Neste livro, dediquei-me a traçar os mapas de um conjunto de filmes de John Ford, a reconhecer a sua topografia, os seus montes e rios, as suas cidades e, sobretudo, as vias de comunicação que tornam esses territórios transitáveis. Descrevo a morfologia, o organismo do animal, mas talvez não me tenha perguntado porque é que é assim. Todos os cineastas têm de «construir» o seu filme, e Ford não é diferente dos outros, mas parece ter uma particular lucidez sobre esta exigência. Se queremos converter um filme numa experiência para o espectador, se queremos torná-lo emocionante, talvez seja necessário fazê-lo memorável – a resposta pode estar aí. A construção fordiana pode ir nessa direcção de activar a memória. Se uma cena te aviva a recordação de outra, não é exagerado dizer que «vês» essa anterior duas vezes e, de certo modo, também a cena estímulo, porque o «decalque» a reforça. Assim, consolida-se a memória das duas. Chegamos, então, ao problema da importância da memória para c...
Bicho ruim
de Cristina Fernandes e Rui Manuel Amaral