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Mensagens

Quase trinta anos

Legendary Armenian filmmaker Artavazd Peleshian is set to release La Nature (or Nature), his first film in almost three decades at an exhibition in Paris.
Premiered by the Fondation Cartier,
La Nature brings together amateur shots of nature, such as volcanic eruptions, earthquakes, tsunamis, and grandiose landscapes from the internet, juxtaposing the overpowering force of nature with human ambition.
Texto completo aqui.

Aforismos há muitos

Agudeza, de acordo com Baltasar Gracián, é uma boa definição; ampla, com óptimas vistas.
Brian Dillon aproveita o lance e escreve: o aforismo é antes de mais algo afiado ou aguçado, aplicado com violência — mas esta violência não pode ser definitiva, tem de ser repetida uma e outra vez.

Entretanto lembrei-me d’ O Vespão de Peruca e ocorreu-me ferroada. De acordo com o dicionário: picada com ferrão, mas também censura picante ou sátira. Tem qualquer coisa de wit — podia ser usada em exclusivo pelos ingleses, como um chapéu de Ascot.

Ainda tenho outra proposta, mas esta é demasiado jocosa, quase uma greguería. Apanhei-a por causa do que Cioran escreveu sobre a importância da comida em França. Aqui fica em jeito de homenagem ao filósofo, à língua e a outras delicadezas francesas: amuse-bouche ou, melhor ainda, amuse-gueule. Um aperitivo oferecido que se come de uma só dentada. (Claro que transformar um entretém de boca numa tomada de posição filosófica não é para qualquer um — é preciso …

Fumo

Leio no jornal um texto sobre movimentos sociais no Porto que reivindicam o direito à habitação. A socióloga Inês Barbosa, que estuda o assunto, diz que são, quase sempre, fenómenos pontuais e efémeros. Na verdade, não devem ser considerados sequer «movimentos sociais» porque «não são consistentes e têm tendência a esfumarem-se com rapidez.» Tal como aparecem, por vezes até com algum impacto público, desaparecem no momento seguinte.
É como se tudo à nossa volta seguisse hoje uma espécie de padrão facebookiano. Um protesto pelo direito à habitação tem o mesmo valor de uma publicação nas redes sociais: de manhã aparece no mural e gera «reacções», à tarde não.
— Pela última vez, Deus também não existe.
— Então, quem anda a gozar assim com as pessoas, Ivan?
— O Diabo, pelos vistos — esboçou um sorriso Ivan Fiódorovitch.
— E o Diabo existe?
— Não, também não existe.

Os Irmãos Karamázov, primeira parte, livro 3 “Os Voluptuosos”, capítulo 8 “Enquanto se toma conhaque”. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra. Editorial Presença. Outubro de 2002.

Por causa do sol

O senhor mandou queimar uma pradaria... pintou casas de cores totalmente diferentes... e fala-se de um bosque que o senhor pintou.
Antonioni: Sim, é verdade. Mas eu não pude rodar a cena por causa do sol. Havia um bosque que me interessava, que ficava ao lado de uma fábrica muito grande, muito importante, com quatro mil operários... e devia começar o filme por uma greve... e essa greve deveria acontecer perto do bosque. O bosque era verde, claro... mas sentia que esse verde... não era adequado ao momento. Então, quis pintar o bosque de branco, aliás, de cinza. O branco sobre o verde dava uma cor cinza. Fizemos isso. Pintamos a noite inteira com uma grande bomba... que soltava um tipo de tinta, mas era quase uma fumaça. Mas no dia seguinte, ao sol, não pude filmar... porque ficamos contra o sol e o bosque parecia preto.Michelangelo Antonioni, a propósito de O Deserto Vermelho.

O tipo de homem não só inútil e depravado, mas ao mesmo tempo inapto.

Apesar do título e do narrador explicar, ainda antes de começar a acção, que o herói do livro é Aleksei Fiódorovitch Karamázov, as descrições e as entradas em cenas de Fiódor Pávlovitch (pai dos três irmãos Karamázov) são prodigiosas de bufonaria.

Só para dar três exemplos.

