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Mensagens

In red

Has anyone so consistently chanced upon the random glamour of the street? 

To make sure I was not reacting over-enthusiastically to this image, I looked through Martin Harrison’s survey of fashion photography, Appearances, to see how it fared alongside famous images by Arthur Elgort, Louis Faurer and the rest. It doesn’t have the conceived and fully achieved perfection that we see in page after page of Vogue. If it had been posed, the woman with her back to us would have been more elegant, less boxy-looking but, equally, we would have lost that lovely — touching — accidental echo of hands that holds the black and white women together.

Diane Arbus’s objection to fashion photography also works in Winogrand’s favour. She hated fashion photography “because the clothes don’t belong to the people wearing them . . . When the clothes do belong to the person wearing them they take on a person’s flaws and characteristics and are wonderful.” When we see someone wearing a fine garment, we might b…

On blue

Garry Winogrand (1928-1984). Untitled (New York), 1960. 35mm color slide.

Peguei “Carne Crua” do expositor de novidades da biblioteca.

Os contos são muito curtos, leio “Gosto de ver o mar” entre o Campo 24 de Agosto e Francos e ainda me sobra tempo para ver quem vem na carruagem, olhar lá para fora, verificar as temperaturas previstas para hoje. O tamanho não é defeito; nem as repetições dos temas ou o estilo de identidade. O problema é que já vou a meio e continuo com a sensação que “Carne Crua” é um livro de marca branca. Rubem Fonseca está a escrever como um Rubem Fonseca mais fraquinho e mais barato. Parece livro falsificado ou até escrito no celular? Tem Wikipédia a mais. Tem cansaço a mais. Não basta sacar da pistola e citações em latim para assegurar uma função. Nem mesmo a Rubem Fonseca. Que pena!


Já perto do fim, “Nada de novo” acaba por safar o livro. Se fosse só este conto. E mesmo assim.

Fracasso

O conto intitula-se «Vida e aventuras de Pavlichenko Matvei Rodionytch» e é acompanhado de uma nota de rodapé do tradutor, Armando Pereira da Silva, que diz o seguinte: «A tradução desta narrativa, mesmo com a melhor vontade do mundo, não podia ser feita senão numa linguagem aproximada e convencional.»
O leitor sabe que, de uma maneira ou de outra, todas as traduções não podem senão adoptar uma «linguagem aproximada e convencional». E, no entanto, o tradutor faz questão de lembrar essa evidência. Não há trabalho mais honesto do que o da tradução literária. É o único que, desde o primeiro instante, e por mais esforço que se faça, estará sempre destinado ao fracasso.

Fuga

Em dez minutos, o canalizador trocou o velho chuveiro, que pingou durante anos e quase inundou a casa de banho, por um novo que não pinga e não tem um risco ou mancha.
Não há nada mais intrigante do que um chuveiro ou uma torneira que não pingue. A pura normalidade, sem fuga ou mácula, é tão estranha como um sonho branco e interminável onde nada acontece.

Princípio de intriga geográfica

Descobri o último livro do Alexandre Andrade à venda no OLX. É um anúncio vulgar, mas esta frase das condições de entrega tem um princípio de intriga geográfica, podia fazer parte de um conto escrito pelo Alexandre: “Entregamos em mãos na Faculdade de Letras de Lisboa (dias úteis das 10h às 17h), entregamos em Alcochete a qualquer hora.”

Alors, un petit supplément?

A citação de Tati mais usada lá em casa costumava ser “Tudo comunica”. Se não me engano, é de uma cena em que a senhora Arpel demonstra às amigas a funcionalidade da sua cozinha moderna. Serve para comentar com extrema concisão quase todos os mecanismos da nossa vida.
Nos últimos tempos, digo com mais frequência “Vai mais uma pincelada?”.
Ou a minha sensibilidade cromática aumentou. Ou o mundo está mais parecido com o carro do senhor Arpel. Ou tudo.

