Lenz sentiu um arrepio quando tocou nos braços gelados do cadáver e lhe viu os olhos vítreos entreabertos. A menina parecia-lhe tão desamparada, e ele próprio tão só, tão abandonado! Debruçou-se sobre o cadáver. A morte aterrorizava-o e sentiu-se dominado por uma dor violenta; aquela expressão angélica, aquele rosto calmo iam decompor-se, apodrecer... Caiu de joelhos; com toda a angústia e desolação do desespero, pediu a Deus que o iluminasse, lhe desse forças para realizar o milagre de ressuscitar a criança. Concentrou-se inteiramente em si próprio e fixou toda a sua vontade num ponto. Durante muito tempo assim se manteve, imóvel. Depois ergueu-se, pegou nas mãos da defunta e ordenou em voz alta e firme: "Levanta-te e caminha!" Só as paredes lhe responderam com um eco que parecia de troça; o cadáver continuou frio. Desorientado, perdido, deixou-se cair por terra e assim ficou. Finalmente, a angústia pô-lo de pé e expulsou-o para a montanha. Georg Büchner, Lenz . Tradução de ...
Bicho ruim
de Cristina Fernandes e Rui Manuel Amaral