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Mensagens

corpo vulnerável (que fracassa)

Canoagem é um título bestial. Mas o que mais gosto em Joaquim Manuel Magalhães nem é esse golpe de apanhar uma palavra (ou uma frase) que ressoa, ou deixa um rasto intrigante. O que me emociona a valer é o trabalho que se vê em cada página: Joaquim Manuel Magalhães não só escreve os poemas, também os traduz. — Imagino-o vestido com um fato macaco e as mãos sujas (mais um para o grupo Die letzten Menschen , de August Sander) .
Mensagens recentes

Primavera no Porto

Saio cedo, antes do trabalho, para ir à frutaria. Na rua, uma fila interminável de carros estende-se a perder de vista, ao longo de Antero de Quental. Dezenas de latas paradas, guinchando, roncando, zunindo, tossindo, bramindo, ensurdecendo, como uma fábrica infernal de nada. Aqui e ali, ergue-se um autocarro vazio, como um elefante morto e empalhado. E é tudo. Ah, o perfume primaveril da cidade pós-desconfinamento!

Vivre loin de la Méditerranée est une erreur

Traduzi o Caderno de Talamanca (também conhecido pelos aficionados como Noite de Talamanca ) a partir da versão espanhola. Como é passado em Ibiza, pareceu-me razoável o deslize.  Mesmo assim resolvi comprar o livro em francês (colecção "Le petit Mercure", 4,52€). Chegou há pouco e já me entusiasmou. Um livrinho de dez por dezasseis centímetros (é o formato de um postal), com cerca de 60 páginas impressas e muitas ainda em branco (vão dar jeito), perdido numa caixa enorme cheia de ar. Tantos significados em fila para serem reconhecidos. Por outro lado penso logo: ah, alguém nos meandros da distribuição reconhece o valor de Cioran, juntos ainda podemos dar cabo disto tudo.  

Via delle Botteghe Oscure

A rua das Lojas Escuras é referida pela primeira vez na página 133, numa ficha de informações de Jean-Pierre Bernardy: derradeira morada conhecida de STERN, Jimmy Pedro, corrector, oficialmente desaparecido em 1940.  Na última página do livro, não conseguindo encontrar Freddie numa das ilhas da Polinésia, o narrador percebe que só lhe resta voltar à sua (?) antiga casa em Roma, na rua das Lojas Escuras, nº 2.  Mas o mistério do narrador é empurrado para fora de campo — e isso revela-se uma óptima estratégia de Modiano. Até porque a via delle Botteghe Oscure — como é bonita a sua denominação original — é, ela própria, rica em histórias ocultas e inacabadas.

Na Rua das Lojas Escuras

Para além do mistério amnésico do narrador, Patrick Modiano entretém-se a desvendar as ruas de Paris. Logo na primeira página, por motivos paralelos à acção principal, surge a rue Vital, depois nunca mais acabam: rues ,  quais ,  avenues ,  boulevards , places , etc.. (Nota: no fim, arrumar em literatura topográfica, ao lado do Alexandre Andrade e dos mapas.) Gostava de ler o livro em Paris, em movimento — seguindo o narrador, parando nos cafés, restaurantes e hotéis mencionados. (Nota: criar um novo tipo de leitura ou crítica: em marcha, de preferência, lenta.) A alternativa pobre é usar o google maps . (Aqui apanhei um tipo a transportar uma escada numa mota e alguém colou um coração na placa com o nome da rua, pas mal .) Até agora, o meu capítulo preferido é o sexto, sobre Galina, conhecida por «Gay» ORLOW .  Gosto dele pela amplitude geográfica (alongar) e pelo estilo seco (recolher).  Também porque tem este parágrafo  (nunca citado na operação Marquês) : Em Paris, não se lhe conh

Observações avulsas sobre o bonfim #27

Papoilas junto às escadas que vão dar às Eirinhas (lá no alto). Uma tomada de electricidade na parede exterior da Casa das Artes do Bonfim.  Dois cartazes da exposição da obra gráfica de Francis Bacon nas paragens do autocarro. Os miúdos da Soares dos Reis. Homens de fato protector com capuz a retirar placas de amianto nas traseiras (antes da construção da ESAP). 

