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Mensagens

Mais pessoas desconhecidas em álbuns de família

Três gaivotas

Gosto de me sentar no degrau da varanda a observar as crias de gaivota que nasceram e vivem no telhado em frente à minha casa. Não se parece nada com os documentários da televisão. Um plano de conjunto, fixo, ligeiramente inclinado, com muitos tempos mortos. Não há trama nem música nem comentários sentimentais. É quase cinema.

Observações avulsas sobre a boavista #6

— Ah, Rui Rio anda a ler Confúcio; mas em que língua?

By getting right the proper names of things 
Confucius said that order would commence,

Profound semicolon

Influenciadores do século XX

Vida e destino

O que Vassili Grossman não viu ou não conseguiu descrever por palavras em Bem Hajam! talvez se perceba com mais clareza nas Quatro Estações, de Artavazd Peleshian. E o que Peleshian não mostrou ou não conseguiu filmar, talvez se consiga ver no livro de Grossman. Ambos, Peleshian e Grossman, são Sísifos, condenados a intermináveis trabalhos em tempos difíceis. Longos e árduos caminhos, com subidas e descidas, numa luta permanente com as leis dos homens, dos deuses e dos elementos. Mas a palavra correcta será “luta”? Os pastores arménios que deslizam montanha abaixo, abrindo sulcos por entre a neve ou as rochas, protegendo com o próprio corpo as ovelhas, não retirarão algum prazer daquele trabalho? É que, no fim de contas, há ovelhas, livros e filmes, vivos. Ovelhas, livros e filmes carregados de vida.


“Quem anda de cabeça para baixo, minhas Senhoras e meus Senhores, quem anda de cabeça para baixo tem o céu como abismo por baixo de si.” 

O parágrafo de Rogério Casanova (do post anterior) é bom para percebermos como Robert Walser, ao passar por essa situação de lugar comum, coisa que acontece com muita frequência, toma um atalho que o leva directamente para o centro da floresta.

Walser não se entretém a desfazer o discurso, não dá passos para a frente e para trás, não se arma em irónico ou nostálgico, livra-se de todos esses artifícios com um “sim”: aceita a banalidade, utiliza a frase digna de uma personagem de Barbara Cartland conforme ela é num mundo de novo inocente — porque, ao contrário de Lenz, Walser consegue a proeza de andar sobre a cabeça quando quer — e tremendamente inquietante (como o branco assustador das aventuras de Arthur Gordon Pym). 

“Amo-a loucamente” pode dizer uma personagem de Walser. E é tudo verdade. Como nunca antes.

Desbravando corajosamente

o denso emaranhado semântico que envolve o "pós-modernismo" (um termo cuja definição começou por variar de disciplina para disciplina, e que acabou a variar de pessoa para pessoa), Umberto Eco reduziu-o a uma "atitude", que descreveu do seguinte modo: "Um homem que ama uma mulher culta sabe que não lhe pode dizer "Amo-te loucamente", pois sabe que ela sabe (e sabe que ela sabe que ele sabe) que a expressão já foi usada em livros de Barbara Cartland. A solução é dizer-lhe "Como diria uma personagem de Barbara Cartland, eu amo-te loucamente". Tendo evitado a falsa inocência, e admitido que essas declarações já não são possíveis, conseguiu todavia dizer o que queria dizer à mulher: que a ama loucamente, num mundo que deixou de ser inocente. (...)

Rogério Casanova, Conta-me como costumavam contar o que já foi contado, DN.

