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Mensagens

A vida na Terra

Fomos ver Drive my Car , de Ryûsuke Hamaguchi. Sob a fina película do filme - a pele do filme? -, um número incontável de histórias cresce em todas as direcções. Cada personagem tem sete vidas, muda sete vezes de máscara, voa de um palco para o outro, exprime-se na sua própria língua. E, no entanto, tudo parece perfeitamente claro e transparente. Tudo está iluminado, como num milagre, como numa peça de Tchékhov. Parece que nada nos escapa, de que percebemos tudo, porque a língua do milagre, a língua de Tchékhov, é a grande língua comum, universal, o esperanto da alma e dos sentimentos. Nada mais ilusório.

Schöne Welt, wo bist du?

Se a Sally Rooney fosse portuguesa, o João Pedro George já a tinha esfrangalhado (i.e., exposto as fragilidades, o fastio e o tremendo emproamento) nas páginas da Sábado. Podíamos rir um bocado, coisa que as personagens não sabem fazer (nem a própria Sally Rooney, desconfio), e já não se perdia tudo.  Sempre que um livro encaixa nesse conceito foleiro de escrita geracional ou é canalizado, imediata e apressadamente, para as adaptações televisivas, é sinal que o princípio activo da literatura está em falta. Por mais influências sonantes que se apregoem. Aliás, às vezes até são as influências que dão cabo do trabalho (?) (ver o modo como Sally Rooney chegou ao título).

O Contador

Hoje voltei a vê-lo. Quando o metro pára na estação da Lapa, ele percorre a plataforma ao longo das carruagens, espreita pelos vidros e faz anotações num caderno. Não tem tempo para contar as pessoas, por isso calculo que os apontamentos são vagos. Haverá alguma empresa que se interesse por essas informações não exactas? Ou será que ele é um maníaco que trabalha por conta própria?

Anexos sanitários

A arte contemporânea é uma zona sacrificial que absorve todas as correntes envenenadas que aparecem incessantemente e pelas quais toda a gente seria infectada. Pensa-se que é um campo alternativo, mas na realidade é um dos anexos sanitários da cultura de massas, como, por exemplo, uma fábrica com anexos técnicos que asseguram a evacuação das águas contaminadas (...) Parece-me que a a arte contemporânea desempenha exactamente esse papel: as ideias e as imagens potencialmente perigosas são para aí canalizadas, e tudo funciona perfeitamente. É um mecanismo de evacuação, e os artistas ficam com a ilusão de ser uma alternativa, de se opor à cultura de massas, quando na realidade eles são uma função dela, os seus cuidadores. Pavel Pepperstein, citado por Jovan Mrvaljevic, na revista Electra  n.º 14. Tradução de António Guerreiro.

(not me)

O eu mais sofisticado (válido para sentido figurado e pouco usado) é o que escreve no blogue. Pensa que está dentro de um filme realizado por um mestre.  Colocá-lo na terceira pessoa é uma forma espontânea de o tramar.
No mesmo dia em que Rui Rio ganhou as eleições internas do PSD, o filme Distopia , de Tiago Afonso, foi premiado no Porto/Post/Doc.  Os antigos chamavam a estes sinais, augúrios ou auspícios — uma espécie de aviso dos deuses. Mas os políticos deixaram de perscrutar o movimento dos pássaros há muito tempo.

Seis da tarde

Às seis da tarde é quase noite cerrada. O empregado do Vitória baixa discretamente a luz dos candeeiros. Há três gatos pingados a ler na sala que dá para a rua. A esta luz parda de velório, é impossível decifrar as letras no papel. Fecho o livro, pago o café e saio. É a vez da grande sombra pôr os óculos e ler-me a mim: «Era uma vez um fantasma com calças a caminho de casa.»

Two Rode Together

Só agora, ao rever o filme, é que me apercebi que Guthrie McCabe/James Stewart e Jim Gary/Richard Widmark representam John Wayne a meias. (Refiro-me a John Wayne como conceito cinematográfico, o que mexe maravilhosamente a bacia no Pólo Norte .)  Esta ideia também serve para ler o título de outro modo. Se continuar, ainda chego à conclusão que Ford, para além de fazer westerns , também se entretinha a desconstruir personagens e outras actividades meta-ilícitas.

Suspensão

É uma belíssima antologia de poemas traduzidos para português. Poemas de dezenas de autores, de origens e épocas diferentes. Para cada autor, existe uma pequena referência ao ano de nascimento e ao ano da morte. Nos casos de autores vivos, além do nascimento há um espaço em branco com reticências no lugar da morte. Um espaço para preencher mais tarde. Talvez amanhã, talvez hoje mesmo, talvez dentro de muito tempo. Talvez o poeta consiga manter o espaço em branco e prolongar as reticências, escrevendo mais um poema. E outro, e mais outro, e outro ainda.

