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Mensagens

Orientação emocional, estética e existencial

Numa agenda online dedicada a acontecimentos culturais no Porto, o anúncio da apresentação da antologia de poemas de A. Dasilva O., E a Poesia Dá à Luz uma Bússola Louca , é um exemplo de delírio induzido pela Inteligência Artificial. O livro é descrito como «um instrumento de orientação emocional, estética e existencial» . E o «evento», isto é, a apresentação da antologia, como «uma tarde dedicada à poesia, ao diálogo literário e à celebração da palavra escrita, num ambiente intimista e de proximidade entre autores e público». Na verdade, faz sentido: para a Inteligência Artificial todos os livros são de auto-ajuda e todos os encontros, intimistas.

Mais de vinte

Um folheto distribuído por uma igreja evangélica apresenta o «testemunho» de uma mulher chamada «Mónica» que «fez mais de 20 tentativas de suicídio». Se somos assim tão simplórios e fáceis de convencer, merecemos o inferno de todas as igrejas, de todos os deuses de vão de escada, de todos os intrujões, curandeiros e chefes da extrema-direita deste mundo e do outro.
«Nada está no seu lugar» – refrão das emigrações e, ao mesmo tempo, ponto de partida da reflexão filosófica. O espírito desperta em contacto com a desordem e a injustiça: o que está «no seu lugar», o que é natural, deixa-o indiferente, entorpece-o, ao passo que a frustração e a espoliação lhe convêm e animam-no. Um pensador enriquece-se com tudo o que lhe escapa, com tudo o que lhe é roubado: se vier a perder a pátria, que fortuna!   Exercícios de Admiração – Ensaios e Retratos, de Emil Cioran, Gallimard, 1986.

Acumuladores

A meio da conversa, uma amiga pergunta: «Qual é a diferença entre os acumuladores, que enchem a casa até ao tecto de coisas sem utilidade, sacos de supermercado, jornais, latas, sapatos e roupa velha que encontram no lixo, e os outros, os super-ricos, que acumulam dinheiro, casas, carros, naves espaciais? O tipo de patologia não é o mesmo?»

Antiteatro

O psicodrama usa a gramática do teatro para fins terapêuticos relacionados com a saúde mental, mas não é teatro. No teatro, representamos o papel de outros; no psicodrama, representamos o nosso próprio papel. No teatro, colocamos uma máscara; no psicodrama, retirámo-la. Nesse sentido, o psicodrama é uma espécie de antiteatro. No entanto, muito do teatro que se faz hoje é, digamos, autobiográfico. Há um número muito significativo de criações para o palco que recorre directamente a referências, acontecimentos, memórias e traumas pessoais dos artistas. Se o psicodrama não é teatro, o teatro parece ser o palco para muitos psicodramas. O teatro está a canibalizar o psicodrama.

Um poeta

Leitura em grupo de Bruscamente, no Verão Passado , de Tennessee Williams, no auditório de uma escola artística do Porto. Cena Um. A Sr.ª Venable descreve ao Médico que o filho, Sebastian, morto em circunstâncias trágicas no Verão do ano anterior, «era um poeta». Um poeta? Sim, «escrevia um poema por ano». Um leitor jovem, ao meu lado, desata a rir. E está certo.

cês

Para traduzir as cartas de Sandor Krasna  – caramba, este nome é uma bela criação de Chris Marker! –, ousei recorrer por duas vezes à delicadeza de Camilo Pessanha. A tradução também tem momentos de grande vaidade.

Um cesto de batatas

O Angelus , de  Jean-François Millet : um camponês e sua mulher, de mãos postas, cabeças baixas, rezam em um campo de trigo, diante de um cesto de batatas. Quando se passou o quadro de Millet pelo raio X, descobriu-se, sob o cesto de batatas, a mágoa do pintor: havia ali o ataúde de uma criancinha. Millet conta em suas memórias que, quando quis expor o seu quadro com a criança morta, um amigo aconselhou-o a mudar o motivo, por ser muito triste e difícil de vender. Mais que depressa Millet recobriu o pequeno ataúde com um cesto de batatas. E Dali, quando lhe contaram a história disse logo: "Eu sempre pressenti a morte de uma criança nesse quadro." Anne Ancelin Schutzenberger, Meus Antepassados . Tradução José Maria da Costa Vilar.

Dos jornais LV

No domingo, Edward Warchocki foi filmado a afugentar um grupo de javalis numa rua de Varsóvia.

Operação Fúria Divina

Na montra da Académica, um monte de livros de José Rodrigues dos Santos. Percorro os títulos: «Fúria divina», «A fórmula de Deus», «A mão do diabo», «O protocolo do caos», «A chave de Salomão», «O anjo branco». Parecem nomes de operações militares, saídos da cabeça do presidente dos Estados Unidos.

Apanha-bolas

Ida Lupino aparece nas História(s) do cinema , mas também devia haver um plano de Sally Forrest a jogar ténis no filme  Hard, Fast and beautiful . Em Wimbledon, quando já percebeu que está metida num colete de forças, com o rosto crispado e golpes de raquete agressivos.
«É a chorar que o húngaro se diverte.» É um verso, é um provérbio magiar? Não sei. O que sei é que pertenço a esse mundo, nem que seja pela minha tristeza constante.   Emil Cioran, Cadernos 1957-1972

Dos jornais LIII

Para além de uma visão antiquada e reaccionária, a Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social não lê os jornais:  Semanas de quatro dias ou de 32 horas; bancos de horas pagas; mais impostos sobre ganhos de capital e das empresas; impostos sobre o trabalho automatizado.

Suicídio exemplar

Philipp Mainländer enforcou-se na noite de 1 de abril de 1876, em Offenbach, poucas horas depois de ter recebido os primeiros exemplares da única obra publicada em vida: A Filosofia da Redenção . Há quem diga que usou uma pilha de livros acabados de imprimir como degrau. A imagem até pode ser apócrifa (é o mais provável), mas não evoca uma poderosa imagética católica?

C’est un grand jeu

(...) Le sujet anonyme séculier devra-t-il se satisfaire de la disparition de l’invisible, qui est désormais le présupposé de la vie commune ? C’est là qu’est la ligne de partage.  Si l’essentiel n’est pas de croire, mais de connaître comme l’exige toute gnose, il s’agira de s’ouvrir un chemin dans l’obscurité en usant de n’importe quel moyen, dans une sorte de bricolage incessant de la connaissance, sans disposer d’aucune certitude sur le point de départ et sans pouvoir davantage imaginer inclure un quelconque point d’arrivée. Telle est la condition à la fois humble et exaltante dans laquelle est plongé celui qui n’appartient aujourd’hui à aucune confession, tout en se refusant à accepter la religion — ou plus exactement la superstition — de la société.  C’est une voie difficile, sans nom ni point de repère qui ne soit crypté et strictement personnel.  Mais c’est aussi une voie où l’on rencontre le secours imprévu de voix similaires, comme dans une constellation clandest...