A fim de Wittgenstein

Vinha a descer Antunes Guimarães e, sem dúvida por causa do sol quente (o letreiro da farmácia marcava 18°), lembrei-me de fazer uma lista de músicas para Ludwig Wittgenstein. Já existe esta. Mas não estava a pensar nas preferências do filósofo —  é ao contrário; as músicas é que estão a fim de Wittgenstein ou de qualquer coisa que Wittgenstein tem.

False documents (Laurie Anderson), Vitamin (Kraftwerk), In a manner of speaking (Tuxedo Moon), Bach: The Goldberg Variations — todas as versões de uma ponta à outra (Glenn Gould), Language is a virus (Laurie Anderson), I'm the walrus (The Beatles), Ohm, sweet Ohm (Kraftwerk),  4’33’' (John Cage), Proverb (Steve Reich), If you can't talk about it, point to it (Laurie Anderson),
1930
Engelmann disse-me que em casa, ao remexer uma gaveta cheia de manuscritos seus, estes lhe parecem tão excelentes que pensa que valeria a pena dá-los a conhecer a outras pessoas. (Diz que o mesmo se passa ao ler cartas dos seus parentes já falecidos.) Mas quando pensa em publicar uma selecção desses manuscritos, as coisas perdem o seu encanto e valor, o projecto toma-se impos­sível. Eu disse que tal se assemelhava ao caso seguinte: nada há de mais extraordinário do que ver um homem, que pensa não estar a ser observado, a levar a cabo uma actividade vulgar e muito sim­ples. Imaginemos um teatro; o pano sobe e vemos um homem sozi­nho num quarto, a andar para a frente e para trás a acender um cigarro, a sentar-se, etc., de modo que, subitamente, estamos a observar um ser humano do exterior, de um modo como, normal­mente, nunca podemos observar-nos a nós mesmos; seria como observar com os nossos próprios olhos um capítulo de uma biografia — isto poderia, sem dúvida, ser ao mesmo temp…
1930
Disse, em tempos, talvez acertadamente: a cultura antiga fragmentar-se-á e tornar-se-á finalmente um monte de cinza, mas sobre as cinzas pairarão espíritos.

Ludwig Wittgenstein, Cultura e Valor, Edições 70.

Kiev

Entre as páginas de um velho livro de contos de Isaac Babel, editado pela Portugália, em 1967, e que comprei em segunda mão, encontro uma etiqueta das linhas aéreas da União Soviética. A etiqueta seguiu com a mala de alguém que viajou até Kiev. Tirando isso e o número do voo, 014828, não há mais informação. Não há qualquer referência à data ou ao local de partida.
Talvez o livro tenha acompanhado o viajante até Kiev e regressado com ele a Portugal, e ao Porto. Talvez a etiqueta seja mais antiga do que o livro e tenha sido usada como marcador ao longo de vários anos, tendo percorrido as páginas de outros livros. Talvez seja a recordação de uma viagem feliz, ou infeliz, ou nem uma coisa nem outra. Talvez tenha sido o início de qualquer coisa importante, ou o fim, ou apenas uma viagem que não deixou memória.
Há uma longa literatura que existe dentro dos livros, mas que nunca será impressa. Uma literatura secreta transmitida de uma geração de leitores para a seguinte, através de sinais, m…

Influenciadores do século XX

Gatos

Na avenida Fernão de Magalhães, quase a chegar ao Campo 24 de Agosto, há dois gatos numa loja de candeeiros. Ontem de manhã estavam aninhados na montra junto a um candeeiro aceso — quietos, sérios. Os gatos das lojas são diferentes dos gatos da internet.

Gaiolas melhoradas

Ao ler a notícia sobre a apreensão dos ovos, fiquei presa no primeiro parágrafo:

Eram vendidos como “ovos provenientes de galinhas criadas ao ar livre”, mas tratava-se, na realidade, de animais criados “em gaiolas melhoradas”.