Census

A certa altura, o inquérito do Census pede uma resposta para a seguinte questão: «Usando a língua em que habitualmente se expressa, tem dificuldade em comunicar com os outros, por exemplo compreendê-los ou fazer-se entender por eles?» As opções são quatro: a) Não, nenhuma. b) Sim, alguma dificuldade. c) Sim, muita dificuldade. d) Não consigo compreender os outros ou fazer-me entender. Hesito. Não sei o que responder. Os técnicos do Instituto Nacional de Estatística conseguiram resumir a história da humanidade e um dos mistérios da existência numa pergunta do Census. Sinto-me como um daqueles bichos que roem o próprio rabo para escapar duma armadilha. Avanço para a próxima questão sem responder.

E depois.

(...) Ou talvez a própria vida seja uma espécie de arte de má qualidade. Não tem enredo propriamente dito e os temas são arbitrários e confusos. Uma história vai decorrendo e depois é abandonada e depois as personagens reaparecem e depois morrem sem razão aparente e sem seguir uma ordem dramática particular.  E temos tantas vozes interiores que nos dizem o que devemos pensar, o que devemos fazer, onde devemos ir. É como se houvesse demasiados argumentistas a trabalhar a noite inteira, como os autocarros vazios que circulam pela cidade durante a noite, sem passageiros. Como que em piloto automático.  E depois, por baixo disso tudo, está o subconsciente. Sempre a tentar comunicar. Mas o problema é que não pode usar palavras. Não conhece nenhuma palavra. Por isso mostra-nos coisas. Vês este azul? O que é que te faz lembrar? E uma pessoa pode passar anos a tentar decifrar estas mensagens.  E depois há os buracos da linguagem. Cá está um. Vou esconder-me aqui durante alguns minutos antes de

Os Vermelhos

- (...) Estes Vermelhos, e os da Confederação Geral do Trabalho, e quejandos... porque não fazem a sua revolução? Porque temem o resultado. Não têm medo de enforcar todos os capitalistas e outros que tais; mas assustam-se à ideia de pôr depois a máquina em movimento. Assustam-se mortalmente. - Sorriu e soltou uma risadinha. - Nada os aflige tanto como a circunstância de manter a ordem após a bernarda. Por isso nunca vieram para a rua. E nunca virão, a não ser que alguém os empurre. Assim, inventaram este estribilho: faça-se a mudança gradualmente, através de vitórias políticas. Ora isto não é revolução. Conserva-se tudo na mesma, com uma pequena diferença, tão pequenina que nem sequer se nota.   - É a pura verdade - volveu Richard. - Ninguém receia mais a revolução vermelha dos que os próprios Vermelhos. Aterrorizam-se. D. H. Lawrence, Canguru . Tradução de Cabral do Nascimento.

Baixo contínuo

Se juntarmos as imagens geográficas da Google (maps, earth) e as fotografias que tiramos a todo o instante (auto-retratos, gatos, comida, sexo, paisagens, etc.), conseguimos um retrato muito aproximado da nossa vida. Uma espécie de fotografia contínua (ainda ninguém registou o conceito? talvez acrescentando a palavra baixo?), omnipresente — o contrário exacto do que é a fotografia .  Mais do que imagens, parecem um sinal de qualquer coisa — como os gráficos das máquinas dos hospitais que provam que ainda estamos vivos. 

Verão quente em Talamanca

Um francês pergunta a um delegado sindical sueco: “Que pode ainda desejar um operário na Suécia? Tem tudo, não pode querer mais nada”. O delegado responde: “Sim, um segundo quarto de banho”. Emil Cioran, Caderno de Talamanca, agosto de 1966.

Magnórios

O fruto que sempre conheci como magnório chama-se agora nêspera . Na verdade, o fruto sempre se chamou nêspera, menos no Porto e no Minho (que, no fundo, são a mesma coisa), onde era conhecido como magnório. Ignoro a origem do regionalismo. Em todo o caso, é uma mudança estranha. Não se fala de nêsperas, imagino eu, na televisão, nas telenovelas e telejornais. As frutarias da cidade, como os talhos e as padarias (onde os pães de trigo vulgares se chamam moletes ), são talvez dos últimos locais onde ainda se conservam os nomes antigos e as vogais fechadas. Onde é que a senhora da frutaria, tripeira de Paranhos, foi, pois, desencantar o termo nêspera? É uma mudança para pior. Magnório é muito mais redondo, sumarento, luminoso. Imagino Nabokov a dizer a palavra: Mag-nó-ri-o, a ponta da língua faz uma viagem de quatro passos pelo céu da boca abaixo e, no quarto, recosta-se e sonha. Mag. Nó. Ri. O.

