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Mensagens

Já não há quase nada em mim que não se compadeça

Doravante e por muito tempo não será questão de obra de arte. Para estarmos à escuta de novas, indistintas harmonias seria preciso não termos sido ensurdecidos pelos lamentos. Já não há quase nada em mim que não se compadeça. Onde quer que pouse o olhar, só vejo aflição à minha volta. Hoje, quem quer que permaneça contemplativo faz prova de uma filosofia desumana, ou de uma cegueira monstruosa. André Gide, Diários , 25 de Julho de 1934. (Citado em O Espaço Literário , de Blanchot.)

Sozinhas

No jornal de hoje, mais um texto sobre o restauro dos Painéis de São Vicente . Repetem-se as dúvidas e as hipóteses em torno da obra, do artista e das personagens representadas na pintura. Desta vez, no entanto, há uma tese curiosa, de Joaquim Caetano. O historiador de arte está convencido de que as personagens não representam tipos sociais, mas pessoas concretas: 58 retratos individuais, pintados em circunstâncias diferentes e que por alguma razão tinham de estar ali. E termina com esta frase espantosa : «Quanto mais olho para elas, mais sinto que estão sozinhas.»
A descrição do filme no canal por cabo diz: «Uma mulher partilha momentos importantes da sua vida com um homem». Até parece uma coisa das redes sociais, mas  Les photos d'Alix (1980)  não é nada disso. O filme de Jean Eustache é uma belíssima e divertida aula de cinema. Em dezanove minutos aprendemos que som e imagem podem seguir caminhos diferentes (piscadela a Renoir), o que parece uma cena documental não passa de uma farsa, e cada plano estabelece uma relação dialéctica com os espectadores mais disponíveis. Verdadeiro action cinema . Ainda assim, Alix diz a Boris: «uma fotografia pode ser pessoalmente pornográfica e, ao mesmo, tempo publicamente decente», ou «seduzi uma pessoa com esta foto». É preciso combater a literalidade do nosso tempo com frases ambíguas.

Livros Bicho Ruim

O que fazer quando certos livros de que gostamos ou com que sonhamos não estão publicados? Publicamos nós.  Os dois primeiros volumes dos Livros Bicho Ruim estarão já disponíveis durante a Feira do Livro do Porto, entre 21 de Agosto e 6 de Setembro, no Stand ZOO (#107). Mais informações no sítio dos Livros Bicho Ruim: aqui .
Agradava-lhe que os mesmos crisântemos aparecessem nos funerais dos homens e dos bichos. Chris Marker, Sem Sol. Em breve nas melhores livrarias e feiras.

Uma fila em que todos esperam pela oportunidade de enriquecer

Houve recessões e escassez e as pessoas sentem-se vulneráveis no plano económico e precisam de encontrar alguém a quem atribuir a culpa. Em vez de culparem as políticas neoliberais, a redução dos impostos sobre os mais ricos e a acumulação de fortunas gigantescas, culpam os imigrantes ou os pobres. Imaginam uma fila em que todos esperam pela oportunidade de enriquecer e vêem os programas de inclusão como uma forma de deixar passar à frente pessoas sem mérito: imigrantes, afro-americanos ou pessoas queer . Não percebem que não existe uma meritocracia. Quem acumulou milhões beneficia de reduções fiscais e de empresas que pagam pouco aos trabalhadores. É difícil culpar um sistema. Muitos pensam que o capitalismo é maravilhoso e meritocrático e que o sistema económico não pode, por isso, ser o problema. Culpam aqueles que chegaram às suas comunidades com outros modos de vida, outras formas de vestir e de falar. Em vez de encararem a diversidade como um enriquecimento da cultura, sentem-na ...

Campanha com fumo e cinza

Novos outdoors do chefe da extrema-direita. Imagem: o chefe de perfil com a bandeira portuguesa em fundo. Mensagem: «Salvar Portugal.» Salvar de quem ou de quê? Se o país tem de ser salvo de alguém ou de alguma coisa é óbvio de quem ou de quê. A corrupção moral e as falsas guerras destes novos-velhos chefes «providenciais» foram, são e sempre serão a grande ameaça.

Aqueles que evocam a ira

Os miúdos marroquinos que se fizeram ao mar para chegar a Ceuta são uma resposta louca à Odisseia. É isto que o cinema tem de filmar.

