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Mensagens

Ideia

Neste livro, dediquei-me a traçar os mapas de um conjunto de filmes de John Ford, a reconhecer a sua topografia, os seus montes e rios, as suas cidades e, sobretudo, as vias de comunicação que tornam esses territórios transitáveis. Descrevo a morfologia, o organismo do animal, mas talvez não me tenha perguntado porque é que é assim. Todos os cineastas têm de «construir» o seu filme, e Ford não é diferente dos outros, mas parece ter uma particular lucidez sobre esta exigência. Se queremos converter um filme numa experiência para o espectador, se queremos torná-lo emocionante, talvez seja necessário fazê-lo memorável – a resposta pode estar aí. A construção fordiana pode ir nessa direcção de activar a memória. Se uma cena te aviva a recordação de outra, não é exagerado dizer que «vês» essa anterior duas vezes e, de certo modo, também a cena estímulo, porque o «decalque» a reforça. Assim, consolida-se a memória das duas.  Chegamos, então, ao problema da importância da memória para c...

Let’s go home, Debbie

Por exemplo, o belo (e famoso) gesto de Ethan Edwards no fim de The Searchers , quando se aproxima da sobrinha com intenção de a matar por ela se ter transformado numa squaw – levanta-a brutalmente no ar para a atirar contra as pedras e reprime-se de imediato, apertando-a nos braços ( Let’s go home, Debbie ) –, não é belo só por si mesmo, por ser capaz de dar corpo, num breve instante, a um acesso espontâneo de ternura, mas também, e principalmente, porque esse gesto é a repetição exacta do que Ethan fez no início do filme quando, ao regressar ao rancho do irmão passados vários anos em que andou a combater, ergueu a sobrinha no ar numa atitude de carinho que nos é familiar a todos, um estereótipo reconhecível.  Se estou empenhado em destacar os gestos por si mesmos, então posso considerar que destas duas acções gémeas, a melhor é a segunda. É a que resolve o filme, a que condensa por inteiro The Searchers . Mas, se essa acção estivesse sozinha, não teria a mesma riqueza (não me o...

Paulino Viota / John Ford

No próximo sábado, dia 27, às 19:00, na Térmita , eu e o Daniel Ferreira, da Contracapa, vamos falar de duelos, simetrias, figura e consumação, entre outras coisas. Vai haver muito desvelo e fogo de artifício.

Cousa que não aproveita e aborrece

ROMA: Eu venho à feira direita comprar paz, verdade e fé. DIABO: A verdade pera quê? Cousa que não aproveita, e aborrece, pera que é? (…) Vender-vos-ei nesta feira mentiras vinta três mil, todas de nova maneira,  cada ua tão subtil, que não vivais em canseira: mentiras pera senhores, mentiras pera senhoras, mentiras pera os amores, mentiras, que a todas as horas vos nasçam delas favores. Gil Vicente, Auto da Feira .

Dos jornais LVXIV

O congresso do PSD devia ser realizado em Frangalhos.   Gostava de ver Luís Montenegro a ensaiar as principais tácticas para vencer a Corrida de Eliminação no velódromo de Frangalhos.

Observações avulsas sobre o bonfim #82

Cruzei-me com o Nicolau d' A Vida Luminosa na Avenida Fernão de Magalhães. Está mais velho, cortou o cabelo e fuma, mas tem a mesma doçura no olhar. Levava dois livros na mão e uma rapariga ao lado, como nos filmes franceses.

Fazer pontaria

De vez em quando, cai um pedacinho de caca do céu. Uma coisa meio esbranquiçada que, com sorte, não nos acerta e se esborracha no chão, mesmo à nossa frente. Olhamos para cima e não vemos nada. A gaivota desapareceu rapidamente atrás de um telhado. Mas terá sido uma gaivota? Ou terá sido aquela nuvem carrancuda que passa? Ou os antigos deuses que, para se distraírem e passarem o tempo, levantam o traseiro e fazem pontaria?

