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Mensagens

Passar de Ursula K. Le Guin para Benjamin Labatut é como responder ao serviço – quer dizer, um verdadeiro gesto godardiano. Comme au tennis, il faut être deux pour se faire renvoyer la balle .

No sentido tradicional do termo

A pessoa liga a rádio e põe o café a fazer. A primeira coisa que ouve é uma comentadora a garantir ao auditório: «O António José Seguro é um homem bom, no sentido tradicional do termo.» A pessoa ainda não tomou café. A pessoa pensa: «O que será um homem bom, no sentido, digamos, moderno do termo?»

Mensagem

Acompanhamos a chamada «noite eleitoral» através da televisão pública. Três ou quatro horas de emissão. A única falha aconteceu no directo a partir da sede do Livre. A imagem dos porta-vozes do partido apareceu desfocada, o discurso aos soluços, as ideias com omissões, como se estivessem a transmitir uma mensagem de um planeta longínquo.

O torno do céu

Há várias versões portuguesas de The lathe of heaven : O flagelo dos céus (Europa-América, 1983); O tormento dos céus (Presença, 2004); Do outro lado do sonho (Edições 70, 1991 e Relógio d’Água, 2024); A curva do sonho (Editora Morro Branco, 2019).  Ursula K. Le Guin foi buscar a palavra lathe a uma passagem de Chuang Tzu* que, veio a saber depois, era incorrecta, pois não havia tornos na China no século IV a.C. Construída sobre um (belo) erro de tradução, a imagem do título é não só extremamente poderosa e assustadora, mas também justa ao romance – parece um instrumento de tortura do passado e do futuro feito de propósito para o atormentado George Orr. Não consigo perceber o que levou os tradutores a afastarem-se do torno e até do céu. * Those whom heaven helps we call the sons of heaven. They do not learn this by learning. They do not work it by working. They do not reason it by using reason. To let understanding stop at what cannot be understood is a high attainment. Those wh...

Parece que cai do céu

Chuva, vento, cheias, telhados pelo ar, lama entre os quartos e a cozinha, trânsito de barcos nas ruas, gente desesperada e sem nada. Não há Governo. É preciso culpar alguém para apaziguar a fúria dos deuses, queimar bruxas, crucificar estrangeiros. As televisões estão prontas, as câmaras ligadas e em directo. O poder à extrema-direita parece que lhe cai do céu.
 
I'm a cruise ship designer / I'm striking while the iron is hot / I'm making the most of a bad situation / Cruises are big business / ...

Sim-socialista

Dos jornais XXXXVIII - correcção

Em vez de «aqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida», o Primeiro-Ministro devia ter dito: «aqueles que falharam em evitar a morte». Assim, percebia-se melhor por que é que devemos estar sempre do lado dos falhados e contra discursos cínicos.

Babel

A lavandaria do bairro está cheia de gente. Velhos e novos vizinhos vindos de longe, com sacos de supermercado atulhados de roupa, esperam a vez. Peças de todos os tamanhos, feitios e cores, às voltas dentro das máquinas. Espantosa babel das línguas, cuecas e meias.

Vai ficar tudo mal

 

O homem de bem é um gângster

«O homem de bem é o gângster da virtude», atira uma personagem de Nelson Rodrigues, em O Casamento . «A frase lhe escapara, e sem nenhuma premeditação. Mas gostou do som.» Duas ou três linhas depois, a personagem começa a duvidar da formulação. E acrescenta para si mesma: «Talvez fosse mais exacto dizer: O homem de bem é um gângster.»

Optimistas com a morte na alma

(...) A autoridade tem de assentar em algum mistério ou fundamento irracional para se manter? A «direita» diz que sim, a «esquerda» diz que não. Diferença puramente ideológica; na verdade, qualquer ordem que quer durar só o consegue através de uma certa obscuridade envolvente, do véu que lança sobre as suas motivações e actos, de um tudo-nada de «sagrado» que a torna impenetrável às massas. Trata-se de uma evidência que os governos «democráticos» não podem reivindicar, mas que, em contrapartida, é proclamada pelos reaccionários: indiferentes à opinião e ao consentimento das multidões, eles proferem sem pejo truísmos impopulares, banalidades inoportunas. Os «democratas» escandalizam-se, embora saibam que muitas vezes a «reacção» traduz os seus pensamentos mais recônditos, dá voz a alguns dos seus desenganos íntimos e a muitas certezas amargas que não podem declarar publicamente. Encurralados no seu programa «generoso», não lhes é permitido demonstrar o menor desprezo pelo «povo», nem se...

Ano zero

 

Palha-de-aço

Diz-se que a segunda volta das eleições presidenciais é uma espécie de «teste do algodão» entre aqueles que acreditam na democracia e os que, de forma activa ou por omissão, se estão nas tintas para ela. Mas talvez já tenhamos ultrapassado a fase do algodão. As posições de vários altos dignitários da República são tão ambíguas e opacas, tão carregadas de uma gordura escura, que o teste exije um material menos delicado. Talvez palha-de-aço.

O neo-imperador da Europa

Um texto de Eduardo Sterzi: «A confirmar-se a cessão perpétua de partes do território da Groenlândia aos Estados Unidos, pode-se dizer que a Europa escreveu uma página até agora inédita da história do neocolonialismo. O mais espantoso no episódio é constatar que alguns "líderes" europeus parecem mesmo acreditar que, dobrando-se à violência norte-americana, conseguirão deter a sanha do psicopata Trump. Uma diversão extrema, nesse mundo que vai definitivamente pras cucuias (é por isso, aliás, que os EUA mais precisam da Groenlândia, para além dos "recursos" naturais da ilha: para garantir o domínio sobre os caminhos marítimos abertos pelo derretimento do gelo do Ártico graças à catástrofe climática em curso, alimentada sobretudo pelo mesmo país terrorista), será adivinhar qual o próximo território exigido pelo neoimperador da Europa. P. S. E há também outro aspecto importante desse episódio bizarro do neocolonialismo que dificilmente será ressaltado pela ex-grande imp...

Reflexão

Atribuir uma significação ao processo histórico, ainda que a fizessem surgir de uma lógica imanente ao devir, é subscrever, mais ou menos explicitamente, uma forma de providência. Pelo próprio facto de conferirem um sentido aos acontecimentos, Bossuet, Hegel e Marx pertencem à mesma família ou, pelo menos, não diferem uns dos outros no essencial, pois o importante não é definir ou determinar esse sentido, mas recorrer a ele, postulá-lo – e é isso que eles fazem. Passar de uma concepção teológica ou metafísica para o materialismo histórico é simplesmente mudar de providencialismo. Se nos habituássemos a olhar para além do conteúdo específico das ideologias e das doutrinas, veríamos que reivindicar uma em vez de outra não implica, de modo algum, qualquer esforço de sagacidade. Os que aderem a um partido acreditam que se distinguem dos que seguem outro quando, na realidade, desde o momento em que escolhem, todos convergem na essência, participam da mesma natureza e diferem apenas em aparê...

O chicote

Certo dia, comecei a escrever, sem saber que me tinha acorrentado a um senhor, sem dúvida nobre, mas inclemente. Quando Deus nos concede um dom, dá-nos também um chicote; esse chicote destina-se unicamente à autoflagelação… Era extremamente divertido ao princípio. Deixou de o ser, quando descobri a diferença entre escrever bem e escrever mal. Fiz, então, uma descoberta mais alarmante; a diferença entre escrever muito bem e a verdadeira arte; é subtil, mas cruel. E, depois disso, caiu o chicote. Truman Capote, Música para Camaleões . Tradução de Ersílio Cardoso.