Logo na primeira página do primeiro capítulo, um retrato e conceito muito bem definidos (nada a mais, nada em falta, excelente ritmo):
Agora digo apenas que este “proprietário rural” (como lhe chamavam aqui, embora não tenha vivido na sua propriedade durante quase toda a vida) era um tipo estranho, desses que no entanto se encontram com bastante frequência, ou seja, o tipo de homem não só inútil e depravado, mas ao mesmo tempo inapto — desses inaptos que, aliás, sabem tratar muitíssimo bem dos seus interesses mas, pelos vistos, só disso. (Página 17)

Mais à frente, esta conversa de Fiódor Pávlovitch com o filho Aleksei é de uma perfeição extrema e perturbadora; por preguiça transcrevo apenas um pedaço:
(...) Mas est…

Diário

Entre 26 de Agosto de 1911 e 26 de Setembro do mesmo ano, Kafka não regista qualquer entrada no seu diário. Há períodos ainda mais longos de «silêncio»: entre 19 de Setembro de 1917 e 6 de Julho de 1919, por exemplo. O que terá acontecido durante esses longos meses em branco? Quando não escrevia, quem era Kafka? Interessa saber?

Corrida de obstáculos

Para ocupar cinquenta por cento do meu tempo de trabalho — agora e possivelmente até ao fim do ano — livre, pensei traduzir as Lágrimas e Santos do Cioran de uma ponta à outra. Decidi continuar a ler Dostoiévski para aquecimento e preparação, como se fosse uma prova de atletismo. Os Irmãos Karamázov estão a revelar-se uma verdadeira musa, quero dizer, tusa, não, púsia, púsia — assim é que é.

A mão de Alexandre

A aproximação da morte faz com que as grandezas terrenas nos inspirem comiseração – até o ambicioso ela desengana. Dizem que, sentindo-se morrer, Alexandre, que em vida a si mesmo oferecia hecatombes de povos inteiros, que abalava com hostes de soldados para dar caça aos ceptros e às coroas, ordenou que o sepultassem com a mão fora da cova, a fim de que cada pessoa ao passar pudesse, ao ver aquela mão vazia, calcular o que lhe restava das suas conquistas e o que se leva para o túmulo dos tesouros deste mundo. Lição perdida! Nadir e Gengis Khan não passaram por lá. Um único conquistador, aquele que troça de todos os outros, apenas o Tempo pôde vê-la e não a respeitou. Ao ceifar Babel e outras ervas daninhas do género, pisou a mão de Alexandre.
Jules Lefèvre-Deumier, Embriagai-vos | Antologia de poemas em prosa de autores franceses. Tradução de Regina Guimarães. Em co-edição até 11 de Outubro. Para ser co-editor é só seguir o link.

Sinfonia de uma pequena cidade

Obras na avenida Fernão Magalhães (sul). Obras no prédio ao lado (traseiras, norte). Obras no apartamento em frente (a toda a volta). No segundo andar, o médico toca piano (escadas).
Como nos vícios, queremos sempre algo mais forte.
Depois d’ O Idiota, avanço para Os Irmãos Karamázov.

Sinto um formigueiro na cabeça.

A minha biblioteca é mais divertida do que a tua, Alberto.

Aproveitei o fim de semana de chuva e nuvens para limpar os livros.

Tirando algumas colecções, autores ou temas que têm direito a uma prateleira inteira, arrumei os restantes por ordem alfabética. Às vezes tive de fazer pequenas falcatruas. Por exemplo: empurrei Guillaume Apollinaire mais para a frente para o Rui Manuel Amaral ficar juntinho ao Roberto Arlt.

Robert Walser é o escritor mais poliglota da minha biblioteca. Tenho livros em português, francês, inglês e alemão — ocupam trinta e cinco centímetros.

Descobri três livros repetidos.

Vou viver no museu tal como costumo viver em casa

Eu sou artista. Sou mulher. Sou esposa. Sou mãe (ordem aleatória). Passo demasiado tempo a lavar, limpar, cozinhar, renovar, apoiar, preservar, etc. Além disso (e até agora estes dois mundos estavam separados), "faço" Arte.Agora vou só fazer estas actividades quotidianas de manutenção, tornando-as conscientes, expondo-as como Arte. Eu vou viver no museu tal como costumo viver em casa, com o meu marido e o meu bebé (exacto, mas se não me quiserem no museu à noite, regresso todos os dias) durante o tempo todo da exposição e farei tudo isto como actividades de arte pública: vou varrer e encerar o chão,  limpar o pó a tudo, lavar as paredes (ou seja, "pinturas de chão, trabalhos com pó, esculturas de sabão e pinturas de parede"), cozinhar, convidar pessoas para comer, limpar, arrumar, mudar as lâmpadas. É possível que faça aglomerações e disposições com todo o material excedente funcional. A área da exposição poderá parecer "vazia" de arte, mas será mantida p…

A corcunda

As pessoas dizem “atirar para trás das costas” para esquecer, mas não é bem assim.
E se a carga fica presa nas nossas costas?
Isso não implica que vamos andar com aquele peso para sempre? Uma corcunda patafísica?