Go, go, go,

Não é só da fotografia de Cioran, ando quase sempre à procura de qualquer coisa — uma frase, uma imagem, uma cor, o que seja — que não existe ou então é totalmente diferente da minha percepção. Ainda agora, estava tão certa que o pássaro que nos enxota e diz que não aguentamos muita realidade era do mundo aventuroso de Alice.
 

Os sapatos de Pascal

Já não sei como é que começou esta mania de associar a filosofia a sapatos e botas, mas a verdade é que volta e meia lá avanço mais uma casa neste jogo particular. Desta vez, descobri isto no livro “A caballo entre milenios” , de Fernando Savater: El encanto de Cioran reside en que expresa los vapores del spleen romántico con una prosa disciplinada en el potro de tortura de los moralistas clássicos: como apuntaba con agudeza Adam Gopnik en un artículo aparecido hace pocos días en el New Yorker, “efectúa los paseos de Baudelaire con los sapatos de Pascal”. — É uma descrição formidável.
 

Momento filosófico

Lembrei-me, agora mesmo, desta história passada num café no Boulevard Saint-Michel há cerca de vinte e cinco anos. O engenheiro C. explicava-me, em romeno, como tinha inventado um novo tipo de hélice para avião. Naturalmente, não compreendia nada das suas explicações, mas fingia ouvir. Ao lado, um jovem estende à sua frente uma grande folha de papel branco. Observo-o; ele assume uma expressão meditativa, apoia o queixo nas duas mãos, assume uma pose de pensador e fica muito tempo com o olhar fixo na distância. Não se perturbou com o monólogo do meu camarada, que aconteceu, como já disse, em romeno. Continuava a contemplar o vazio quando, de repente, pegou na caneta que tinha pousado sobre a folha e escreveu em letras grandes: "A vida, que mistério insondável!" E foi tudo. Retomou a sua atitude pensativa, por apenas alguns minutos. Depois, dobrou o seu papel e saiu. Tinha acabado de passar por um momento filosófico . Emil Cioran, Cadernos 1957-1972

A Quimera do Ouro

Trambolhões, cambalhotas, escorregadelas, passos em falso à beira do abismo, montanha acima, montanha abaixo. Estes tempos da grande corrida ao ouro das farmacêuticas pedem desesperadamente um novo Chaplin. Onde está ele? Em que canto do mundo continua confinado?

Destorce, destorce.

Suprimir todos os desejos! — esse é o meu propósito, o meu desejo absoluto! 12 fevereiro 62 Sinto-me fora de tudo, do que chamamos tudo . Devem-me ter lançado mau-olhado. Estou enfeitiçado. Apanharam-me. Mas quem me apanhou?  Dias, semanas sem escrever uma palavra, sem comunicação com os outros nem comigo. Esta tarde observava as nuvens a passar, parecia que tocavam, que envolviam o meu cérebro. Precisava de sair disto, precisava de rezar... Emil Cioran, Cadernos 1957-1972

Design

Em Design e Crime , Foster começa por um tema que nos remete para o universo acutilante e impiedoso de Karl Kraus (aliás, um dos protagonistas de Design e Crime ). Pensemos, pois, neste problema à maneira de Kraus: qual é a causa do amolecimento cerebral contemporâneo, e a quem serve? Foster, peremptório: é a transformação da ética de vida (Nietzsche, Foucault) num mero décor ; é o design global : aí cada indivíduo é, ao mesmo tempo, “designer” e “designed”. A manipulação pelo design é total: da casa (design de decoração) ao rosto (cirurgia plástica), da personalidade ( drugs design ) ao DNA ( children design ), de um candidato presidencial ganhador à Young British Art (nos livros-objectos de Bruce Mau, por exemplo), passando pela memória histórica ( museum design ), à arquitectura-espectáculo de Frank Gehry (“este designer de museus metálicos e salas de concerto curvilíneas,”) e à teoria-espectáculo de Rem Koolhaas (ver caps. III e IV) que não resistiria à realidade (o 11 de Setembro)