Nova humanidade

De um ponto de vista estritamente político, fascismo e nazismo não foram superados e é sob o seu signo que vivemos ainda. Eles representavam, porém, uma pequena burguesia nacional, ainda ligada a uma falsa identidade popular, sobre a qual agiam sonhos burgueses de grandeza. A pequena burguesia planetária, em contrapartida, emancipou-se destes sonhos e fez sua a atitude do proletariado que consiste em declinar toda e qualquer identidade social reconhecível. (…) Nada se assemelha mais à vida da nova humanidade [formada pela pequena burguesia planetária] quanto um filme publicitário do qual foi apagado qualquer sinal do produto publicitado. A contradição do pequeno burguês é que ele ainda procura, porém, neste filme o produto pelo qual sofreu uma decepção, insistindo apesar de tudo em se apropriar de uma identidade que, na realidade, se tornou para ele absolutamente imprópria e insignificante. Vergonha e arrogância, conformismo e marginalidade são assim os extremos polares de toda a sua t...
(...) em outro [epigrama] (III, 44), Marcial faz troça do poeta ansioso e empolgado que está sempre querendo declamar seus versos a todos que encontra pelo caminho, " currenti legis et legis cacanti ", ou seja, "você lê quando estou correndo, lê quando estou cagando" (no começo, ele escreve: "Queres saber por que ninguém vai ao teu encontro - por que, aonde quer que vás, há fuga e uma vasta solidão ao teu redor, Ligurino? És poeta demais"). 

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Hernando de Ludeña, poeta cortesão do Siglo de Oro , especifica a idade máxima que um amante pode ter para que as suas aspirações amorosas não o lancem no ridículo: «El galán ha de tener/ lo primeiro tal hedad/ que de treinta e seis no passe.»

Tubarões e nuvem

Leio no jornal que a principal ameaça à «nuvem» (o complexo sistema de centros de dados ligados por cabos submarinos) são os tubarões. A notícia é acompanhada por um mapa do mundo com linhas que unem os continentes e que representam os cabos submarinos. A imagem lembra aqueles jogos infantis em que, unindo os pontos, surgem aos poucos certas figuras: um palhaço, um barco, uma nuvem, um tubarão.

Um eco

Um homem passa na rua a assobiar uma melodia qualquer. É um daqueles assobios que dantes se ouviam entre os trabalhadores da construção e também das oficinas. Forte e doce, como um instrumento afinado, ecoando pela rua toda. Há anos que não ouvia nada de semelhante. Uma incursão do passado, pasoliniana, nesta época arrasada, nivelada, terraplenada por todas as «inteligências artificiais».

El duende

En toda Andalucía, roca de Jaén y caracola de Cádiz, la gente habla constantemente del duende y lo descubre en cuanto sale con instinto eficaz. El maravilloso cantaor El Lebrijano, creador de la Debla, decía: "Los días que yo canto con duende no hay quien pueda conmigo"; la vieja bailarina gitana La Malena exclamó un día oyendo tocar a Brailowsky un fragmento de Bach: "¡Ole! ¡Eso tiene duende!", y estuvo aburrida con Gluck y con Brahms y con Darius Milhaud. Y Manuel Torres, el hombre de mayor cultura en la sangre que he conocido, dijo, escuchando al propio Falla su Nocturno del Generalife, esta espléndida frase: "Todo lo que tiene sonidos negros tiene duende." Y no hay verdad más grande.  Estos sonidos negros son el misterio, las raíces que se clavan en el limo que todos conocemos, que todos ignoramos, pero de donde nos llega lo que es sustancial en el arte. Sonidos negros dijo el hombre popular de España y coincidió con Goethe, que hace la definición del ...

Cinefilia menor

À Odisseia, contraponho L'Aventura . 

Entre o paraíso e o inferno

Hoje de manhã, a temperatura da água do mar em Pedras do Corgo era de 19°C. É este permanente viver entre o paraíso e o inferno (oh, basta dar-lhe um nome para termos um conceito) que nos corta a acção. Só vamos acordar com o inferno total e aí será tarde demais — mas não para nós.

Ler Cioran é como fazer um peeling

O texto Viva Cioran! pode entrar para a lista de anedotas que alegravam a vida do filósofo romeno. Ainda assim, fica longe do episódio televisivo — «Nunca le vi tan divertido como al contarle que en el concurso de televisión de mayor audiencia en aquella época ( Un, dos, tres ), uno de los participantes citó su nombre tras el de Aristóteles cuando le preguntaron por filósofos célebres.» (Fernando Savater, El asombro de Cioran) — ou das vendas inesperadas do Caderno de Talamanca num cabeleireiro em Ermesinde.