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Mensagens

Suicídio exemplar

Philipp Mainländer enforcou-se na noite de 1 de abril de 1876, em Offenbach, poucas horas depois de ter recebido os primeiros exemplares da única obra publicada em vida: A Filosofia da Redenção . Há quem diga que usou uma pilha de livros acabados de imprimir como degrau. A imagem até pode ser apócrifa (é o mais provável), mas não evoca uma poderosa imagética católica?

C’est un grand jeu

(...) Le sujet anonyme séculier devra-t-il se satisfaire de la disparition de l’invisible, qui est désormais le présupposé de la vie commune ? C’est là qu’est la ligne de partage.  Si l’essentiel n’est pas de croire, mais de connaître comme l’exige toute gnose, il s’agira de s’ouvrir un chemin dans l’obscurité en usant de n’importe quel moyen, dans une sorte de bricolage incessant de la connaissance, sans disposer d’aucune certitude sur le point de départ et sans pouvoir davantage imaginer inclure un quelconque point d’arrivée. Telle est la condition à la fois humble et exaltante dans laquelle est plongé celui qui n’appartient aujourd’hui à aucune confession, tout en se refusant à accepter la religion — ou plus exactement la superstition — de la société.  C’est une voie difficile, sans nom ni point de repère qui ne soit crypté et strictement personnel.  Mais c’est aussi une voie où l’on rencontre le secours imprévu de voix similaires, comme dans une constellation clandest...

Surpresas em caixinhas forradas

O número 14 do jornal Coreia traz um texto formidável de Carlo Canún sobre o Cine Savoy. Uma sala de cinema na Cidade do México que exibe filmes porno gay e que é, ao mesmo tempo, lugar de encontro para relacionamentos sexuais entre homens. Canún compara a configuração do Cine Savoy com a página de um livro: «As poltronas funcionam como o corpo do texto, disposto em duas colunas. As pessoas a foder, à maneira de uma orgia, no espaço por baixo do ecrã e em frente às poltronas, funcionam como notas de rodapé. Podem ser ignoradas, mas quando não o são trazem informação relevante. Por fim, as margens. Esses espaços a que normalmente não se dá importância, mas onde acontece o que é mais interessante.» Savoy é também o nome do hotel do grande romance de Joseph Roth. Gosto de imaginar que não é um acaso. O livro de Roth começa assim: «O Hotel Savoy promete aos seus hóspedes água, sabão, casa de banho inglesa, elevador, criada de quarto com touca branca e ainda surpresas em caixinhas forrada...

Abril

Ao embater na realidade, o cartaz de comemoração dos dois anos de actividade do governo ganha um tom de ameaça. Pelo sim pelo não, comprei cravos para perfumar a casa e a vida.

Como no filme de Hana Makhmalbaf

A alegoria, diz o dicionário, é uma representação simbólica da realidade. Quando a fronteira entre a realidade e a alegoria se desfaz, o chão desaparece. É isso o que acontece num filme que vimos esta semana: Buda caiu de vergonha , de Hana Makhmalbaf. A violência indizível do filme reside na impossibilidade de distinguir a realidade da alegoria. Algo de semelhante se passa hoje no mundo: já não somos capazes de distinguir o presidente dos Estados Unidos e outros chefes bufões da extrema-direita das personagens do Rei Ubu. Nada é seguro, todas as referências desapareceram. O pesadelo é a realidade. Como no filme de Hana Makhmalbaf.

Acto de primavera

Ao fim de muitas revisões (a maior das práticas dialécticas?), começo a ficar satisfeita com a tradução do ensaio de Cioran sobre o pensamento reaccionário dedicado a Joseph de Maistre. O texto já parece um corpo vivo: familiar e estranho ao mesmo tempo. «Entre os pensadores que, como Nietzsche ou São Paulo, tiveram o gosto e o génio da provocação, cabe a Joseph de Maistre um lugar nada negligenciável. Ao elevar o mais pequeno problema ao nível do paradoxo e à dignidade do escândalo, ao manejar o anátema com uma crueldade misturada de fervor, ele estava destinado a criar uma obra rica em enormidades, um sistema que não deixa de nos seduzir e exasperar. A amplitude e a eloquência das suas cóleras, a paixão que dedicou a causas indefensáveis, a obstinação em legitimar umas quantas injustiças, a predilecção pela fórmula letal, fazem dele esse espírito exagerado que, não se dignando a persuadir o adversário, o esmaga de chofre com um adjectivo. As suas convicções têm aparência de grande fi...

Manguito

A imagem mostra uma menina sorridente a posar junto à carcaça praticamente intacta de um míssil. O «fotógrafo» é um adulto, talvez o pai, que também sorri, enquanto escolhe o melhor ângulo para fotografar a criança. O local é Salfit, na Cisjordânia , e a bomba é o que resta de um míssil iraniano interceptado pela defesa antiaérea israelita. À primeira vista, parece uma prova grotesca daquilo que, imagino, a guerra faz aos humanos: seres fechados na insensibilidade e na indiferença para não caírem no desespero e na loucura. Mas talvez não seja isso que a imagem mostra. Talvez a menina e o homem sorriam simplesmente porque estão vivos. Escaparam à «morte e destruição vindas do céu», como o secretário da Defesa de Trump classificou com orgulho a chamada «Operação Fúria Épica», que os Estados Unidos e Israel movem, neste momento, contra o Irão. A imagem é a prova de que a vida, mais uma vez, fez um manguito aos senhores da morte.

