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Mensagens

Traduzir Macedonio

Regresso a Macedonio Fernández. É a terceira vez em largos anos que tento «traduzir» um dos seus livros. Desisti duas vezes quando já tinha «passado» para português muitas dezenas de páginas. É o autor mais difícil que conheço. O Macedonio escreve propositadamente mal: inventa termos que às vezes roçam o mau gosto, repete palavras e ideias sem nenhuma necessidade, usa uma pontuação displicente, estica as frases até ao limite do suportável, e finge embrulhar as histórias em sistemas filosóficos muito peculiares. Este género de escrita «desajeitada», «canhestra», que em Roberto Arlt é talvez involuntária, é uma escolha, uma questão de estilo em Macedonio. Um estilo que no original tem uma potência explosiva e que em português parece confuso, errático, impossível de acompanhar. Acontece o mesmo nas poucas traduções que existem para outras línguas. É difícil o tradutor resistir à tentação de torcer o texto para «soar melhor» ou torná-lo «mais compreensível». Enfim, nada é certo numa traduç...

A actualidade do teatro está no fazê-lo

Ricardo Braun, na mensagem semanal da Livraria Aberta, a propósito de um Tchékhov «actualizado» que está em cena, por estes dias, numa sala de Lisboa: «Ando nisto há mais de quinze anos (cada vez menos) e se há coisa que me enerva no teatro em Portugal, ou na maneira como se fala de teatro e se justifica o fazer-se e o ir-se ao teatro, é esta mania, esta necessidade de vender os espetáculos com palavras do jornal das oito. Como se houvesse outra opção no teatro que não fazê-lo aqui e agora. A atualidade do teatro está no fazê-lo. Se tivermos sorte, as pessoas que vão ao teatro são as mesmas que andam no resto da vida, no resto do tempo.» Mensagem completa aqui .

Tentação do sistema

Já não me lembro por que motivo certo dia recebi a visita de um pobre-diabo de um funcionário. O seu ar a um tempo estranho e vulgar intrigou-me. Falámos disto e daquilo. Depois, a discussão centrou-se na situação da França, que o meu interlocutor achava deplorável. «Entre nós, nada funciona – disse-me ele. – E sabe porquê? Eu digo-lhe: é por causa do vinho. E digo-lhe mais: nas minhas horas vagas, dedico-me à gramática. Pois bem, o nosso pretérito imperfeito do conjuntivo é estúpido e inútil. Os ingleses não o têm; eles não bebem vinho!» Estaria perante um louco? Abordámos outros temas: catolicismo, inflação, colónias. Ele tinha resposta para tudo: possuía uma ideia . Pela primeira vez na história, o vinho era elevado à dignidade de um princípio de explicação universal.  Enquanto o meu visitante me explicava o seu sistema, eu pensava em... Hegel, na sua forma de recorrer, em qualquer circunstância, aos bons ofícios do Espírito. Pensava também que um sistema não era senão a vitória...

Dos jornais L

“Por cada barragem colonial, hospital colonial, escola colonial, por cada construção de estrutura de esgotos, sanitária, etc., devemos ter em atenção os homens, as mulheres e as crianças que as construíram”, sublinhou. Para a investigadora, a celebração de edifícios icónicos, como a sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, deve incluir o reconhecimento do sacrifício de quem os construiu.  “Não devemos apenas falar do arquiteto, do dono da obra ou de quem a financiou. Devemos dar um lugar na história do edifício aos trabalhadores. O carpinteiro tem uma responsabilidade equivalente à do arquiteto”, afirmou.

Do velho Carl Jung:

«Libertem-se os instintos do homem civilizado! O apaixonado pela cultura acredita que daí flua autêntica beleza. Este erro baseia-se numa falta profunda de conhecimento psicológico. As forças instintivas, contidas no homem civilizado, são altamente destrutivas e, de longe, bem mais perigosas do que os instintos do primitivo que vive sempre modestamente os seus instintos negativos. Por isso nenhuma guerra do passado histórico pode rivalizar em atrocidade com a guerra das nações civilizadas. Não devia ter sido diferente entre os gregos. Foi exatamente a sensação viva do horror que os levou gradualmente a uma reconciliação do dionisíaco com o apolíneo, “por um milagre metafísico”, como diz Nietzsche.» Tipos Psicológicos , trad. Lúcia Mathilde Endlich Orth.
O terrível verdor de Fritz Haber, no fim do texto de Benjamín Labatut, dá uma guinada kafkiana ao sonho de Hölderlin: a terra há-de brilhar verde, mas não para nós.