Um laburno

No pequeno jardim do Café Vitória, há um laburno. Uma árvore comum na Europa Central e nos Balcãs, mas relativamente rara em Portugal. É a árvore mais bonita da cidade. Está, neste momento, em plena floração. O jardim está coberto de milhares de flores amarelas, pequenas e delicadas. Se lhes pegamos, desfazem-se entre os dedos. Leio no dicionário que a madeira é utilizada na confecção de instrumentos musicais em lugar do ébano. E que aquelas flores, pequenas e delicadas, contêm citisina e que, por isso, são extraordinariamente venenosas.

no fim de contas, e no mais profundo,

“Reflexões sobre Bach ou sobre Kafka são sinais indicadores dessa pertença. De onde as conversas elevadas dos começos de um amor. Ele disse que gostava de Kafka. Então, a idiota fica extasiada. Ela crê que é por ele ser intelectualmente bem. Na realidade, é porque ele está socialmente bem. Falar de Kafka, de Proust, de Bach, é a mesma coisa que as boas maneiras à mesa, que partir o pão com a mão e não com a faca, que comer com a boca fechada. Honestidade, lealdade, generosidade, amor da natureza são também sinais de pertença social. Os privilegiados têm massa: porque não seriam eles honestos ou generosos? São protegidos desde o berço até à morte, a sociedade é suave com eles: porque haveriam de ser dissimulados ou mentirosos? Quanto ao amor pela natureza, ele não abunda nos bairros da lata. Para isso é preciso ter rendimentos. E a distinção, o que é senão as maneiras e o vocabulário em uso na classe dos poderosos? Se eu digo fulano e a sua dama, sou vulgar. Esta expressão, distinta há…

Pessoas desconhecidas em álbuns de família

Uma fotografia nunca conta apenas uma história, mas várias. Basta não olhar em frente, mas para o lado. Basta não fixar o olhar apenas no motivo principal, mas desviá-lo para as margens, como se o observador sofresse de uma espécie de estrabismo artístico. O que está na sombra, no segundo plano, desfocado, como em Blow Up, é quase sempre tão ou mais interessante do que o motivo principal da fotografia.

Na longa série de imagens Pessoas desconhecidas em álbuns de família, da dupla Lina&Nando, este jogo do gato e do rato ganha uma nova dimensão: que personagens se escondem, em segundo plano, nas triviais fotografias de família? Quem são estas pessoas que, por mero acaso, ficam presas para sempre em imagens que não lhes pertencem? Pessoas que se escondem, como espectros, atrás das personagens principais? Ou fantasmas irrequietos que se divertem a assombrar as fotografias? Pessoas que permanecem “desconhecidas” e invisíveis? Ou criaturas que exigem um lugar próprio na história de cada…

Ok. Show me.

Uma mulher a despir-se é um cliché característico da nossa civilização. Museus, calendários, revistas, anúncios, livros ou filmes estão cheios de imagens desse tipo. A melhor cena que conheço é do Vertigo: Alfred Hitchcock inverte completamente a situação, em vez de se despir, Kim Novak veste-se, mas com as roupas de uma mulher morta — no contracampo, vemos John Scottie em êxtase. A segunda melhor cena, revi-a há bocado. É do filme Christine de John Carpenter. O Plymouth Fury 1958 foi completamente destruído, Arnie Cunningham está destroçado e não sabe o que fazer até que o rádio começa a tocar Harlem Nocturne (The Viscounts) e Christine reconstrói-se por si mesma.

Influenciadores do século XX

Do lunfardo

Querido, onde é que estão os verbos?

Ainda sobre regras para escrever bem ou seguir um método que nos parece adequado (ambas as resoluções são becos sem saída), há uma história muito gira e bastante radical que o George Saunders conta na nota final de “Guerracivilândia em mau declínio”. Depois da fase Hemingway/Babel/Carver, Saunders tentou uma escrita ao jeito de Joyce/Lowry/Lawrence e escreveu um romance com o título “La boda de Eduardo” inicialmente com 700 páginas, reduzidas para 250 mas mesmo assim intragáveis, quase sem verbos e cheias de substantivos compostos. Pediu à mulher uma opinião sobre o manuscrito, ela desistiu ao fim de alguns minutos e, com extrema concisão e justeza, disse-lhe o seguinte:

— Todas aquelas horas, para isto? Querido, onde é que estão os verbos? Puseste-os num documento à parte, ou quê? E o que é aquilo com as palavras compostas e os joguinhos de palavras e toda aquela desesclarecedora embrulhada?