Gaiolas melhoradas? Mais do que a vigarice evidente, o que me assusta é a necessidade de utilizar eufemismos no negócio dos ovos.

Como muitos escritores

Zinaida tinha necessidade de cada um dos seus admiradores. (...) Maidanov correspondia à inclinação poética da sua alma. Era um homem bastante frio, como muito escritores. À força de repetir-lhe que a adorava, acabou ele próprio por acreditar. Cantava-a em versos intermináveis, que lhe lia numa espécie de êxtase delirante, mas perfeitamente sincero. Zinaida compadecia-se destas ilusões, mas zombava dele, não o tomava a sério e, depois de lhe ouvir as suas expansões, pedia-lhe invariavelmente que recitasse Púchkin, "para arejar um pouco", dizia ela.

Ivan Turguenev, O primeiro amor. Tradução de Mário Franco.

A Árvore

Aconteceu há mais de dez anos. Estávamos em Castelo Branco à procura do caminho para Belgais. Perguntámos num café à beira da estrada. O dono disse que era fácil: — Seguem em frente, vão encontrar uma árvore, viram à direita. Metemo-nos no carro. Havia muitas árvores a rodear a estrada. Continuamos a andar. De repente, reconhecemos a árvore.

Sempre pensei que isto era uma cena perdida de um filme de Kiarostami que me tinha calhado em sorte. Afinal, também pode ser uma parábola apócrifa de Wittgenstein (reconhecemos a árvore porque estava em itálico).

Uma outra miopia

Esta nota de 1929:
É difícil indicar um caminho a um míope, visto que não se lhe pode dizer: «Olhe para aquela torre de igreja a 16 quilómetros daqui e siga nessa direcção.»

Compreendo onde Ludwig Wittgenstein quer chegar (uma boa parábola refresca o entendimento — e vão duas notas), mas esbarro na literalidade do agrimensor: dezasseis quilómetros de distância, uma torre de igreja com cinquenta e tal metros de altura?

Trocadilho

No Ateneu Comercial, há dois bustos a ladear a escadaria de acesso à biblioteca: um de Camilo e outro de Ramalho Ortigão. Acontece que, por descuido ou de forma deliberada, alguém dispôs o busto de Camilo no pedestal do Ramalho e o de Ramalho no pedestal do Camilo. Eis uma espécie de trocadilho que nenhum dos dois desdenharia.
1914
Temos tendência para confundir a fala de um chinês com um gorgolejo inarticulado. Alguém que compreenda mandarim reconhecerá, no que ouve, a língua. Muitas vezes, não consigo, analogamente, distinguir num homem a humanidade.

Ludwig Wittgenstein, Cultura e Valor, Edições 70.

Observações avulsas sobre a boavista #17

Descer a avenida pelo lado direito. Atravessar a ponte sobre a via de cintura interna quase até ao fim. Parar um tempo por cima dos carros e camiões que passam velozes em direcção à Arrábida. Abarcar a estrada, os veículos, os painéis e a vegetação que cresce a monte — no mesmo plano.

Esqueçam Serralves, o melhor sítio na Boavista para perceber a arte contemporânea é aqui.

Entre o céu e a terra

Estou a pensar naquela árvore que Ritwik Ghatak mostra no primeiro plano de «Meghe Dhaka Tara» e que surge várias vezes ao longo do filme. Uma espécie de enorme nuvem presa ao chão pelo tronco. Essa criatura, meio árvore, meio nuvem, a meio caminho entre o céu e a terra, lembra-me o Manuel Resende.


Uma cena tipo Stephen King

Não são apenas os erros, quando leio o que escrevi nem sempre reconheço o sentido original, noto desvios — às vezes não percebo nada.

Deve ser por isso que escrevemos, para encontrar essa sensação esquisita de chegar a um território desconhecido, para perder a estabilidade.

Mas há mais: indiferente à nossa vontade, a língua movimenta-se como uma coisa viva — uma serpente.

A escrita contendo em si um arrepio de medo e exaltação.