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Mensagens

Estética

Ao lado de minha casa, abriu mais um Centro de Estética. Entre a Arca D'Água e a Rua Damião de Góis, há pelo menos uma dezena.  No futuro, ninguém poderá estudar as grandes correntes estéticas do século XXI sem passar pela minha rua.

A leitura dos jornais

As autoras do estudo Como Comemos o que Comemos – Um Retrato do Consumo de Refeições em Portugal , criaram quatro grupos (não sei porquê, preferem dizer  clusters ) para explicar como nos alimentamos: gregárias emancipadas, caseiras remediadas, profissionais diligentes, universitários desengajados.  As designações são extraordinárias, mas podiam ter ido mais longe na definição — por exemplo, universitários desengajados podia ser universitários   sem gajo/gaja . • • • Parece que precisamos de Boris Vian para resolver este imbróglio das estações à esquerda . Não é difícil, basta inverter a marcha dos autocarros — uma nova acepção de negativos e uma nova maneira de encarar o trânsito urbano.

Uma história próxima, que corre a passos precipitados.

A História está cheia de episódios caricatos. A vitória de Trump graças ao atentado de ontem é apenas mais um.  Agora os democratas precisavam de uma audácia de fera encurralada, mas desconfio que não conhecem nenhuma dessas três palavras. 

Um elegante fato vermelho Carolina Herrera

«Era meio-dia em ponto quando entrou pelos portões do Palácio de Belém, escoltada pela guarda de cavalaria da Guarda Nacional Republicana ─ o ministro dos Assuntos Exteriores, União Europeia e Cooperação de Espanha, José Manuel Albares, também a esperava. Leonor elegeu para esta visita um elegante fato vermelho Carolina Herrera, uma opção que homenageia as cores de ambas as nações. Marcelo Rebelo de Sousa recebeu-a à saída do carro e acompanhou-a, com vários toques no braço, até ao palanque onde ambos ouviram os hinos nacionais ─ primeiro a Marcha Real, ou não fosse Leonor a convidada. Feitas as honras militares, Leonor seguiu segura até ao interior do Palácio de Belém, enquanto trocava algumas palavras com Marcelo Rebelo de Sousa. Posaram para fotografias e seguiram para a Sala das Bicas, onde o Presidente procedeu à condecoração, enquanto a princesa sorria timidamente. No encontro que se seguiu nos minutos seguintes, Marcelo e Leonor falaram em privado.» Artigo do jornal Público , as

A iniciativa liberal

Foi hoje divulgado o chamado «ranking das escolas». O outro nome para este «ranking» é: campanha publicitária promovida pelo Estado a favor dos colégios e escolas privadas. A mais grotesca, asquerosa e despudorada das campanhas publicitárias. Mais uma vez, as empresas de ensino privado não precisaram de pagar um cêntimo por este anúncio difundido em todas as televisões, rádios, jornais e internet. O sonho molhado de qualquer «empreendedor»: uma campanha milionária anual patrocinada pelo Estado.
(...) Ora, para concluir e regressando às paragens de metrobus , Rui Moreira preferiria umas “coisas levezinhas, envidraçadas”, quase invisíveis, para não perturbar as vistas idílicas da burguesia local. Ora, talvez me aventurasse a dizer que, para Álvaro Siza, que conserva ainda um sentido profundo e social daquilo que é fazer uma cidade — ao contrário do autarca portuense —, as paragens desenhadas em betão correspondem precisamente ao gesto arquitectónico de procurar marcar e tornar visível no espaço urbano aquilo a que a classe a que Rui Moreira pertence tende a não aceitar: o facto de a cidade não ser apenas a sua propriedade exclusiva, mas de todos. Nada há de mais social e definidor do território urbano do que esses pequenos equipamentos públicos tantas vezes desqualificados (inclusive pela própria CMP). São estes, na verdade, os grandes monumentos da vida quotidiana das cidades e dos seus moradores; e não certamente as vivendas privadas endinheiradas e kitsch da Avenida do Ma

