Nunca me pareceu que a pobreza de meios, que é (pelo menos no meu caso) mais vezes uma questão de circunstâncias do que de escolha, pudesse fundar uma estética, e já deito as histórias do Dogma pelos olhos. É mais a título de encorajamento para jovens cineastas desprovidos de recursos que menciono estes pequenos detalhes técnicos: La Jetée foi realizada com uma máquina Pentax 24x36, e a única passagem filmada em «cinema», aquela que culmina no bater de olhos, com uma câmara 35 mm Arriflex emprestada por uma hora. Sans Soleil foi filmado na íntegra com uma câmara Beaulieu 16 mm, muda (não há um único plano síncrono em todo o filme), com bobinas de 30 metros – 2’44’’ de autonomia! – e um pequeno gravador de cassetes – nem sequer um Walkman, que ainda não existia… O único elemento sofisticado – para a época – foi o sintetizador de imagem Spectre, também emprestado por alguns dias. Tudo isto para dizer que as ferramentas de base destes dois filmes estavam literalmente ao alcance de ...
Bicho ruim
de Cristina Fernandes e Rui Manuel Amaral