O maior problema seria o estado do tempo

(...) Decidiu fazer as coisas à sua maneira. Reuniria um grupo de pessoas – não era preciso serem actores profissionais – e explicar-lhes-ia o que pretendia. Deixá-las-ia decidir o que iam fazer e dizer. Usaria apenas a luz disponível, o que implicava, supunha ele, que a maior parte do filme fosse rodada no exterior. Filmaria tudo num único dia, dois talvez. Se possível, não alteraria o que tinha filmado. Pensou nos lugares que as pessoas frequentavam ou em que era possível ver pessoas: as ruas, os parques, as praias. Ia usar esses lugares. O maior problema, imaginava ele, seria o estado do tempo. Lembrou-se dos contos que tinha escrito anos antes, histórias sobre jovens em momentos de dilema e iluminação. Percebeu que estas histórias seriam o modelo para o seu projecto. Como tinham parecido vir da vida, achou que de certeza conseguiria recriá-las como experiências verdadeiras. Não admirava que a editora os tivesse rejeitado. Precisavam de ser reavivados por todo o terno desconhecime...

Pensar e passar o tempo

Hora de almoço. Despacho, em duas penadas, o que trouxe de casa no tupperware . Ponho as minhas coisas num saco e corro para a esplanada mais próxima do trabalho. Um lugar formidável: cabeça à sombra, corpo ao sol. O café custa 1 euro. Percebo que, na pressa, trouxe o caderno, mas esqueci o livro que ando a ler. O que fazer sem o livro? Decido escrever isto para passar o tempo. Claro que isto não tem qualquer serventia. Mas escrever serve para mais alguma coisa, senão para pensar e passar o tempo?

Dos jornais LII

O objectivo de Rosário Palma Ramalho é claro: esmagar os trabalhadores e acabar com os sindicatos. Só há uma resposta para toda esta sanha.

Reconversão

Notícia no jornal: «A Volkswagen estará a discutir um plano para reconverter a sua fábrica de Osnabrück, na Baixa Saxónia, passando da produção de carros para a produção de componentes para sistemas de defesa aéreos – especificamente, o sistema Cúpula de Ferro, da empresa Rafael Advanced Defense System, grupo detido pelo Governo de Israel.» A história não se repete. Não se repete?

Dos jornais LI

Aqui no bairro, a primavera começou hoje.
Percebemos que o cinema contemporâneo perdeu a sua força quando vemos Au hasard Balthazar numa sala de cinema e o mundo estremece.

Praça e Batalha

Tarde de sábado, 21 de Março. No Salão Nobre do Teatro São João, conversa-se sobre a obra de Manuel António Pina , o autor que passou a vida inteira, obsessivamente, às voltas com a palavra «casa», o lugar mítico a que todos regressamos ou desejamos regressar: «Teremos então, enfim, uma casa onde morar/ e uma cama onde dormir/ e um sono onde coincidiremos/ com a nossa vida.» Fora do teatro, na Praça da Batalha, à mesma hora, o movimento «Casas para Viver» promove mais uma manifestação contra a especulação imobiliária e pelo direito à habitação: «Mães sozinhas com crianças são despejadas, famílias vivem amontoadas, outras regressam a barracas sem água nem luz, e há quem volte do trabalho para dormir numa tenda.» Conversa e manifestação, na mesma praça e ao mesmo tempo, são uma espécie de «acaso objectivo». O país que Manuel António Pina descreveu nos seus textos é uma velha tartaruga: não pula e pouco avança.
Devia haver um plano de Molly Malone nas História(s) do cinema .

Não olhes para a câmara

Em The Scarlet Drop (1918), um dos filmes de juventude de John Ford, há pelo menos dois planos em que a heroína, Paulina (Molly Malone), olha intencionalmente para a câmara. A actriz olha-nos nos olhos para expressar uma emoção. Era o tempo em que não havia escolas de cinema. Não havia professores a ensinar que os actores não devem olhar para a câmara. Não devem? Quando Molly olha para nós, a sensação é a de acedermos a um mistério que parecia perdido para sempre.

Como resistir?

Antes de sair para o trabalho, ouço o noticiário da rádio e já não consigo pensar senão no óbvio: as palavras não são imortais. As palavras sofrem em certas bocas. São aprisionadas, envenenadas, torturadas, despedaçadas. Mergulhadas em aço líquido, ódio, peste. Enlouquecem de dor. E o que podemos nós fazer? Se não conseguimos salvar as palavras, não conseguimos salvar-nos a nós mesmos. A nossa sensação de impotência é o triunfo da tirania. Como resistir? Como salvar as palavras para nos salvarmos a nós?