Os bons fotógrafos dançam

Enquanto esperava pelas Três Irmãs , de Tchékhov, que estavam guardadas no depósito 2 da Biblioteca, sentei-me num sofá a folhear a Electra do verão do ano passado. A revista publica sempre artigos inteligentes que têm de ser lidos na íntegra e com muita atenção, mas as entrevistas atraem de outra forma espacial — já não estamos fechados num gabinete ou auditório, as janelas são tão grandes e estão tão abertas que parece mesmo que estamos na rua ao ar livre. A conversa entre André Príncipe, José Pedro Cortes e Bernard Plossu é desse tipo.  Lembro-me de muitas fotografias de Plossu — dos Encontros de Coimbra ou do Centro de Fotografia do Porto — e batem certo com o que ele afirma: «E é verdade, os bons fotógrafos dançam. E, provavelmente, a arte mais próxima da fotografia não é o cinema nem a literatura, é a dança. Um bom fotógrafo é gracioso.»  A determinada altura, isso decorei, Plossu lembra que Édouard Boubat dizia que image e magie tem as mesmas letras.

Influenciadores do século XX

Good Vibrations

Ontem, a sala grande do Batalha cheia para ver Sayat Nova,  de Sergei Parajanov, parecia uma representação interior do que se passava nas ruas de Paris.

É potável, não é?

Esplanada de um jardim no centro de Lisboa. Domingo de manhã. A maioria das pessoas à nossa volta tem cães. Bichos de todas as raças e feitios. Tanto quanto percebo, não há um único rafeiro. Não ladram, não rosnam, não se aproximam uns dos outros. Bonecos de peluche, tristes e mudos. Sem vida. Uma mulher com um bebedouro pergunta ao empregado: «Pode encher com água? Pode ser da torneira. É potável, não é?»

Juste une image

Em 1976, as pessoas de Trás-os-Montes não gostaram da cena da neve. Acharam que os denegria, que não correspondia à realidade, que ninguém é tão pobre que coma neve.  A própria Margarida tinha algumas reservas: Essa ideia foi mesmo do António. Significava uma pobreza extrema. E claro que a neve não alimenta. Eu ai pus uma certa reserva. A neve é bonita mas não alimenta. E também não era neve... É qualquer coisa da produção, uma espécie de espuma... Eu aí reagi um bocado. Primeiro porque não alimenta. Segundo porque não era verdade... Pus uma certa reserva. Mas a única reserva que ponho actualmente é a lentidão. Dura muito. A duração dessa plano devia ter sido encurtado .  Mas a força da cena vem precisamente da sua profundidade e da sua  duração ; quando vemos a neve (apanhada, servida, comida) paramos e temos tempo para compreender o que é a pobreza e, se dermos um passo atrás, o que é uma imagem.  Há palavras de Kafka em Trás-os-Montes , mas esta imagem — destemidamente livre — podi

Sagen Sie’s den Steinen

Apetece brincar à cama de gato e pegar nas linhas éticas/estéticas com que o Luis Miguel Oliveira juntou Trás-os-Montes , No Quarto de Vanda e Sicília! e, seguindo a minha pancada por pedras, mudar a forma para: Trás-os-Montes , The Searchers , Antígona . — Rui! Rui! Que pedra é esta?  — É a pedra do raio! Quando há trovoada muito forte, cai o raio, entra pelo chão adentro…então fica lá uma pedra muito pesada e muito escura!

Um dia isto vai ser importante

Descobri que o Luís de Trás-os-Montes (que tem mais ou menos a minha idade) dá aulas na escola do quarteirão onde vivo. Se calhar já nos cruzamos na rua, no multibanco ou no Lidl. Diz ele: — O António era de um carinho, de uma simpatia transbordantes. E a Margarida também. Eu tinha perdido a mãe há meses e tivemos uma relação muito especial. Eu estava sempre abraçado a ela, de mão dada, ela oferecia-me imensas coisas. O António era mais reflexivo, falava só quando tinha alguma coisa importante para dizer. A Margarida era mais espontânea, mais rápida. Mas as coisas que o António dizia ficavam sempre na nossa cabeça. Funcionavam muito bem os dois. Nas refeições, eu sentava-me à beira deles, começavam a falar de Proust e acabavam em Stockhausen. O António dizia: "Presta atenção, porque agora não vais perceber nada, mas um dia isto vai ser importante." Às vezes eu apontava. Depois chegava a casa e perguntava: "Quem é este, e aquele?" Falavam, falavam, a Margarida escrev

