A maldição do leitor fanático: reconhecer em tudo, como alguém tomado por alucinações, ecos das palavras e ideias dos seus escritores. Uma carta de Beckett a Axel Kaun, de 1937, parece a cópia de uma entrada dos diários de Macedonio Fernández: «Tenhamos a esperança de que virá o tempo em que a linguagem é mais eficientemente usada quando mal-usada. Cavar nela um buraco atrás do outro, até que aquilo que está à espreita por detrás – seja alguma coisa ou nada – comece a emergir. Não consigo imaginar objectivo mais elevado para um escritor.»
Bicho ruim
de Cristina Fernandes e Rui Manuel Amaral