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Mensagens

Anos de chumbo

Nos meus anos de chumbo não houve bombas, balas, rusgas policiais, brigadas vermelhas, fugas de informação, prisões, torturas, traições, greves de fome, palavras de ordem, saídas de incêndio, ferro, fogo. Não houve nada nos meus anos de chumbo. Apenas a sombra cinza e insuportável do vazio.

Platte!

Práticas diletantes em ambiente germânico

Consigo compreender a linguagem em ponto morto ou de férias, mas custa-me vê-la como uma caixa de ferramentas. Tenho uma noção bastante sólida da palavra “ferramentas” (martelo, alicate, serra, chave de fendas), imagino-a pesada ou afiada e não encontro essas propriedades na linguagem, nem sequer no alemão.

A linguagem cotidiana descamba sempre; tem uma consistência gelatinosa e pegajosa.

Por isso leio as investigações de Wittgenstein essencialmente como lances místicos.
Transformar a linguagem em ferramenta ou até mesmo arma para desactivar a filosofia talvez seja possível mas só depois de levitar um bocadinho. Quanto?

Um limão

Passagem de uma entrevista de Luis Camnitzer ao jornal Público:

Qual é o lugar da beleza?
Para mim, beleza é mediocridade.
Acredita mesmo nisso?
Sim. A beleza é baseada numa média. (...) É uma generalização e não permite as singularidades. Nesse sentido, é medíocre, porque é uma média. Não há nada que nos perturbe quando vemos uma coisa bonita.

Lembrei-me de um limão “defeituoso”, que colhi este fim-de-semana, na aldeia dos meus pais. O mais belo fruto que o velho limoeiro produziu este ano.



that clarity and simplicity that I looked for

Li o “Manual para Mulheres de Limpeza” nas férias de natal. Não se tratou de uma leitura vulgar, havia sofreguidão e dor — usei o livro como paliativo. Até resultou bem, algumas das frases pareciam ora flechas ora bálsamos e por isso estarei sempre grata a Lucia Berlin. Mas consolo e reconhecimento não servem para escrever uma crítica. Na altura rabisquei apenas uma nota zangada sobre os textos da contracapa e ainda não sei quando regressarei a Lucia Berlin.

Apenas para lhe dar mais espaço do que uma fotografia, porque ela merece tanto, fica a ligação para esta entrevista onde Lucia explica melhor essa coisa das influências (mais subtil do que a chapa cinco dos editores e de alguns críticos).

 KP: But many of the people you talk about that you’ve read don’t really seem to have influenced your writing.

LB: No, influences were young poets like Ed Dorn and Robert Creeley. In the years when I was young, the emphasis was on writers like William Carlos Williams, writing in the clearest, simpl…

Influenciadores do século XX

Nem um sopro de vida

As minhas ideias políticas mais importantes vêm de textos e filmes clássicos (Sófocles, John Ford, Kleist, Büchner, por aí fora), de um filme de Buñuel, do livro do Genet sobre Giacometti e, se não me engano, d’ O Sobrinho de Wittgenstein. Passo os olhos pelos programas eleitorais (não os consigo ler na íntegra); parecem chicletes velhas.

Como na evolução

Referindo-se a Czernowitz, companheiro de Benjamin, Peter Weibel acrescenta ao «Princípio de Constelação» e ao «Princípio Esférico» do acto de narrar (em todas as artes, isto é, também na música) o princípio das «Transcrições Permanentes». Assim, na Idade Média, por exemplo, um monge dedicar-se-ia a copiar textos, em cada transcrição surgiriam pequenos erros, no final haveria (como na evolução) um novo texto. Os autores modernos deveriam pois escrever por cima de esboços mais antigos, por exemplo, as «Afinidades Electivas» de Goethe ou o «Quarteto» de Heiner Müller, de modo a que, com o tempo, daí resultasse um «desfecho mais feliz das tristes histórias». Assim sendo, a modernidade não consistiria em algo de novo, mas antes na transcrição de uma história prévia com vista a um fim melhor.

Alexander Kluge, Crónica dos sentimentos, Vol. I. Tradução de Bruno C. Duarte.

Influenciadores do século XX

Abrir os olhos

Ainda está por estudar a importância dos autocarros na politização das senhoras da limpeza. É aí que estas mulheres se encontram e conversam sobre as suas condições de trabalho, comparam ordenados, discutem a legislação laboral. É um movimento espontâneo, dura o tempo de uma viagem, não tem a força dos sindicatos, mas é um princípio e uma vontade contra a exploração. Como elas dizem, serve para abrir os olhos.

Grafíti

O grafíti que alguém tinha pintado na parede do outro lado da rua desapareceu. Veio a brigada da câmara e pintou por cima. Agora é uma simples parede de um monótono e amnésico azul. Enquanto fumo um cigarro à janela, olho com mais atenção e vejo a sombra nítida do velho grafíti por detrás da tinta camarária. Não há como evitar: parece um fantasma preso para sempre à parede, mais visível do que nunca.