Influenciadores do século XX

— Trás-os-Montes é um documentário?  — Não! Claro que não! Chamaram-lhe muito isso. O António não gostava nada. Um documentário para mim, na minha definição, é ficção o mais próxima da realidade que exista, mas “ficção” na cabeça de quem faz. Trás-os-Montes não! Muito daquilo é sonhado, muito daquilo não era verdade... Na altura mesmo! A ficção pura é isso, é juntar varias coisas. Tanto dá que tenha sentimentos humanos como não. É o juntar de formas. Isso é ficção pura.  (...) — Algumas críticas apontam o Trás-os-Montes como um panfleto político? Vê o filme como tal?  — Tudo é político! Não há nada que não seja político... Político quer dizer da cidade, da comunidade. E por isso [ Trás-os-Montes ] é político, claro. O filme não era uma brincadeira. Mostrava que há pessoas na extrema miséria. Mas que são belas, num país que pode ser muito belo. Nós tentamos dizer isso, não percebem?  Entrevista de Pedro Branco a Margarida Martins Cordeiro realizada presencialmente em Mogadouro, Distr

Influenciadores do século XX

 

Longe da capital, longe da lei.

Sem mais nem menos, a menina da bilheteira decidiu fazer-me o desconto jovem. À primeira vista, foi um capricho anti-burocrático que se transformou logo em gag cómico. Depois percebi que não teve nada a ver com a idade. Ela deu-me o bilhete justo para ver Trás-os-Montes . Com aquele bilhete entrei na sala como se fosse em cima do cavalo Pensamento.

Uma espécie de emprego, uma escola ideal.

(...) Este mês de junho, a Cinemateca tem estado a passar os filmes da Regina Guimarães e do Saguenail: filmes que são só uma parte da prática deles de viverem ao mesmo tempo (ou de viverem o mesmo tempo) estes anos todos. Ora: estando no Porto, não pude ir a nenhuma sessão. (E a Regina não pôde vir conversar com a Odete, como faz todos os anos.) Mas vi que eles programaram, por entre os seus filmes, outros, de outras pessoas: filmes que conversam com os deles, que os provocaram. Acho que entretanto aprendi (também com eles, que programam filmes há anos e anos) que ver filmes, e vê-los como quem investiga um crime, é uma espécie de emprego: em que nos pagam em imagens e em faltas de ar. Por isso, quando penso em como seria a minha escola ideal (em que eu seria professor e aluno), só consigo pensar em algo deste género. Um lugar onde alguém (onde toda a gente) partilha (generosa, entusiasticamente) os seus amores, esperando que, ao partilhá-los, o entusiasmo por eles cresça: até não cab

Uma máquina em movimento

Cristina Fernandes: Num possível alinhamento dos seus filmes, Regina Guimarães e Saguenail apontaram um bloco a que deram o nome de Casas Ruas Cidades . É uma das formas mais convidativas para entrar na obra destes dois cineastas. Tem qualquer coisa de passagem arquitectónica e, sem dúvida, sempre, de político, no sentido grego da palavra. A sequência marca o percurso destes dois extravagantes-livres que trabalham juntos e com cumplicidade há anos, principalmente no Porto. (...) Rui Manuel Amaral: (...) Quando penso na obra de Regina Guimarães e Saguenail ocorre-me justamente a imagem de uma máquina em movimento. Uma estranha máquina de filmar-escrever tomada por essa «espécie de febre». Com paragens em cada filme e em cada livro, mas paragens breves porque há sempre mais caminho a fazer. Uma máquina em «Movimento Perpétuo», para usar o título de um poema do Caderno do Regresso (2010). E aqui retomo a ideia do jogo de espelhos entre cinema e poesia. A máquina Regina-Saguenail n

