Reparei que estou quase sempre alegre quando todos os outros estão infelizes. Emil Cioran, Cadernos 1957-1972.

Práticas antigas

Uma das coisas que aprendi com a história é que aquela cena de queimar soutiens não é um exagero mas uma necessidade. Quando a pomos em prática percebemos que muitas vezes só assim conseguimos ser ouvidos. É um último recurso que salva o direito de expressão. Hoje queimei soutiens numa reunião zoom. Agora vou voltar a Cioran.

Influenciadores do século XX

 

O tempo dos Smerdiakoves

Continuo a pensar n’ Os Irmãos Karamázov . O livro de Dostoiévski deixa várias inquietações que não consigo ultrapassar.  Logo no início, o narrador explica que a personagem principal do livro é Aleksei. Paradoxalmente esta elucidação cria uma dúvida: porque é que ele tem de o dizer, não devia ser evidente ao longo da leitura do romance?  Se o narrador toma essa precaução é porque teme que Ivan Fiódorovitch se transforme na personagem mais importante. O episódio do Grande Inquisidor (onde Ivan cria um espaço autónomo de narração dentro do livro), as ideias e gestos radicais, o desvario mental e as febres são provas inequívocas. Além disso, Ivan é uma personagem compósita: tem o diabo como emanação (as febres e alucinações) e Smerdiakov como duplo ou, melhor dizendo, excrescência.  E esta é a inquietação mais grave. Esse tal Smerdiakov — criatura repelente em extremo — mostra-nos como os pensamentos podem apodrecer. A sua maneira de ser rancorosa, a forma rebuscada de se exprimir, as su

Avante, Michael Kohlhaas!

Trabalho numa pequena agência de comunicação que, entre outras coisas, vende aos clientes um programa de responsabilidade social. Para além da discriminação que praticou na aplicação dos programas de lay off e retoma progressiva de actividade*, essa empresa não pagou o subsídio de Natal porque não tem dinheiro mas (descobri hoje no site da segurança social directa) pagou a TSU correspondente à segurança social porque quer continuar a receber ajudas do Estado.  Cada trabalhador tem de se transformar num síndico de si mesmo (grego súndikos , - os , - on , o que ajuda num tribunal) e avançar para o futuro como um cavalo. * Durante o estado de excepção que vigorou em 2020 e se prolonga em 2021, a lei laboral recuou para território inóspito deixando aos empresários a responsabilidade ética dos seus actos — ai de nós!

Alquimia

Há muito que o dono da casa, que o álcool não cansava, lutava no seu pequeno pavilhão de caça. Andava por ali com estranhos tubinhos de vidro, pequenas chamas, aparelhos. Corria o boato na região de que o conde queria fabricar ouro. De facto, parecia que ele se ocupava com pesquisas de alquimia disparatada. Se não conseguia fabricar ouro, sabia no entanto ganhá-lo no jogo da roleta. Deixava entender muitas vezes que tinha herdado um "sistema" seguro de um jogador misterioso que havia falecido há muito tempo. Joseph Roth, A marcha de Radetzky . Tradução de Maria Adélia Silva Melo.

Isto é um elogio

A mulher que fugiu é um bocado diferente dos outros filmes que vi de Hong Sang-soo: parece música ambiente, ou melhor musique d'ameublement,  conforme Satie a definiu .  Paradoxalmente, funciona quando estamos em silêncio numa sala escura — e os efeitos prolongam-se muito para além da sessão. — Gostaste do filme?  — Sim, é calmo. 

Cinefilia

Arroz de pato do Manuel Alves, salada, dois copos de Syrah do Tiago Cabaço, uma tangerina, café. Acho que estou pronta para o filme do Hong Sang-soo. Daqui até ao Trindade são dois quilómetros e meio. Vou pelo sol.

O ódio tocou à campainha

O ódio tocou à campainha e nós abrimos a porta. Não precisou de esperar muito. Nós ouvimos bem. Temos uns ouvidos sensíveis. Bastou tocar uma vez. Estávamos à sua espera. Há muito que o esperávamos. Há mais de quarenta anos. Há séculos e séculos. Estamos sempre à sua espera. Nós gostamos do ódio. Gostamos que se sente à nossa mesa, que beba um cafézinho, um digestivo. Ou, se preferir, uma cervejinha e um pratinho de tremoços. Gostamos muito de o ouvir falar. Se não fosse o ódio, quem teria «a coragem de dizer as verdades»? O ódio «não tem medo das palavras». O ódio «fala claro para as pessoas lá em casa compreenderem». O ódio é «justo», o ódio é «bom». Foi ao ódio que «Deus atribuiu a missão de mudar Portugal». O ódio vai salvar-nos. Se não odiarmos, o que nos resta? Odiar-nos a nós mesmos?

