Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Dos jornais LVXI

Mulher em posição fetal, acompanhada por um vaso cerâmico que guarda um punhal de rebites em liga de cobre, num dos hipogeus de Torre Velha 12. CORTESIA: LÍDIA BAPTISTA/ARQUEOLOGIA PATRIMÓNIO   Punhal de rebites recuperado pela equipa de Lídia Baptista e fotografado já depois da intervenção de limpeza e conservação preventiva. CORTESIA: LÍDIA BAPTISTA/ARQUEOLOGIA PATRIMÓNIO.
Nesta semana vi quase um filme de Hiroshi Shimizu por dia. Mais do que cinéfila, a minha relação com o realizador japonês é da ordem da medicina: uma posologia para tratar seja lá o que for.

Dos jornais LVX

O principal objectivo da nova PSU é rebaixar os mais desprotegidos. A medida tem uma carga moral absurda, que desestabiliza e obriga os beneficiários a trabalhar a troco de uma esmola. O Primeiro-Ministro explicou que é «para que as pessoas não se mantenham na armadilha da pobreza», e a Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social continuou com o seu discurso cínico . A hipocrisia dos ricos é uma coisa atroz.

Sinal de vida

O músico acaba o tema. Os turistas aplaudem, vagamente. E, de repente, ouvem-se pássaros. É um intervalo muito curto, antes do músico iniciar o tema seguinte. O breve trinado dos melros, entre versões tristes de clássicos pop , é o único sinal de vida na esplanada. Um milagre, no sentido religioso.

aforismos naturais #67

O Som do Nevoeiro é um tratado de geometria. Pascaliano.

Obra orfã

Numa palestra, a especialista em direitos de autor fala, de passagem, sobre a figura jurídica da «obra orfã». Quer dizer, a obra artística de que se desconhece o autor. Sem mãe, nem pai. Ninguém de quem herdar os males, as contradições, tudo.
O Fogo do Vento é um magnífico exercício de liberdade. Em vez de seguir uma história sequencial, o filme de Marta Mateus avança segundo regras mais antigas, que sacodem o tempo como o vento. Durante a projecção, os quadros desdobram-se em mil caminhos diferentes: somos convocados a participar nessa montagem afectiva. Ninguém vê o mesmo, mas todos reencontramos algo de fundamental e eterno.  O que mais me impressiona é a forma como as pessoas se deitam nas árvores. É certo que sobem para lá para escapar ao touro (magnífico signo de todas as coisas que oprimem, até do próprio cinema), mas depois aconchegam-se aos troncos e ramos, e o medo transforma-se em conquista. Cantam, dormitam, contam histórias passadas e pensam. (O rosto de alguém a pensar é das imagens mais belas que há, e o cinema tem o dever de o guardar.) Naquelas árvores alentejanas, nasce uma comunidade aérea ancorada em memórias longínquas e futuras – um território novo cheio de visões. Só o touro está sozinho e derro...
Tudo arde, é o fogo do vento que anuncia a canícula.

Dos jornais LVIII

Geoffroy de Lagasnerie: É por isso que digo que um dos grandes problemas da política contemporânea é a crença de que a democracia é o fim da história, como se só pudéssemos conservar a democracia ou regredir para o autoritarismo ou a ditadura. Como se não pudéssemos imaginar algo melhor do que a democracia!

Domesticar a língua

São quase oito horas da noite. Chego a casa e ligo o rádio. Uma pessoa, num daqueles programas de entrevistas confessionais, está a contar que nasceu no «norte» e que, por isso, «dizia muitos palavrões». E conclui: «Quando vim para Lisboa tive de domesticar a língua.» É praticamente a última frase do programa. Triste e cómica como um mau epitáfio.

Factos alternativos para turistas

No Piolho, um guia «explica» a quatro turistas a origem do nome do café: «Durante a ditadura de Salazar, este local era frequentado por muitos estudantes oposicionistas. A polícia política sabia disso e aparecia de vez em quando. Para não serem apanhados desprevenidos, os estudantes criaram um sinal de alerta: quando um agente entrava no café, começavam a coçar a cabeça como se tivesse piolhos. Daí o nome.»

Dos jornais LVII

Não sei se Emanuel Linhares já se desacostumou com a língua portuguesa, mas é evidente que a lei canadiana que proibiu a Marcha do Senhor Santo Cristo  é «uma lei uniforme para todos». E os cortejos do Senhor Santo Cristo nunca são silenciosos.

No prelo

Lançamento no Fundão .

Molly Sweeney

Numa pesquisa online sobre Molly Sweeney , a peça de Brian Friel, encontro o sítio de uma dramaturga chamada Molly Anne Sweeney: «This is the website for Molly Anne Sweeney , scriptwriter, not Molly Sweeney, the play.» Após certas noites mais penosas, a autora continuará assim tão certa de não ser a personagem de Brian Friel?

Exercícios de cordialidade.

Era uma vez uma inabalável lua de mel que não durou para sempre, entre um autor que escrevia mal e leitores que não sabiam disso. Tinha alguma importância que ele escrevesse mal se isso nunca se viesse a saber? Pois bem, um dia atiraram uma pedra contra essa placidez de candor. Aquela porção de público inocente abandonou-o; procurou outro autor. Mas onde encontrar hoje alguém que escreva mal, se escrever bem é a primeira coisa que o principiante faz e aprende-o em três ou quatro meses? É uma pena que se prive o autor de um público que não sabe que ele escreve mal. «Escrever bem» corresponde hoje ao que antes era a «caligrafia bonita». É tão vulgar que fugimos disso a sete pés, e se não lhe escapamos é porque o sono nos entorpeceu. O leitor comum que, nos nossos dias, encontre alguém que escreva mal, não o larga mais, porque não encontrará outro; em contrapartida, são incontáveis em toda a América os que escrevem bem. Mesmo em França, creio, já se está num novo «escrever bem», diferente...

Música de câmara

Il est mort le soleil  (Nicoletta), Vanda e Zita discutem, sons da televisão (noticiários, telenovelas, concursos, canções…), pássaros, muitos pássaros, elas fumam, o vento nas folhas da árvore, marteladas, tijolos e vidros a cair (a demolição do bairro), fungadelas, o telefone toca, as muletas do Paulo Nunes, crianças a  brincar, um pedacinho de uma peça de Webern, « quer alface e couve?  quer alface e couve? », Vanda tosse muito, o som áspero dos isqueiros, alguém varre, rapazes a falar em voz baixa, risos, fogo a crepitar, Vanda trauteia Bach, lamúrias, o russo raspa a mesa, a Vanda raspa as páginas amarelas, crianças a chorar, a canção da gata Grizabella ( the last twist of the knife ) , alguém despeja água, uma festa, elas riem-se, um apito, a campainha da bicicleta, tantas confissões, I’ve got the power , uma mota ao longe, Officium breve in memoriam Andreae Szervánsky , de Gyorgy Kurtág.