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Mensagens

No prelo

Lançamento no Fundão .

Molly Sweeney

Numa pesquisa online sobre Molly Sweeney , a peça de Brian Friel, encontro o sítio de uma dramaturga chamada Molly Anne Sweeney: «This is the website for Molly Anne Sweeney , scriptwriter, not Molly Sweeney, the play.» Após certas noites mais penosas, a autora continuará assim tão certa de não ser a personagem de Brian Friel?

Exercícios de cordialidade.

Era uma vez uma inabalável lua de mel que não durou para sempre, entre um autor que escrevia mal e leitores que não sabiam disso. Tinha alguma importância que ele escrevesse mal se isso nunca se viesse a saber? Pois bem, um dia atiraram uma pedra contra essa placidez de candor. Aquela porção de público inocente abandonou-o; procurou outro autor. Mas onde encontrar hoje alguém que escreva mal, se escrever bem é a primeira coisa que o principiante faz e aprende-o em três ou quatro meses? É uma pena que se prive o autor de um público que não sabe que ele escreve mal. «Escrever bem» corresponde hoje ao que antes era a «caligrafia bonita». É tão vulgar que fugimos disso a sete pés, e se não lhe escapamos é porque o sono nos entorpeceu. O leitor comum que, nos nossos dias, encontre alguém que escreva mal, não o larga mais, porque não encontrará outro; em contrapartida, são incontáveis em toda a América os que escrevem bem. Mesmo em França, creio, já se está num novo «escrever bem», diferente...

Música de câmara

Il est mort le soleil  (Nicoletta), Vanda e Zita discutem, sons da televisão (noticiários, telenovelas, concursos, canções…), pássaros, muitos pássaros, elas fumam, o vento nas folhas da árvore, marteladas, tijolos e vidros a cair (a demolição do bairro), fungadelas, o telefone toca, as muletas do Paulo Nunes, crianças a  brincar, um pedacinho de uma peça de Webern, « quer alface e couve?  quer alface e couve? », Vanda tosse muito, o som áspero dos isqueiros, alguém varre, rapazes a falar em voz baixa, risos, fogo a crepitar, Vanda trauteia Bach, lamúrias, o russo raspa a mesa, a Vanda raspa as páginas amarelas, crianças a chorar, a canção da gata Grizabella ( the last twist of the knife ) , alguém despeja água, uma festa, elas riem-se, um apito, a campainha da bicicleta, tantas confissões, I’ve got the power , uma mota ao longe, Officium breve in memoriam Andreae Szervánsky , de Gyorgy Kurtág.

Um coração seco

A cliente, na frutaria, escolhe uma couve coração. Segura-a com uma mão e com a outra arranca, em dois ou três golpes rápidos, algumas folhas meio secas. A empregada: «A senhora não pode arrancar as folhas. Não leu o aviso?» Há um aviso colado à parede: «É proibido arrancar folhas.» O marido da cliente, um pouco acanhado e a meia-voz: «És sempre a mesma coisa. Já sabes que não podes fazer isso.» A cliente: «Estas folhas estão secas. Não vou levar para casa um coração seco.»

Les années Lumière

Ao ver alguns dos filmes feitos pelos Lumière , fico espantada com a sua extrema beleza. Como é que o cinema perdeu esse olhar limpo (e democrático) sobre as pessoas e as ruas? Essa alegria que se confunde com a própria vida?

Era o dia da festa, Maio de amores

As comemorações continuam no domingo .

Orientação emocional, estética e existencial

Numa agenda online dedicada a acontecimentos culturais no Porto, o anúncio da apresentação da antologia de poemas de A. Dasilva O., E a Poesia Dá à Luz uma Bússola Louca , é um exemplo de delírio induzido pela Inteligência Artificial. O livro é descrito como «um instrumento de orientação emocional, estética e existencial» . E o «evento», isto é, a apresentação da antologia, como «uma tarde dedicada à poesia, ao diálogo literário e à celebração da palavra escrita, num ambiente intimista e de proximidade entre autores e público». Na verdade, faz sentido: para a Inteligência Artificial todos os livros são de auto-ajuda e todos os encontros são intimistas.