Antes do sentido histórico

Tudo acontece de forma atabalhoada, parece que estamos dentro de um parque temático enorme e decadente. Vejo as fotografias da invasão do Capitólio e penso nas histórias e nas personagens de Saunders. Antes de ser arrumada nos manuais com uma boa dose de patine, a história é sempre assim — com este sentido de pressa e confusão?

Belo universo maldito

Encontrei a versão espanhola do Caderno de Talamanca , um livrinho menor de Cioran, uma espécie de diário de férias de verão. É tão estranho — mas também tão apetecível — imaginar Cioran ao sol em Ibiza. Não preciso de mais nada, passei-o à frente dos Cadernos de Paris.  Ibiza, 31 de julho de 1966.  Esta noite, completamente acordado por volta das três. Impossível ficar mais tempo na cama. Fui dar um passeio à beira-mar, levado pelos pensamentos mais sombrios. E se me atirasse do alto do penhasco? Vim para aqui pelo sol e não suporto o sol. Estão todos morenos, mas eu tenho de ficar branco, pálido . Enquanto me entregava a todo o tipo de reflexões amargas, olhei para estes pinheiros, estas rochas, estas ondas "visitadas" pela lua, e subitamente senti até que ponto estava ligado a este belo universo maldito.

Morrer de músculos tensos

A nossa falta de orgulho compromete a morte. Provavelmente foi o cristianismo que nos ensinou a fechar os olhos — a baixar o olhar — para que a morte nos encontre pacíficos e submissos. Dois mil anos de educação habituaram-nos a uma morte sensata e alinhada. Morremos para baixo , apagamo-nos na sombra das nossas pálpebras, em vez de morrer de músculos tensos, como um corredor que espera o sinal, a cabeça atirada para trás, pronto a enfrentar o espaço e derrotar a morte no orgulho e na ilusão da sua força! Muitas vezes sonho com uma morte indiscreta, cúmplice das expansões… Lágrimas e Santos, Emil Cioran (tradução a partir da versão francesa).

Dein Alter sei wie deine Jugend

Concluí a terceira revisão, acho que já posso arrumar “Lágrimas e Santos”. Como vou continuar na retoma progressiva não sei de quê, resolvi atirar-me a outro livro. Gostava de prolongar a relação com o Cioran romeno, mas acabou de sair uma tradução de “Nos cumes do desespero” e não vale a pena andarmos todos a roer o mesmo osso. Se não pode ser o jovem, então que seja o velho. Traduzir os “Cadernos” que tem uma data de páginas (1008, nesta edição ) — é coisa para me acompanhar até ao fim.  29 de setembro de 1970 Há cerca de dez anos, quando me queixei a um médico da minha má digestão, ele disse-me: “Tem de comer com alegria. — Se pudesse comer com alegria, não tinha vindo consultá-lo”, foi a minha resposta. Se penso nesta história, é porque me veio à memória a propósito da visita que S. Beckett fez recentemente a Jean Ménétrier, um médico um tanto herético, que sem mais nem menos lhe perguntou: “Você é optimista? " Fazer esta pergunta ao autor de Fin de Partie ! Emil Cioran, Cad

A lado nenhum. Nada a perder.

Aquele que nunca estudou os poetas ignora o que é a irresponsabilidade e o desleixo mental. Sempre que os frequentamos, sentimos que tudo é permitido. Não prestando contas a ninguém (excepto a si mesmos), eles não vão — nem querem ir — a lado nenhum. Compreendê-los é uma grande maldição, pois eles ensinam-nos a não ter mais nada a perder. Lágrimas e Santos, Emil Cioran (tradução a partir da versão francesa).

Hitchcock no Porto

A rua mais hitchcockiana da cidade é a Rua de António Cândido.