Dos jornais LVXIII

De acordo com projecções, suíços rejeitam limites à população em referendo.

Percevejos

Macedonio Fernández publicou muito pouco em vida. Uma parte considerável da obra que hoje conhecemos foi editada a partir dos manuscritos que o autor deixou. Os cadernos de apontamentos, por exemplo, deram origem ao livro designado por Tudo e Nada , constituído por notas, aforismos, pequenas teorias e reflexões, seleccionados por Adolfo de Obieta, filho de Macedonio. Ora, de todos os volumes que compõem as «obras completas», este é talvez aquele que o autor nunca terá pensado em publicar. No entanto, há pelo menos um texto em que se dirige directamente ao leitor: «Eis o motivo, leitor, de já não existirem percevejos.» Um texto pessoal e de circunstância, escrito num caderno de apontamentos, ao estilo de um diário, em que o autor se dirige ao leitor? Não sabemos nada sobre Macedonio Fernández. Daí o seu fascínio.

Double bill

Amanhã, Paulino Viota vai estar presente no lançamento do seu livro Simetrias - A Arte de John Ford , na Linha de Sombra, às 18h00, e vai apresentar o filme Rio Grande , na Cinemateca, às 21h30. Una gran fiesta fordiana.

Cair por terra

Lenz sentiu um arrepio quando tocou nos braços gelados do cadáver e lhe viu os olhos vítreos entreabertos. A menina parecia-lhe tão desamparada, e ele próprio tão só, tão abandonado! Debruçou-se sobre o cadáver. A morte aterrorizava-o e sentiu-se dominado por uma dor violenta; aquela expressão angélica, aquele rosto calmo iam decompor-se, apodrecer... Caiu de joelhos; com toda a angústia e desolação do desespero, pediu a Deus que o iluminasse, lhe desse forças para realizar o milagre de ressuscitar a criança. Concentrou-se inteiramente em si próprio e fixou toda a sua vontade num ponto. Durante muito tempo assim se manteve, imóvel. Depois ergueu-se, pegou nas mãos da defunta e ordenou em voz alta e firme: "Levanta-te e caminha!" Só as paredes lhe responderam com um eco que parecia de troça; o cadáver continuou frio. Desorientado, perdido, deixou-se cair por terra e assim ficou. Finalmente, a angústia pô-lo de pé e expulsou-o para a montanha. Georg Büchner, Lenz . Tradução de ...
Que ninguém trabalhe de sol a sol.

Omokage

Reparei no rapaz japonês o mês passado porque o vi duas vezes no mesmo dia: de manhã, na Carroça de Ouro , e à tarde,  No Quarto da Vanda . Ontem estava na  Imagem de uma Mãe . A Joana apanhou-o a sorrir no fim da sessão. Um sorriso repartido pelos três; estávamos a saborear a palavra Omokage (おもかげ). O cinema foi isto. 

Dos jornais LVXI

Mulher em posição fetal, acompanhada por um vaso cerâmico que guarda um punhal de rebites em liga de cobre, num dos hipogeus de Torre Velha 12. CORTESIA: LÍDIA BAPTISTA/ARQUEOLOGIA PATRIMÓNIO   Punhal de rebites recuperado pela equipa de Lídia Baptista e fotografado já depois da intervenção de limpeza e conservação preventiva. CORTESIA: LÍDIA BAPTISTA/ARQUEOLOGIA PATRIMÓNIO.
Nesta semana vi quase um filme de Hiroshi Shimizu por dia. Mais do que cinéfila, a minha relação com o realizador japonês revelou-se da ordem da medicina: uma posologia para tratar seja lá o que for.

Dos jornais LVX

O principal objectivo da nova PSU é rebaixar os mais desprotegidos. A medida tem uma carga moral absurda, que desestabiliza e obriga os beneficiários a trabalhar a troco de uma esmola. O Primeiro-Ministro explicou que é «para que as pessoas não se mantenham na armadilha da pobreza», e a Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social continuou com o seu discurso cínico . A hipocrisia dos ricos é uma coisa atroz.