Fumo

Acendo um cigarro para invocar as palavras. Nada. Apenas fumo. Pequenas nuvens pelo ar.
Mas há qualquer coisa no fumo do cigarro. Um mistério qualquer. Asa, pluma, um silêncio. O que será?

Pois bem, seja!

O homem e eu, enclausurados dentro dos limites da nossa inteligência como amiúde um lago dentro de uma cintura de ilhas de coral, em lugar de unirmos as nossas forças respectivas para nos defendermos contra o acaso e o infortúnio, afastamo-nos, estremecendo de ódio, optando por duas estradas opostas, como se nos tivéssemos ferido reciprocamente com a ponta de uma adaga! Dir-se-ia que cada um compreende o desprezo que inspira ao outro: empurrados pelo móbil de uma dignidade relativa, esforçamo-nos por não induzir em erro o nosso adversário – cada um fica do seu lado e não ignora que a paz proclamada seria impossível de manter. Pois bem, seja! 
Isidore Ducasse, Cantos de Maldoror: Canto IV, Estrofe I. Tradução de Regina Guimarães. Em breve, numa edição FLOP.

Se o banco fosse verde

Nove e pouco da manhã. Estou sentada no jardim do Calém a apanhar sol, a fazer tempo.
Ele vem ter comigo e diz:
— Não tenha medo de mim, eu não sou um assassino.
Depois acrescenta muitas coisas, conta uma história complicada quase sem sentido, mostra-me as mãos abertas, mas já não presto atenção. Aquela frase podia ser d’ O Idiota. Se o banco fosse verde.

Uma cena de luta de mulheres na lama

Conforme previsto, o sarau de apresentação do príncipe à alta sociedade, em casa dos Epantchin, correu muito mal. O príncipe exaltou-se ao falar sobre religião — o tema, por excelência, supremo—, partiu o vaso chinês, caíu redondo no chão. Pouco apto para marido de Aglaia ou o que quer que seja, depreenderam os ilustres convidados.

Mas o golpe final vem mais tarde, quando Aglaia, fazendo-se acompanhar pelo príncipe, decide visitar Nastássia para acerto de contas. Parece uma cena de luta de mulheres na lama: Aglaia e Nastássia ao centro, copo a corpo; o príncipe e Rogójin na retaguarda, nervosos e inseguros.

Aglaia levantou ativamente a cabeça.
— Tenha tento na língua, não foi com essa arma que vim lutar consigo...
— Aah! Porque afinal de contas, veio cá para “lutar”? Imagine, pensei que a menina era mais espiritual...


Aglaia ataca Nastássia pela forma como ela que se colou ao príncipe para logo o largar pelo ricaçoRogójin, a sua mania em chafurdar na desonra como um anjo que não pára …

A angústia da folha em branco

A literatura em ritmo de cavalgada

Depois de um pequeno intervalo, retomei a leitura d’ O Idiota.
A quarta parte (última e conclusiva) começa com uns pressupostos teóricos do narrador, dá lugar a personagens menores para fazer tempo, e entretanto percebe-se que as coisas vão aquecer.

A partir do capítulo seis, a sequência de cenas é exímia no humor e no ritmo. O diálogo entre Aglaia e o príncipe, a sós e à parte, sobre o sarau de apresentação do presumível noivo à alta sociedade é tão divertido e rico em estratagemas, caretas e equívocos linguísticos que parece filmado por Lubitsch:
— Oiça, Aglaia — disse o príncipe — parece que está com muito medo de eu amanhã chumbar... nessa sociedade?
— Medo? Por si? — corou toda Aglaia. — Por que havia de ter medo por si, nem que... se cobrisse totalmente de vergonha? O que me importa isso? E que tipo de linguagem é essa? O que quer dizer “chumbar”? Acho de mau gosto, uma palavra ordinária.
— É uma palavra... estudantil.
— Pois, estudantil! Imprestável! Já vi que amanhã, pelos vi…