História alternativa

O momento presente é tão problemático para a ficção contemporânea como para a ficção científica, se não mais. Um romance pode demorar anos a ser escrito e um autor que trabalhe num romance que decorra no presente tem de assumir que o mundo não sofrerá alterações drásticas durante esses anos. Romances que estejam a ser escritos neste momento correm o risco de parecerem datados quando forem publicados, que é uma coisa com a qual os seus autores provavelmente não estão familiarizados. Creio que tanto os escritores como os leitores deveriam considerar isto como um lembrete de que a ficção não precisa de se situar na realidade actual para ser relevante para as nossas vidas. (...) Há imensa ficção científica que decorre no passado e muitas vezes coincide com o género denominado "história alternativa", que explora outras trajectórias que a história poderia ter tomado. Isto relaciona-se com o que afirmei acima: uma série de romances contemporâneos tornaram-se agora ficção de históri

O ano seguinte

A notícia mais auspiciosa sobre 2021 é a estreia de alguns filmes de Hong Sang-Soo .  Com sorte, vai ser um ano em que não se passa quase nada .

Amanhã

Chuva, chuva, chuva sem fim. As paredes pingam, cursos de água atravessam o chão da cozinha, a roupa jamais secará. Amanhã, ao acordarmos após sonhos agitados, vamos ver-nos na nossa cama, metamorfoseados em monstruosos anfíbios.

Os mortos

O que me custa mais na tradução de “Lágrimas e Santos” é não poder discutir com Cioran a escolha e a ordem das palavras. É certo que com a minha idade já aprendi a falar com os mortos e posso usar essa via, mas não é a mesma coisa. Os mortos são pouco dialogantes, não se querem chatear: aferram-se à negativa ou concordam em demasia — desprezam o conhecimento.

Bigode

A relação entre Marinetti e os seus pares cubo-futuristas russos nunca foi pacífica. Marinetti criticava nos eslavos o interesse pelas profundezas cósmicas da religião, incompatível na sua perspectiva com o Futurismo. Os russos, por seu lado, não apreciavam as maneiras, as intervenções belicosas e o bigode de Marinetti.

So much less personal!

(...) I find myself marvelling less over the sweeping insights of the novel and more over the intricate delights of its language and form. I keep thinking about the shocking velocity of Woolf’s sentences, how they rocket off into the sky, trailing sparks of emotion behind them. I keep thinking about how beautifully, how gracefully, how ecstatically, even, she makes use of dashes and commas and parentheses to capture the halting stutter-step of feeling being transmuted into thought. (...) Jenny Offill on Mrs. Dalloway

Nós somos de confiança

- Então, Armando, conta lá, o que é que estás a escrever agora? A temida pergunta acabou por chegar. Já tinham terminado a refeição e encontravam-se na sala de estar da residência barranquina, a tomar café. Pela janela entreaberta via-se o farol do molhe e a névoa invernal, que subia das falésias. - Não te faças desentendido - insistiu Óscar. - Já sei que os escritores às vezes não gostam de falar do que estão a fazer. Mas nós somos de confiança. Dá-nos essa primazia. Armando pigarreou, olhou para Berta como que dando a entender que os amigos estavam a ser inoportunos, mas, acendendo o cigarro, decidiu-se finalmente a responder. - Estou a escrever um conto sobre a infidelidade. O tema não é muito original, como sabem. Já se escreveu tanto sobre a infidelidade! O Vermelho e o Negro , por exemplo, ou Madame Bovary e Anna Karénina , para citar apenas duas obras-primas... Mas eu sinto-me atraído justamente pelo que não é original, pelo vulgar, pelo já trilhado... A este respeito, interpret

Truz-truz

Nomes de algumas lojas da Rua Serpa Pinto: Confeitaria Bom Sonho, Ourivesaria Joaninha, Ferro Mago, Truz Truz Pão Quente, Ernestu’s, Café Moranguinho, Bufete É-Na-Ora, Agência de Viagens Mar de Prata, Hortinha Frutaria, Clínica Fisiátrica Calvário do Carvalhido, Radical & Boémio Shop, Best Deals Outlet.

Alvorada encantada

Aproveito o espírito natalício para escrever uma carta aberta e discordante aos colegas e gerentes da empresa onde ainda trabalho. Sem dúvida, devia ter enveredado pela carreira sindical.

Perdeu o seu emprego durante o último ano?

Recebi um email do jornal Público sobre a oferta de 2500 assinaturas digitais para desempregados.  Não sei se é um presságio.  Depois do lay off entrei e continuo ainda no apoio extraordinário à retoma progressiva de actividade que é o eufemismo pomposo para pré-desemprego — esse maravilhoso limbo onde ganhamos tempo para leituras.