Já não me lembro por que motivo certo dia recebi a visita de um pobre-diabo de um funcionário. O seu ar a um tempo estranho e vulgar intrigou-me. Falámos disto e daquilo. Depois, a discussão centrou-se na situação da França, que o meu interlocutor achava deplorável. «Entre nós, nada funciona – disse-me ele. – E sabe porquê? Eu digo-lhe: é por causa do vinho. E digo-lhe mais: nas minhas horas vagas, dedico-me à gramática. Pois bem, o nosso pretérito imperfeito do conjuntivo é estúpido e inútil. Os ingleses não o têm; eles não bebem vinho!» Estaria perante um louco? Abordámos outros temas: catolicismo, inflação, colónias. Ele tinha resposta para tudo: possuía uma ideia . Pela primeira vez na história, o vinho era elevado à dignidade de um princípio de explicação universal. Enquanto o meu visitante me explicava o seu sistema, eu pensava em... Hegel, na sua forma de recorrer, em qualquer circunstância, aos bons ofícios do Espírito. Pensava também que um sistema não era senão a vitória...
Bicho ruim
de Cristina Fernandes e Rui Manuel Amaral