Striptease

As tílias da Lapa despem-se longa e demoradamente. Todos os dias, mais um pouco. O ar está carregado de electricidade e folhas amarelas. Na fachada da igreja, os santos de pedra, vestidos até ao pescoço, observam e guardam segredo. Vão arder por dentro até o Inverno chegar.

Lar doce lar

Um plano do filme Distopia , de Tiago Afonso: um grupo de moradores do Bairro do Aleixo, no Porto, assiste à implosão, ao longe, do prédio onde viviam; ao lado, um painel publicitário com o anúncio de uma marca de artigos de decoração com o título «Lar doce lar».

Ferro-velho

Esta noite sonhei que fui ao cinema ver um filme de Pedro Costa. Como é habitual nos sonhos, era tudo pouco credível e montado às três pancadas: cheguei atrasada à sessão, sentei-me na última fila, a sala parecia um armazém abandonado (influência de Desnos?) com sofás desconchavados em vez de cadeiras, discuti com um tipo qualquer já não sei porquê.  Só me lembro vagamente de um ou dois planos do filme (por precaução, o sonho eclipsou o resto), mas pela quantidade de luz aquilo não parecia nada um trabalho de Pedro Costa. A única coisa real — quer dizer: que transmite alguma linha de pensamento material— aconteceu no fim. Quando dei por mim estava a conversar com Pedro Costa; não dissemos nada sobre o filme nem sobre cinema, falámos sobre ferro-velho.

Porto cosmopolita

Os cartazes da União Proletária do Porto colados junto à estação de metro do Campo 24 de Agosto são de influência soviética: papel vermelho sangue de boi com impressão de um punho — cerrado erguido — a preto     Na estação da Trindade, as folhas secas no chão demonstram a influência do Japão na arquitectura de Souto Moura.

Ideais

VALÉRIO: Ah, senhor, isto sim, é sentir a natureza! Esta erva está tão linda, que gostaria de ser boi para a devorar e, depois, de ser outra vez homem para devorar o boi que devorou a erva. LEÔNCIO: Infeliz! Afigura-se-me que também vós sois vítima de ideais. VALÉRIO: Oh, meu Deus! Há já oito dias que ando a correr atrás de um ideal de carne de vaca, sem conseguir encontrá-lo em parte alguma da realidade. Georg Büchner, Leôncio e Lena . Tradução de Renato Correia.

Мода и вышивка

Uma das coisas que mais aprecio nos livros antigos que seguem as hierarquias literárias, são as relações entre autor, narrador(es) e personagens. É engraçado ver os que têm mais poder na história troçarem ou pregarem partidas às personagens principais, mas também tem piada quando se põem do lado do protagonista e destroem uma personagem afectada logo à primeira entrada em cena só com meia dúzia de palavras bem colocadas.  É o que acontece a Herr Karl Kluber, noivo da bela Gemma, em Águas da Primavera , de Ivan Turguénev. Quando ele vai visitar Sánin — e apesar de, na página anterior, Sánin ter ficado abalado ao saber que Gemma estava noiva — , é o narrador extradiegético quem se encarrega de lhe destruir o, digamos assim, retrato. São três parágrafos cómicos e demolidores sobre as propriedades morais e têxteis de Kluber que culminam na frase: Este homem tem camisa e qualidades espirituais de primeira categoria!

Déglacer une poèle

Talvez porque pedem mais mão que cabeça, quando estou a executar tarefas domésticas repetitivas (fazer a cama, passar a ferro, cortar legumes, etc.), tenho tendência para me perder em raciocínios abstractos. Já atingi o ponto em que esses pensamentos se debruçam sobre a própria acção de pensar. Ainda hoje, enquanto preparava o jantar, tentei perceber se será possível aplicar a técnica de deglaçar uma frigideira à construção de um conceito para o tornar mais profundo e denso.  Não cheguei à resposta — nunca chego, aliás —, mas talvez seja uma questão de língua, talvez esse gesto intelectual só funcione em francês.

Quilómetros

Sábado. Gostava de conseguir escrever sobre O Menino da Ama , o magnífico filme de Tomotaka Tasaka, que vi ontem à noite. Andei quilómetros à procura de uma ideia, uma frase, uma palavra. Nada. Não consigo. Parece que me faltam vértebras, parece que tenho nuvens em lugar dos ossos.

Japoneses desconhecidos

Ontem fui ver Cada Um Na Sua Cova , de Tomu Uchida. À minha direita estava uma mulher japonesa de idade indefinida, vestida quase como eu. — Deve ser a minha dupla japonesa . No fim do filme senti-me tentada a segui-la, mas desisti. Pode ser que a encontre de novo hoje.
Custa-me aceitar o título “A Submissa” . (Não é uma questão semântica.)