A imaginação dos poetas

O prazer sexual só foi objecto de uma experimentação e de uma descrição sistemática com o Marquês de Sade, fonte de classificação médica mas motivo de escândalo duradouro. A sua biografia prova todavia que o avanço do pensamento científico não se deve menos à imaginação dos poetas do que à investigação em laboratório. Pois o que é difícil de resolver e ultrapassar não são tanto as dificuldades materiais mas antes as barreiras mentais.

Saguenail, O acaso abolido.

I am the Walrus

— Oh, Scheiße, ich habe den Falschen ausgewählt.

Ulisses

Na empresa onde trabalho, quando um «colaborador» regressa de umas curtas férias de duas semanas, troca beijos e abraços aliviados com todos os colegas, como um Ulisses que tivesse vivido as mais extraordinárias aventuras em dez longos anos de navegação. As fotografias nas redes sociais e o rosto bronzeado são as provas irrefutáveis dessas odisseias.

Filme

Os miúdos passam em frente à esplanada do café, plantados em cima de pranchas de skate. Ora lentos, ora rápidos, ora assim-assim. Uns trapalhões e pesados, outros mais leves e elegantes, como se flutuassem. E passam para um lado e depois para o outro. Todos de auscultadores nos ouvidos, sem excepção. Parece um filme cuja banda sonora só eles conhecem.

Influenciadores do século XX

A CMTV dá primeiro

Oito da manhã. Vou à confeitaria ao lado de minha casa comprar dois pães e espreito a televisão. Há um directo. O título grita em letras vermelhas: “A CMTV dá primeiro.” As imagens mostram vários bombeiros em volta de um carro desfeito. Tentam desencarcerar a vítima de um acidente de viação que ocorreu há minutos numa via rápida de Lisboa. O plano é próximo e os clientes da confeitaria podem acompanhar os “trabalhos” sem perder nenhum pormenor. E enquanto os bombeiros tentam arrancar, a ferros, uma pessoa do fundo de um carro, o empregado rodopia por entre as mesas, guardanapos e pacotinhos de açúcar voam do balcão, alguém mastiga calmamente o croissant com manteiga (hoje um pouco mais queimado do que o costume) e eu confiro os meus quatro cêntimos de troco.

Novo horário de Inverno

Na estação de metro dos Aliados, os painéis informativos lembram que o “novo horário de Inverno” entra em vigor amanhã, 8 de Setembro. No interior da estação, a vinte metros de profundidade, o ar é fresco. No exterior, o Verão ainda estala sob uns inclementes trinta e tal graus. A velha máquina do mundo já não domina o tempo. O pensamento avança veloz para o futuro. O corpo arrasta-se em sentido inverso.

Influenciadores do século XX

A crónica não diz se ele disse ai!

Nada acrescento ao que dizem os cronistas. A crónica diz: ele perde a mão, cortam-lhe a outra mão, segura o estandarte com a boca. É capturado. A crónica não diz se ele disse ai!, se sofreu, se chorou. Não fornece anotação emocional. Então eu também não a ponho, porque não está lá. Todos os actos históricos no filme vêm das palavras dos cronistas.

Manoel de Oliveira, a propósito de Non, ou a vã glória de mandar.

Exorcismo exemplar

O autocarro inteiro atento à conversa das duas enfermeiras. A mais velha contou o caso do homem que enfiou um picador de gelo no ouvido para afastar os demónios. Correu bem. O otorrino retirou o objecto — vinte centímetros — sem danos. O homem deixou os demónios no hospital.

Prova de pertença

Inscrição

Aquelas pessoas que escrevem um nome, uma frase, uma declaração de amor no cimento ainda fresco. Qualquer coisa que perdurará anos, décadas, até à próxima campanha de obras públicas ou até à próxima guerra. Passamos pela inscrição todos os dias e já não damos por ela. É como se não existisse. Exactamente como certos livros nas bibliotecas.

Quando se entra em altitude

— Agora o jardim é a sua obra em curso?

— Sim, mas agora o jardim está por aí. Já não tenho força para pegar na mangueira e regar. Não é só ter de andar devagarinho... Eu não gosto do nome “velhice” e então inventei outra palavra que é “altitude”. Do alemão alt, idade. Quando se entra em altitude, é assim.


Lourdes Castro, entrevistada por João Pacheco.

Influenciadores do século XX

A poesia e o engate — outras cenas

Um dia talvez se possa afirmar que a recente transformação dos leitores em agentes de divulgação converteu a poesia numa potente arma de engate (regresso à sua efectiva natureza?)

A poesia tornada coisa útil para os outros, à revelia do autor, dos estudiosos e até, por vezes, da própria obscuridade.

Por exemplo: um verso de "O Amor em Visita" serve, pode servir, para levar uma rapariga ou um rapaz para a cama. Mas não para a cama de Herberto Helder.
Encontrei um mosquito espalmado e seco na página 75 de “Uma gata, um homem e duas mulheres". Não sei se devo classificar isto como dano físico ao livro ou elogio a Junichirō Tanizaki.

Instrumentos relacionados

No Bonfim um quilo de tomate coração de boi ronda um euro e pouco; no Bolhão, um e meio; em Miguel Bombarda, dois e meio; na padaria que abastece as sandes da Badalhoca (Ramalde), quatro euros. Em certo sentido sou parecida com os tipos que sabem as cotações da bolsa.