Concetta

No conto  Terra de Exílio , há uma personagem — engenheiro de obras públicas, de Turim — que é lançada, por razões de trabalho, «para o fundo da Itália». Uma terra pequena, no sul, junto ao mar. A sua missão é dirigir a construção de uma estrada. O tempo passa devagar. Arrasta-se. A certa altura, o leitor tropeça nesta passagem: «Uma vez o carniceiro chamou-me de parte. — Engenheiro, ponha dez liras e fica sócio. Domingo escrevo. A mercadoria chega na quarta-feira, e até sexta-feira, a qualquer hora que tenha vontade, é só bater três pancadas e tem o amor à sua espera. A lourita saltou do comboio numa tarde de vento e chuva, o carniceiro tapou-a com um guarda-chuva, outro pegou-lhe na mala, desapareceram no beco escuro, por trás da igreja. Toda a terra sabia, mas na estalagem continuou a falar-se apenas entre os de confiança, gabando-se o carniceiro que desse modo arranjaria mais algum cliente para Concetta. Alimentavam-na a carne e azeitonas, mas tinham-na fechada. Uns entravam, outro

O tempo do trabalho

«Dizem: Tati gasta dois anos para fazer um filme . Asseguro-vos, todavia, que trabalho todos os dias... quando vejo que alguém se prepara para fazer em trinta e sete dias um filme que custa trinta e cinco milhões, o que é que querem, não acredito. Não se pode, em trinta e sete dias, contar uma história muito importante.» in Nota de abertura. Catálogo Jacques Tati editado pela Cinemateca Portuguesa em 1987.

Aviso a um jovem poeta

Recomendar-lhe-ia, como poeta e espírito brilhante que deseja ser, a leitura dos grandes autores da Antiguidade porque, sendo como os macacos que catam a vermina na cabeça dos donos, verá que, tal como no bom queijo velho, é nos bons autores que os vermes abundam, e não nos novos; por isso, deve o meu jovem amigo manusear, constantemente, os clássicos, em especial os mais roídos pelos vermes. Mas com cuidado, não vá ter com os antigos o mesmo procedimento que têm alguns infelizes jovens que roubam quanto encontram nas algibeiras dos velhos progenitores. A sua ocupação não é roubar, mas aproveitar e fazer suas as ideias deles; o que, embora difícil, é, no entanto, bastante possível, sem incorrer na vergonhosa imputação de gatunice; penso, com toda a humildade, que, embora acenda a minha vela na do vizinho, isso não altera a propriedade, nem faz com que o pavio, a cera, a chama ou a vela inteira sejam menos meus.  Jonathan Swift, Preceitos para uso do pessoal doméstico e outros textos .

Os velhos deviam ser exploradores

(...) Old men ought to be explorers Here or there does not matter We must be still and still moving Into another intensity For a further union, a deeper communion Through the dark cold and the empty desolation, The wave cry, the wind cry, the vast waters Of the petrel and the porpoise. In my end is my beginning. T.S.Eliot, Four Quartets, East Coker.

Fellow Prisoners

O facto de os tiranos mundiais se situarem na extraterritorialidade explica a extensão do seu poder de vigilância, mas denota também a sua futura fraqueza. Operam no ciberespaço e moram em condomínios guardados. Não têm nenhum conhecimento da terra que os rodeia. Além disso, rejeitam este conhecimento como superficial, desprovido de profundidade. Para eles, só contam as matérias-primas que extraem. São incapazes de ouvir a terra. Quando pisam o chão, são cegos. No plano local, estão perdidos. Para os companheiros de prisão, é o contrário que é verdade. As celas tem paredes que alcançam o mundo inteiro. Os actos determinantes de uma resistência prolongada terão raízes no que é local, no local próximo e distante. Resistência do interior, ao escutar a terra. A liberdade está lentamente a ser descoberta, não no exterior da prisão, mas nas suas profundezas. Entretanto , de John Berger. Tradução de Júlio Henriques. Antígona. Outubro 2018.