Últimas aquisições

No n.º 35 da «Imagem - revista de divulgação cinematográfica», datado de Novembro de 1960, Eurico da Costa e Manuel Villaverde Cabral, no «quadro da crítica», despacham «Intriga Internacional», de Alfred «Hitchkock» (sic) com duas rotundas bolas pretas, quer dizer, com a classificação de “sem interesse”. Alberto Seixas Santos, mais generoso, dá ao filme duas estrelas em quatro possíveis, que correspondem à classificação de “Bom”.
Mais à frente, no artigo de crítica ao filme, Seixas Santos afirma: «Não sou dos que tomam o nosso autor por um génio da metafísica, mas não quero também cair no pecado contrário e julgá-lo um imbecil.»


O n.º 273 do «Jornal de Letras & Artes», de Janeiro de 1970, abre com um anúncio de página inteira do Banco Pinto & Sotto Mayor intitulado «Esclarecimento sobre o Cartão Sottomayor», onde se explica o funcionamento do cartão de crédito bancário, «processo novo em Portugal, mas utilizado já em larga escala num grande número de países.»
«Consiste este s…

Escrever bem

Não li a entrevista de Miguel Esteves Cardoso, mas também não pretendo analisá-la, apenas perder algum tempo com o título porque é bastante interessante. Durante a conversa, Miguel Esteves Cardoso afirmou “sou extremamente inteligente, tenho um grande sentido de humor e escrevo muito bem” e a jornalista destacou a frase para as letras gordas.

É um enunciado muito categórico — parece uma seta lançada com intensidade para as alturas desconhecidas, cada um dos atributos impulsionando o seguinte.

Mas na verdade, extrema ironia, a flecha cai ao chão logo a seguir ao sentido de humor; “escrever muito bem” é um desgosto na vida de Miguel Esteves Cardoso. Para quem sabe o que a literatura é (e Miguel Esteves Cardoso sabe tremendamente) “escrever bem” é uma merda. Ser austero nos adjectivos e advérbios é uma regra boa para redigir relatórios.

Influenciadores do século XX

Revolução

A ideia é revolucionária. O automóvel é revolucionário. O detergente para a roupa é revolucionário. Os produtos para o cuidado da pele são revolucionários. Os champôs para a queda do cabelo também. Os produtos financeiros são revolucionários. Os bancos são revolucionários. As conferências, palestras, seminários e workshops são revolucionários. O último disco de Lady Gaga também é revolucionário. Aquele canal de TV é revolucionário. Qualquer discurso de Marcelo Rebelo de Sousa é revolucionário. O Papa Francisco é absolutamente revolucionário. A revolução é revolucionária. A revolução é tão revolucionária como o mais revolucionário dos produtos de marca branca do Pingo Doce.



Pantone 1375 C

Trouxe laranjas para o trabalho. Tenciono comer uma a meio da manhã. Demoradamente.
Deve ser a isto que os especialistas chamam soft power.

Com a agilidade de um verdadeiro caçador diante de sua presa

Já desisti de Serralves há alguns anos. Basta-me trabalhar em Nevogilde para exceder a quota de tias e sobrinhos que consigo suportar. Prefiro a parte oriental da cidade com as suas misturas e pobreza, prefiro as ruas com algum lixo ao museu imaculado.

A inauguração da Casa do Cinema Manoel de Oliveira é igual à Sociedade das Nações Unidas descrita por Albert Cohen, tudo gente muito bem e adequada à função.

O único tipo que se salva na mole é o Luís Miguel Cintra. Agradeço a Adriano Miranda esta fotografia magnífica (guardar). Com ar de conspirador ou caçador, Luís Miguel Cintra parece compadre dos Valorosos. Gostava que fizesse um discurso verdadeiro, verdadeiro mesmo, daqueles que fazem tremer os ossos, deitam pedras abaixo e afugentam os espíritos delicados.

Ele está-se nas tintas. Também está bem assim.


Trincapregos é parecido com o António Silva das comédias dos anos 30 e 40.
Primo, na compleição física. Secundo, na fome avassaladora. Tertio, nos gestos e palavras pomposas.