Mais de vinte

Um folheto distribuído por uma igreja evangélica apresenta o «testemunho» de uma mulher chamada «Mónica» que «fez mais de 20 tentativas de suicídio». Se somos assim tão simplórios e fáceis de convencer, merecemos o inferno de todas as igrejas, de todos os deuses de vão de escada, de todos os intrujões, curandeiros e chefes da extrema-direita deste mundo e do outro.
«Nada está no seu lugar» – refrão das emigrações e, ao mesmo tempo, ponto de partida da reflexão filosófica. O espírito desperta em contacto com a desordem e a injustiça: o que está «no seu lugar», o que é natural, deixa-o indiferente, entorpece-o, ao passo que a frustração e a espoliação lhe convêm e animam-no. Um pensador enriquece-se com tudo o que lhe escapa, com tudo o que lhe é roubado: se vier a perder a pátria, que fortuna!   Exercícios de Admiração – Ensaios e Retratos, de Emil Cioran, Gallimard, 1986.

Acumuladores

A meio da conversa, uma amiga pergunta: «Qual é a diferença entre os acumuladores, que enchem a casa até ao tecto de coisas sem utilidade, sacos de supermercado, jornais, latas, sapatos e roupa velha que encontram no lixo, e os outros, os super-ricos, que acumulam dinheiro, casas, carros, naves espaciais? O tipo de patologia não é o mesmo?»

Antiteatro

O psicodrama usa a gramática do teatro para fins terapêuticos relacionados com a saúde mental, mas não é teatro. No teatro, representamos o papel de outros; no psicodrama, representamos o nosso próprio papel. No teatro, colocamos uma máscara; no psicodrama, retirámo-la. Nesse sentido, o psicodrama é uma espécie de antiteatro. No entanto, muito do teatro que se faz hoje é, digamos, autobiográfico. Há um número muito significativo de criações para o palco que recorre directamente a referências, acontecimentos, memórias e traumas pessoais dos artistas. Se o psicodrama não é teatro, o teatro parece ser o palco para muitos psicodramas. O teatro está a canibalizar o psicodrama.

Um poeta

Leitura em grupo de Bruscamente, no Verão Passado , de Tennessee Williams, no auditório de uma escola artística do Porto. Cena Um. A Sr.ª Venable descreve ao Médico que o filho, Sebastian, morto em circunstâncias trágicas no Verão do ano anterior, «era um poeta». Um poeta? Sim, «escrevia um poema por ano». Um leitor jovem, ao meu lado, desata a rir. E está certo.

cês

Para traduzir as cartas de Sandor Krasna  – caramba, este nome é uma bela criação de Chris Marker! –, ousei recorrer por duas vezes à delicadeza de Camilo Pessanha. A tradução também tem momentos de grande vaidade.

Um cesto de batatas

O Angelus , de  Jean-François Millet : um camponês e sua mulher, de mãos postas, cabeças baixas, rezam em um campo de trigo, diante de um cesto de batatas. Quando se passou o quadro de Millet pelo raio X, descobriu-se, sob o cesto de batatas, a mágoa do pintor: havia ali o ataúde de uma criancinha. Millet conta em suas memórias que, quando quis expor o seu quadro com a criança morta, um amigo aconselhou-o a mudar o motivo, por ser muito triste e difícil de vender. Mais que depressa Millet recobriu o pequeno ataúde com um cesto de batatas. E Dali, quando lhe contaram a história disse logo: "Eu sempre pressenti a morte de uma criança nesse quadro." Anne Ancelin Schutzenberger, Meus Antepassados . Tradução José Maria da Costa Vilar.

Dos jornais LV

No domingo, Edward Warchocki foi filmado a afugentar um grupo de javalis numa rua de Varsóvia.