Gosto tanto quando a Chantal não se preocupa em contar uma história e arrisca fazer um filme fragmentado – é quando ela é mais livre e efervescente . Toda uma Noite mostra-nos os apelos amorosos de uma noite quente de verão em Bruxelas. A cidade transforma-se num enorme estúdio de cinema, mas as personagens fogem aos guiões habituais e andam de um lado para o outro: encontram-se em cafés ou na rua, esperam, bebem, fumam, correm, regressam, separam-se, sussurram, agarram-se, dançam ao som das canções românticas das jukeboxes (já se nota a influência de Pina Bausch) , apanham um táxi, vão para casa, vão para um hotel. Os pares fazem-se e desfazem-se sem razão e quase sem palavras. Natalia Akerman aparece a fumar um cigarro à porta de casa – elegantíssima como é habitual e como todas as mulheres do filme –, uma voz chama «mamã», ela guarda o isqueiro dentro do maço e vai para dentro. Há umas crianças que saem sorrateiramente de casa, sabe-se lá para onde. A câmara não tem medo da noite...
Bicho ruim
de Cristina Fernandes e Rui Manuel Amaral