Rapazes de um certo meio

De facto, nada havia no conjunto dos meus actos que pudesse desonrar-me, pelo menos se os comparássemos com os dos rapazes de um certo meio; e como no século em que estamos uma amante não passa por infâmia, nem alguma esperteza que nos dê sorte ao jogo, disse ao meu pai com sinceridade e em pormenor que vida tinha levado. A cada erro que confessava tinha a cautela de juntar exemplos célebres que lhes diminuíssem a vergonha.- Vivo com uma amante - dizia eu - sem lhe estar ligado pelas cerimónias do casamento. O senhor duque de... sustenta duas à vista de todo o Paris. M. de... tem uma há dez anos, e ama-a com uma fidelidade que nunca mostrou com a sua mulher; dois terços das pessoas honestas da França têm-nas e consideram isso uma honra. Fiz no jogo alguma trapaça; mas o senhor marquês de... e o conde de... não têm outros rendimentos que não esse; o senhor príncipe de... e o senhor duque de... são os chefes de um bando de cavaleiros dessa mesma Ordem.
Padre Prévost, Manon Lescaut. Tradu…

Feira do livro

Este ano, a feira do livro tem regras muito precisas. Os leitores devem seguir um percurso previamente estabelecido, avançando sempre pela direita, de forma ordenada, e evitando, tanto quanto possível, permanecer demasiado tempo no mesmo lugar. Faz lembrar aqueles romances muito bem delineados, com princípio, meio e fim, personagens sólidos como o cimento, um «plot» — como sói dizer-se —, impecável, tudo perfeito, tudo plano, tudo insípido, sem imaginação. Como uma doença que nunca nos abandona.
Não resisti e fui buscar um Bazarov. Por razões históricas, escolhi o de capa branca.
Entra na rubrica contabilística: aprovisionamentos para o inverno.

Apoio à Retoma Progressiva

Podia ir à falência no stand da Snob.

Em vez disso:

Fiz uma aposta com Henri Lefebvre. Abri o livro à sorte. O olhar (tão contrário às técnicas publicitárias) fugiu para o canto superior esquerdo: “Em Setembro de 1967, Jacques Tati oferece o guião de Playtime aos bulldozers que deitam abaixo os cenários do filme.”

Juntei as peças que faltam a Walser (os livros da BCF tem um formato porreiro para ler no metro, mais ou menos dez páginas por viagem) e a Denis Johnson.

O problema é que os Bazarov (e logo esses, caramba) ficaram a zurzir-me na cabeça.

À terceira página

Como é aborrecido escrever!
Escrever versos, ainda vá! Podem ser escritos um a um. Dão-se uns com os outros, e no fim do mês só é preciso juntá-los. Além disso, a rima serve de gancho para puxar, mais!, mais ainda!, até o verso se render, soltar.
Mesmo que se trate de escrever uma pequena novela, ainda vá! É curta como uma visita de Ano Novo. Boa-tarde, boa-noite a pessoas que detestamos ou desprezamos. A novela é o aperto de mão banal que o homem de letras dá às criaturas do seu espírito. Fácil de esquecer como um conhecimento de transporte público.
Mas trata-se de um romance! Um romance completo, com personagens que não morrem depressa.
(...)
À terceira página preciso de respirar, tomar ar, fazer um período de preguiça; e quando regresso às minhas criaturas sinto medo como se tivesse de reatar relações com uma amante que se fez avó durante a minha ausência, como se tivesse de arrastar mortos numa estrada a subir.

Jules Renard, O pendura. Tradução de Aníbal Fernandes.

Folha em branco

Numa entrevista ao Jornal de Notícias, Regina Guimarães diz que não sente a angústia da folha em branco. Escreve em qualquer parte e em qualquer circunstância.
Sou mais como Alfreda, do Espelho Mágico: passo os dias à espera de um milagre que nunca acontece.


A dialéctica fundiu

— É paradoxal que as melhores adaptações de Dostoiévski sejam de Bresson: um é eufórico e o outro refreado.

— Não basta não gostar das Noites Brancas, de Visconti, para determinar esta certeza.

— Quando escrevo “melhores adaptações” quero dizer: as que vão directas ao âmago. Quando escrevo "âmago", quero dizer: coração.

— Mas, para além desse disparo certeiro, Bresson transforma as histórias de Dostoiévski em objectos austeros ou, como diria um cinéfilo praticante, justas.

— Insolente.

— Em termos estéticos, troca Dionísio por Apolo.

— Em termos corriqueiros, retira toda a doença a Dostoiévski ou melhor: substitui a epilepsia por uma neurose contemplativa.

— Resulta tão bem no cinema.

— Mas é revigorante voltar a Dostoiévski e encontrar a exaltação e seres humanos mais imperfeitos.