Um dia perfeito para traduzir «Urgência do deserto»

29 de Outubro  Acabo de escrever um pequeno texto sobre – ou melhor, contra – a imagem para uma obra colectiva que podia ser assinado pelo mais ortodoxo dos crentes. E, no entanto, nunca estive tão longe de uma conversão ao que quer que seja. Trata-se de um «acesso» místico, de um estado febril que de vez em quando toma conta de mim. Emil Cioran, Cadernos 1957-1972 *** Urgência do deserto  O espírito que se volta para a nudez sente repugnância pelos fingimentos que lhe recordam este mundo do qual se quer separar. Não conhece senão exaspero diante do que existe ou parece existir. Quanto mais se desviar das aparências, menos necessitará dos sinais que as realçam ou dos simulacros que as denunciam, ambos nefastos à procura do que importa, do que se esquiva, desse fundo último que exige, para ser apreendido, a ruína de toda a imagem, mesmo espiritual. Privilégio maldito do homem exterior, a imagem, por mais pura que seja, conserva um resquício de materialidade, um tudo-nada de ...
Passar de Ursula K. Le Guin para Benjamin Labatut é como responder ao serviço – quer dizer, um verdadeiro gesto godardiano. Comme au tennis, il faut être deux pour se faire renvoyer la balle .

No sentido tradicional do termo

A pessoa liga a rádio e põe o café a fazer. A primeira coisa que ouve é uma comentadora a garantir ao auditório: «O António José Seguro é um homem bom, no sentido tradicional do termo.» A pessoa ainda não tomou café. A pessoa pensa: «O que será um homem bom, no sentido, digamos, moderno do termo?»

Mensagem

Acompanhamos a chamada «noite eleitoral» através da televisão pública. Três ou quatro horas de emissão. A única falha aconteceu no directo a partir da sede do Livre. A imagem dos porta-vozes do partido apareceu desfocada, o discurso aos soluços, as ideias com omissões, como se estivessem a transmitir uma mensagem de um planeta longínquo.

O torno do céu

Há várias versões portuguesas de The lathe of heaven : O flagelo dos céus (Europa-América, 1983); O tormento dos céus (Presença, 2004); Do outro lado do sonho (Edições 70, 1991 e Relógio d’Água, 2024); A curva do sonho (Editora Morro Branco, 2019).  Ursula K. Le Guin foi buscar a palavra lathe a uma passagem de Chuang Tzu* que, veio a saber depois, era incorrecta, pois não havia tornos na China no século IV a.C. Construída sobre um (belo) erro de tradução, a imagem do título é não só extremamente poderosa e assustadora, mas também justa ao romance – parece um instrumento de tortura do passado e do futuro feito de propósito para o atormentado George Orr. Não consigo perceber o que levou os tradutores a afastarem-se do torno e até do céu. * Those whom heaven helps we call the sons of heaven. They do not learn this by learning. They do not work it by working. They do not reason it by using reason. To let understanding stop at what cannot be understood is a high attainment. Those wh...

Parece que cai do céu

Chuva, vento, cheias, telhados pelo ar, lama entre os quartos e a cozinha, trânsito de barcos nas ruas, gente desesperada e sem nada. Não há Governo. É preciso culpar alguém para apaziguar a fúria dos deuses, queimar bruxas, crucificar estrangeiros. As televisões estão prontas, as câmaras ligadas e em directo. O poder à extrema-direita parece que lhe cai do céu.
 
I'm a cruise ship designer / I'm striking while the iron is hot / I'm making the most of a bad situation / Cruises are big business / ...

Sim-socialista

Dos jornais XLVIII - correcção

Em vez de «aqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida», o Primeiro-Ministro devia ter dito: «aqueles que falharam em evitar a morte». Assim, percebia-se melhor por que é que devemos estar sempre do lado dos falhados e contra discursos cínicos.

Babel

A lavandaria do bairro está cheia de gente. Velhos e novos vizinhos vindos de longe, com sacos de supermercado atulhados de roupa, esperam a vez. Peças de todos os tamanhos, feitios e cores, às voltas dentro das máquinas. Espantosa babel das línguas, cuecas e meias.

Vai ficar tudo mal

 

O homem de bem é um gângster

«O homem de bem é o gângster da virtude», atira uma personagem de Nelson Rodrigues, em O Casamento . «A frase lhe escapara, e sem nenhuma premeditação. Mas gostou do som.» Duas ou três linhas depois, a personagem começa a duvidar da formulação. E acrescenta para si mesma: «Talvez fosse mais exacto dizer: O homem de bem é um gângster.»

Optimistas com a morte na alma

(...) A autoridade tem de assentar em algum mistério ou fundamento irracional para se manter? A «direita» diz que sim, a «esquerda» diz que não. Diferença puramente ideológica; na verdade, qualquer ordem que quer durar só o consegue através de uma certa obscuridade envolvente, do véu que lança sobre as suas motivações e actos, de um tudo-nada de «sagrado» que a torna impenetrável às massas. Trata-se de uma evidência que os governos «democráticos» não podem reivindicar, mas que, em contrapartida, é proclamada pelos reaccionários: indiferentes à opinião e ao consentimento das multidões, eles proferem sem pejo truísmos impopulares, banalidades inoportunas. Os «democratas» escandalizam-se, embora saibam que muitas vezes a «reacção» traduz os seus pensamentos mais recônditos, dá voz a alguns dos seus desenganos íntimos e a muitas certezas amargas que não podem declarar publicamente. Encurralados no seu programa «generoso», não lhes é permitido demonstrar o menor desprezo pelo «povo», nem se...

Ano zero